Montagem sobre foto de araucária, do fotógrafo Zeca Hauer + ilustração do boitatá de
(https://aminoapps.com/c/mandragora/page/blog/mboitata-a-deusa-cobra-de-fogo-indigena)

O ano de 1986 ficou marcado na memória de grande parte dos brasileiros pela eliminação da magistral seleção de futebol da Copa do mundo, principalmente porque Zico perdeu um pênalti. Era o primeiro ano da nova democracia e tudo no país estava diferente. Mas a história de hoje não é sobre Figueiredo, Tancredo ou Sarney. Os personagens são bem menos icônicos e até mesmo pouco conhecidos. Os fatos acontecem na noite do dia 27 de março de 1986, véspera da sexta-feira Santa. Serão narrados na primeira pessoa, porque eu estava lá.

Na noite anterior nos reunimos na casa do “Seu Otávio”, como sempre fazíamos para conversar, tocar violão e cantar, no entanto, era a última semana da quaresma. Cantorias e música eram evitadas como manda a tradição católica e por respeito aos mais velhos. Por isso contar causos de assombração era uma boa opção de diversão naquele mundo sem internet. Não lembro de quem foi a ideia, mas sei que depois de cada um contar uma história de lobisomem, boitatá ou mula sem cabeça, decidimos fazer com que um desses seres aparecesse nas vizinhanças.

Um ditado popular diz que, se um piá (guri, moleque, menino) passar correndo sozinho na rua é possível que esteja indo com pressa comprar algo para a mãe, quem sabe um remédio na farmácia. Se passarem dois piás correndo ainda se deve dar um crédito, mas se forem três ou mais, pode ir verificar porque estão aprontando! Esse relato comprovará isso.

Passamos o dia reunindo os apetrechos necessários, tomando o cuidado para não chamar a atenção e 23:00h entramos nas várzeas da Prainha do rio Iguaçu. Éramos em seis rapazes (eu, meus manos Sérgio e Ivan e os amigos Odinei, Odenir e Dalmo), todos muito corajosos, mas ao entrar na mata escura depois de tantas histórias de assombração, ninguém queria ir na frente ou ficar para trás. Odinei, que até hoje é fã do Rambo, estufou o peito e com um facão na mão se embrenhou na várzea. Dalmo ao ver a cena teve uma crise de riso – Tomara que não apareça nenhuma cobra, se não vou ter que levar meu irmão “Rambo” no colo até a rua. (Dalmo já nos deixou e dedico este texto a ele). Eu carregava na mão uma lata de 18 litros abastecida com uma mistura de gasolina, diesel e estopa. O frentista do posto de gasolina ficou desconfiado, mas acabou vendendo os combustíveis. Odinei levou um rolo de fios de cobre e para o resto só precisaríamos de mão de obra.

Araucária original citada na história. (Fotos: Ivan Ferraz)

23:30h. Cortados de cipó unha de gato dos carreiros da mata, chegamos ao destino, o pé de araucária (pinheiro). Essa árvore alta era a única da espécie num raio de uns 400 metros e por isso se destacava do resto da vegetação, podendo ser vista de quase toda a Vila Amaral e por isso foi escolhida para essa aventura. O mano Ivan tinha grande habilidade em escalar araucárias para colher pinhão e em poucos minutos estava na segunda fileira de galhos da arvora e passou por cima deles o cabo de cobre. Uma das pontas foi amarrada num pé de embira e na outra colocamos a lata. Acendemos o fogo e içamos lá para o galho da araucária. Gente! De longe não se enxergava a lata, apenas o fogo, que aumentava ou reduzia conforme a oxigenação que a brisa da noite fornecia. Eis o boitatá! Quem iria duvidar?

Eram 23:45h do dia 27 de março de 1986 e todos os moradores da vila Amaral estavam … dormindo! Que graça um trabalho desses pra ninguém ver? Votamos pra casa e, com o cuidado, pra não acordar o pai, buscamos as cetras (aqui no RS é bodoque e em alguns lugares é estilingue). Isso mesmo! Escondidos no mato atiramos pedras nas casas. Demorou só até acordar o primeiro para o boitatá virar notícia. O ônibus que trazia os operadores da SIX voltando pra casa parou na esquina e alguns puderam ver a assombrosa aparição. O curioso é que, mesmo todos afirmando não acreditar, ninguém foi lá ver o que era. “Yo no creo em brujas, pero que las hay, las hay” (eu não acredito em bruxas, mas que elas existem, elas existem!”.

Ainda ficamos mais umas duas horas monitorando e rindo das vizinhas que agora trocavam orações e benzimentos para espantar o mal. Temíamos que a lata caísse e tocasse fogo na mata, por isso só fomos dormir quando a chama estabilizou bem pequenina. O mano Ivan acordou às 4 da manhã e foi lá resgatar o boitatá. O segredo estava seguro.

No domingo de Páscoa acordo cedo e encontro meu pai na cozinha, em frente ao fogão a lenha, mateando. Me alcança cuia, balançando a cabeça diz: – Vocês são sem-vergonha piazada! Assustaram gente de idade. A Dona Maria quase perdeu o juízo de medo. Ensinei pra ela que rezar o pai nosso de trás pra frente espantava assombração. A coitada passou a noite travando a língua e o bicho não foi embora!

No dia 04 de março deste ano, atendendo ao meu pedido, o mano Ivan foi ao local fotografar o pinheiro. Eu pretendia usar a imagem pra ilustrar a história, mas apesar de ter suportado o boitatá uma noite inteira, a árvore parece ter sucumbido ao machado.

Luís Ferraz
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