(Acervo Pessoal)

Olhando pela janela, logo em frente de casa tem um pequeno pessegueiro que dias atrás estava pelado, sem folhas e agora ficando verde e carregado de flores, prenunciando muitos pêssegos pela frente.

Falando nisso, fico imaginando até quando teremos a oportunidade de poder colher uma fruta direto do pé? Num momento de nostalgia fiquei nas lembranças de infância e vendo esse pessegueiro me veio a quantidade de vezes em que pude subir numa árvore e comer as frutas direto das árvores. Na antiga casa dos meus pais, tínhamos ameixa amarela (hoje nêspera), laranja, mexerica, limão rosa, lima, pêra, pitanga e pelas redondezas havia goiaba, caqui, araçá, maracujá, amoras e diversas outras frutas que cresciam pelos campos e claro que eram comidas sem lavar, quente do sol e nunca deu dor de barriga.

Tentei que meus filhos pudessem ter pelo menos parte disso, tivessem tudo aquilo que na minha infância era algo tão banal e nunca ninguém falou por mais imaginação que tivesse, que tudo isso um dia seria raro. A gente vai crescendo e a idade vai dando a noção de como isso tudo vai ficando raro e a vontade que dá de poder falar para os mais novos que aproveitem isso tudo, pois uma hora, ou vai faltar oportunidade ou mesmo vai sumir, vai deixar de existir. Sinto muito por tantas coisas que meus filhos não tiveram e não foi por falta de recursos, mas por que ficou para trás, e eram tão boas. Lembro-me das vezes que jogava bola na lama, era apenas começar a chover e aparecia a piazada de todo lugar para jogar na chuva, e depois de cabeçadas e escorregões dos mais incríveis, era voltar pra casa e tomar um banho de mangueira para tirar o grosso da lama e poder entrar em casa e ir direto pro banho. Hoje o rio Barigui, o mesmo que passa no parque, passa relativamente próximo de onde morava, e riem quando digo que eu tomava banho nele, além de pescar, pois hoje consideram ele morto.

Você já parou pra pensar sobre isso, das coisas que teve na infância e que hoje nem dão bola, mas o quanto era legal na época, e as coisas que os filhos tiveram e que a gente acha que não chegava nem perto da alegria do que tivemos, nem se fala da simplicidade das coisas. Isso tudo me recorda um filme antigo de 1973, com Charlton Heston, chamado em português de “No Mundo de 2020”, onde ele conhece um senhor de idade e este fala sobre como o mundo era antes da crise, e ninguém acredita sobre as árvores, as frutas, os lagos, animais diversos tudo o que ainda temos, mas no filme no ano de 2020 não tinha mais, e ninguém acreditava que existiu. Dando um “spoiler” me lembro bem da cena onde esse senhor cansado das coisas resolve morrer e vai até um local de eutanásia e lá ele toma um injeção (se não me engano) e vai morrer tranquilamente, sem dor. Ele tem o direito de escolher duas coisas, o tipo de imagens que gostaria de ver pela última vez e também uma música. E escolhe música clássica e paisagem de floresta. Nisso o personagem de Heston tentando salvá-lo (tarde demais) acaba vendo as imagens de tudo aquilo e depois se pergunta onde está tudo isso, porque acabaram com tudo?

Joguei bolinha de gude, joguei futebol de botão, fiz e soltei pipas, joguei bafo, bets com meus filhos, tentando dar a eles a oportunidade de terem um pouquinho as alegrias que eu tive. Passeei com eles no Passeio Público e tudo mais que eu tive o privilégio de fazer com meu pai. Espero que eles não esqueçam, assim como eu não esqueci e sempre que lembro é com saudades. Como diz uma música, “Coisas simples da vida, que o tempo veloz roubou de nós…”.

Recordo-me de descer no parque São Lourenço em Curitiba, com carrinho de rolamento na pista que tem lá. Andei de trenzinho no Passeio Público e de pedalinho também.

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