Mentes Inquietas

Cientificismo pedagógico

(Imagem Ilustrativa)

Nos últimos meses, o Banco Mundial fez uma declaração favorável aos planos do Governo Brasileiro em instaurar mensalidade nas instituições de ensino superior do país. A justificativa do governo é que há enorme “gasto” com a educação neste país e alunos que têm condições de pagar, devem fazê-lo. As inclinações do atual governo, aliadas à aproximação de mais um ano eleitoral, trazem à tona importantes discussões sobre a qualidade do ensino brasileiro em todos os níveis.

É de geral entendimento que as potencialidades apresentadas no quesito de recursos naturais são frondosas, no entanto, a exploração consciente de tais recursos não vem ocorrendo, como é o caso do pré-sal, entregue ao capital estrangeiro, assim como a indústria brasileira perde mercado após o acordo (leia Lobby) para facilitar a inserção inglesa no mercado brasileiro – cuja renda irá diretamente para o Reino Unido. Da mesma forma, o “capital humano” em todas as ciências é subvalorizado: importantes pesquisadores brasileiros, físicos, químicos, sociólogos, educadores etc., procuram países abertos a desenvolver seus estudos. Determinados grupos tratam a educação como gasto, mas se trata de investimento, ainda insuficiente para manter pesquisas – que a longo prazo trarão retorno considerável para toda a sociedade.

Friedrich Wilhelm Nietzsche dedica um capítulo inteiro de sua obra “O Crepúsculo dos Ídolos” para tratar daquilo que “os alemães estão na iminência de perder”, trazendo à luz temas como a cultura e a educação do povo. O filósofo põe em cheque a qualidade do ensino alemão (à época, era professor na Universidade da Basileia, Suíça), dirigindo-se principalmente aos professores que carregavam uma “espiritualidade vazia, satisfeita, entibiada”, que tenderiam a causar o pioramento dos alunos, ao invés de com eles evoluir. Todo o cientificismo pedagógico em demasia é prejudicial ao estudante, que deve, sim, ter sua disciplina de estudos, mas não pode ter a liberdade de seus pensamentos acorrentados por sujeitos meramente reativos, que tendem a se opor ao crescimento e elevação daqueles que tratam como subalternos.

No caso brasileiro atual, o investimento em educação é insuficiente e mal-distribuído entre os setores que compõe a formação dos saberes, além disso, o ensino é nivelado por baixo, isto é, o pleno desenvolvimento das potencialidades dos alunos são sobrepujados pela vontade dos mestres, que orientam apenas àquilo que têm interesse. Na concepção de Nietzsche, são poucos os que obterão êxito ao galgar posições de abstração intelectual; devemos ir além do que nos diz o filósofo alemão: é necessário, anteriormente, dar as bases para que se possa ter a possibilidade de pensar; um senegalês que concentra todas as suas forças na luta diária pela sobrevivência não tem tempo ou condições estruturais para refletir sobre a existência o Bóson de Higgs.

Ademais, é necessário refletir sobre as estruturas culturais que moldam a educação. Se tomarmos em conta apenas a educação, pois as limitações de espaço nos impedem de explanar sobre contextos históricos, países onde a valorização do professor é natural, têm ótimas colocações em índices de desempenho e qualidade de vida. No Japão, por exemplo, um mês após o atentado nuclear de 1945, tal como após a tsunami de 2011, as aulas foram retomadas. Devemos levar em conta, também, que a valorização dos mestres não é e não deve ser unilateral: ser professor por salário é um dos grandes erros que se comete, para lecionar é necessário cativar. Sobre isso, Nietzsche afirma que

São precisos educadores instruídos, espíritos nobres e superiores que saibam afirmar-se a cada momento por meio da palavra e por meio do silêncio, seres de uma cultura madura e dulcificada, não esses sábios brutamontes que o Instituto e a Universidade oferecem hoje como enfermeiros superiores. Faltam educadores, e abstração feita das exceções, falta a condição primeira da educação, e daí o rebaixamento da cultura alemã. (Nietzsche, 2017, p. 67).

Eis que a educação não decorre por meio da remuneração, mas sim do exercício de uma potência de agir (Spinoza) que deve estar em consonância entre mestre e estudante. Enquanto o primeiro oferta as possibilidades e dispõe seu tempo em nome do aluno, este buscará por sua conta a própria elevação. A função do ensino superior – e das escolas – não está em formar técnicos aleijados da capacidade abstrativa, mas em dar fundamentos para pensar, para questionar.

Escrito por Alexandre Douvan. Acadêmico de Jornalismo na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), membro do Grupo de Estudos em Ciências Humanas – Mentes Inquietas.

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