Mentes Inquietas

Carta aberta ao município: a biblioteca agoniza

(Foto: Acervo Gazeta Informativa)

São Mateus do Sul conta com uma série de retrocessos. A contramão da história e da cultura é o caminho que o município decidiu tomar. O fogo que tomou o Museu Nacional é o triste exemplo de uma tragédia anunciada. Matérias em diversos jornais há anos anunciavam as precárias condições em que o prédio se encontrava; tudo em vão. “Que valor damos à nossa cultura?”, está é a indagação que guiará o decorrer deste texto, que joga luz sobre o depósito de livros que se chama de biblioteca na terra da erva-mate.

O desprezo para com diversas manifestações artísticas é nítido há décadas no município. Focando naquilo que ainda resta, a biblioteca pública municipal, corre dos olhos uma lágrima de tristeza e o nó da angustia aperta a garganta. O grande acervo cultural e científico que a sociedade são-mateuense possui é jogado de um canto para outro a cada mudança de gestão da prefeitura. Hoje, localiza-se em uma sala do Terminal Rodoviário Guilherme Kantor. A nobreza da biblioteca, que é o centro do conhecimento, luta para resistir ao local inadequado.

Como podemos esperar que surjam novos leitores se não trabalhamos para isto? O local é inadequado, estreito, sem espaço razoável para estudo. Além disso, de quando é o registro da última vez que o acervo fora renovado? Livros antigos, sem o mínimo cuidado ou restauro, perdem-se empilhados entre as poucas prateleiras. Não, não há catalogação ou sistema de busca inteligente que o leitor possa utilizar para encontrar o título que deseja. Isso não é, nem de longe, culpa de quem trabalha na biblioteca – se é que assim podemos chamá-la –, pois uma catalogação depende, antes de tudo, de uma sede fixa.

Peguemos os exemplos da França, da Inglaterra, Finlândia, Alemanha e diversos outros países que prezam por sua identidade. É isto: a identidade. Tal como é ultrapassada a visão que chama museus de “locais da história”, chamar uma biblioteca de mero “acervo de livros” chega a ser triste. Tanto museus quanto bibliotecas são recantos do conhecimento, da memória e do presente, das ciências, da cultura em suas vastas representações, do modo de ser, locais para entendermos quem somos, como nos tornamos o que somos e, é claro, para refletirmos sobre qual caminho queremos seguir. O desprezo com a biblioteca é uma estocada em sua própria cultura. Os incautos tratam esse termo com desdém, mas ele está ligado a cada ação cotidiana: ao matear, ao café da tarde, às características culinárias, ao apreço pelo ludopédio aos domingos, à conversa entre amigos em uma esquina qualquer. A biblioteca tanto retrata quanto faz parte de tudo isso. Desprezar a cultura é desprezar suas próprias ações cotidianas.

D’O Banquete, uma discussão sobre a política na Grécia Clássica, à história do Vapor Pery. Vários mundos cabem naquele espaço; não apenas de imaginação, como se costuma dizer ao ler as obras de Arthur Conan Doyle, Edgar Allan Poe, Shakespeare ou Machado de Assis, mas de especialidades de conhecimento distintos, como a Física, a Geologia e a Medicina. Como convencer uma criança a ler Drummond, um jovem a abrir uma obra de Clarice Lispector ou Martha Medeiros – duas das mentes brilhantes deste país – em um ambiente claustrofóbico?

Quem não investe na própria cultura, fatalmente se vê obrigado a ter despesas muito menos dignas. Darcy Ribeiro nos disse que a crise na educação do Brasil é um projeto. Não poderia estar mais correto. Quando se fala em educação, logo o senso comum nos remete a uma escola. Mas, como alertou Michel de Montaigne há cinco séculos, o conhecimento não está restrito aos bancos escolares; erige-se em todo o decorrer da vida e é nos nossos espaços de vivência e convivência que muito aprendemos – não é apenas o rigor científico que compõe as vivências do ser humano. Falando em educação, o grande educador Paulo Freire afirmava que a mente pensa onde os pés pisam; como podemos desejar que as futuras gerações tenham condições de projetar um futuro digno se não damos base para que as crianças despertem em si a inquietação do conhecimento e que evoluam nos tristes gráficos educacionais que o país registra nos dias correntes?

A mudança não vem de um messias eleito, mas da base da sociedade, que planta uma semente e fá-la-á germinar. O movimento que dá frutos é orgânico. Quantos dos candidatos citaram a cultura em seus programas de governo? Candidatos fazem uso de linguajar populista para atentar às pueris paixões que, o cego, confia-lhe o voto e hiberna. Há quem grite que é necessária mais disciplina e que a atuação do Exército é indispensável para garanti-la. Mas pela lógica o Exército deve se postar contra inimigos externos. Um bom exemplo vem de Winston Churchill que, durante a Segunda Guerra Mundial, recusou-se a cortar verba da cultura para os esforços de guerra. Se a Inglaterra estava em guerra, era justamente para defender sua cultura. No caso brasileiro, exercer o direito ao voto é apenas o primeiro movimento de um xadrez de pressão constante e ininterrupta, pois democracia não é escolher um governante, mas questionar e fazer com que se cumpra aquilo que é devido.

Ponta Grossa, setembro de 2018.

Por: Alexandre Douvan. Aluno de Jornalismo na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Membro do grupo de estudos em Ciências Humanas – Mentes Inquietas.

Mentes Inquietas
Últimos posts por Mentes Inquietas (exibir todos)

Comentários

Compartilhe:


MATÉRIAS RELACIONADAS
Amor cristão
Reflexões sobre a difusão cultural em São Mateus do Sul
Explicando Nietzsche para iniciantes