Educação e Cultura

Casos e causos do teatro em São Mateus do Sul

O brejo do cafundo (acervo Pau & Corda)

O brejo do cafundo (acervo Pau & Corda)

Do convívio intenso que exige a preparação de uma peça, surgem muitas histórias. Algumas engraçadas, outras tristes e até sinistras. Todas, de alguma forma, demonstram a relevância da arte para as pessoas que com ela se envolvem.

“São muitas histórias. Prefiro relembrar somente as alegres em nome do bom humor. Acho que a melhor, sem dúvida, foi uma vez que convencemos um colega (Sérgio de Lima) a nos deixar engessar a cabeça dele para obtermos um molde para fabricação dos elmos (capacetes) para os soldados romanos na Paixão de Cristo. Foi engraçado porque ele estava com medo de ter que usar alguma ferramenta de corte para remover o gesso. Mas deu tudo certo”, Luis Ferraz.

Lembranças do teatro.(Acervo José Sultowski)

Lembranças do teatro. (Acervo José Sultowski)

“Vou citar uma em específico. Na peça da Paixão e Morte de Cristo, em 2015, tivemos dificuldade para achar um ator para fazer o Caifás. Depois de várias tentativas, convidei um amigo (Eduardo Gaulke) que nunca tinha feito teatro. Ele teve que entrar no papel em tempo recorde, e se saiu muito bem. Mas no dia da primeira apresentação, no meio da peça, houve uma pane elétrica no local, o disjuntor caiu e o telão se apagou. Aquilo comprometia toda a peça. Ali o sobrenatural se manifestou: o Caifás, que era engenheiro eletricista, rapidamente encontrou problema e resolveu a pane, enquanto os demais atores seguiam no palco encenando. Passamos do céu para o inferno e novamente para o céu em poucos segundos”, Gerson Cesar Souza.

“Histórias,​ têm muitas, mas a mais marcante talvez seja a história do piazinho de Mallet, que no dia seguinte da apresentação da Paixão lá, foi pego com uma corda, dizendo que ia brincar de Judas, sinistro isso”, Cleverson Guimarães.

O futuro do teatro

Para os apaixonados pela arte teatral, algumas dificuldades levam a temer a continuidade das iniciativas em nossa cidade. Confira alguns depoimentos dos “dinossauros do teatro são-mateuense” sobre seus desejos e os desafios que a arte enfrenta.

Paixão de Cristo. (Acervo Pau & Corda)

Paixão de Cristo. (Acervo Pau & Corda)

“Falta um ‘Teatro’, um local adequado para nós realizarmos os espetáculos e criarmos nas pessoas o hábito de irem assistir às peças. Precisamos urgentemente de um Centro Cultural para a nossa sociedade se beneficiar e assim criarmos uma rotina de espetáculos e formarmos novos atores e atrizes. Assim todos poderão ver os inúmeros talentos que possuímos, mas que hoje só se apresentam na Paixão de Cristo –  isso se não parar, como aconteceu em 2004”, Fernando Wander.

“Nossa cidade infelizmente não vive o teatro. Não temos esta cultura. Estamos muito atrás de outras cidades, mas sabemos que não depende só de um grupo de pessoas apaixonadas pela  arte para que se mantenha. Precisamos de apoio e de incentivo por parte dos governantes, de mais abertura para projetos nas escolas”, Jairo Walter de Paula.

“Não saberia listar a importância do teatro para o desenvolvimento cultural de São Mateus…  Só sinto que falta! Sinto muita falta! Sinto que falta apoio! Sinto que falta valorização dos talentos da nossa cidade que poderiam ser melhor ‘explorados’, utilizados, divulgados e apreciados”, Denise Bittencourt.

“São Mateus carece de um espaço para apresentações artísticas. O Centro Cultural do CEPE se degradou, mas mesmo ele não suporta grandes eventos. É muito doido para um ator ou diretor fazer um grande trabalho, como a Paixão de Cristo, por exemplo, com mais de duas horas de peça, meses de ensaio, e ver o público (mais de mil pessoas) em acomodações precárias, sem conseguir enxergar a peça. Isso é triste!”, Gerson Cesar Souza.

“São Mateus sempre teve alguma produção teatral. Intermitente, mas teve.  O grupo liderado pelo Silvério deixou sua marca na história da cidade. O Teatro Bebé (acho que era esse o nome) foi opção nas noites são-mateuenses durante algum tempo e mais recentemente os festivais organizados no CEPE e a evolução técnica e artística da encenação da Paixão de Cristo são provas disso. Eu gostaria de ver mais apoio para a produção de espetáculos relacionados à cultura polonesa. Sei que tivemos bons espetáculos, mas pela tradição da cidade ainda é pouco.

Na minha opinião, podemos estimar o nível cultural de uma sociedade/comunidade, pela importância que ela dá às manifestações artísticas. O teatro em especial exige que os “consumidores” entendam e aceitem sua essência para aproveitá-lo. Na plateia do teatro, a pessoa tem que estar disposta a mergulhar junto com atores e personagens na obra apresentada. É tudo ao vivo e não tem replay. Ou você está pronto para receber o que está sendo apresentado ou perde o momento. Quem é culturalmente alienado é incapaz de entender isso. Por isso o Pau & Corda, com todas as dificuldades e erros que cometemos ao longo dos anos, desempenhou papel importante no desenvolvimento cultural da cidade. Jovens que se envolveram no teatro através do grupo hoje são cidadãos mais aptos a entender a comunidade. Eu pessoalmente fui muito influenciado pela participação no teatro de São Mateus do Sul”, Luis Ferraz.


Leia Mais: A cidade em cena

Larissa Drabeski

Larissa Drabeski

Jornalista com MBA em Administração e Marketing, é cofundadora da empresa Levante - Fotografia e Comunicação, que oferece serviços diversos de marketing e comunicação empresarial. Contato: larissadrabeski@gmail.com
Larissa Drabeski

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