Procissão no entorno da Igreja, em foto publicada pelo Santuário em 2019. (Fotos: Divulgação)

O Santuário Nossa Senhora dos Corais, em Antonio Olinto, é um dos lugares centrais da representação da religião católica de Rito Bizantino (constantinopolitano) no Brasil. Toda Páscoa é marcada por uma série de eventos religiosos que relembram a morte de Jesus Cristo (Paixão) e sua ressurreição. Os ucranianos têm, na sua Igreja, elementos de uma imensa riqueza de detalhes.

Em 2020, esta programação, tanto na matriz Igreja Imaculada Conceição quanto em todas as demais comunidades ucranianas, está suspensa devido ao Covid-19. O padre Basilio Koubetch explica que é “festa das festas e a solenidade das solenidades”, com base nos textos litúrgicos. “Por isso, na iconografia bizantino-ucraniana é central a Santa Ceia de Jesus com seus discípulos e a comunhão dos Apóstolos”, cita o pároco.

“O ícone que melhor representa a importância desta festa, não é o Cristo Ressuscitado, mas o que desceu à mansão dos mortos: lindíssimo e dinâmico! Jesus desce já vitorioso sobre a morte e as consequências do pecado. Neste ícone, geralmente Jesus desce estendendo as suas duas mãos a Adão e Eva e, através deles, eleva toda a humanidade crente à dignidade de filhos e filhas de Deus (cf. João 1,12)”, acrescenta.

“’Festa das festas e solenidade das solenidades’ – a Ressurreição de Cristo é um fato que confirma as outras verdades da fé cristã. ‘Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé’ – afirma São Paulo (I Cor 15,14). Assim a Páscoa se torna a celebração da verdadeira fé. Isso é bem acentuado na liturgia bizantino-ucraniana”, ressalta o padre responsável pelo Santuário.

Período de preparação

“O tempo de preparação para esta festa é toda a quaresma. São quarenta dias, durante os quais os ucranianos tradicionalmente praticam o jejum e a penitência, fazem uma confissão mais ‘caprichada’ e frequentam mais as celebrações específicas na sua igreja. As orações focam mais a conversão e a adoração do Cristo – Filho de Deus, que se entregou livremente em sacrifício por nós”, menciona o sacerdote.

“Isso se reflete fortemente na alegria da Páscoa que consiste principalmente na participação – quase que “companhia” com o Salvador do mundo. Participantes na paixão e morte – os fiéis também estão juntos com Cristo na Ressurreição. A vitória de Jesus sobre a morte e o mau é também nossa. Eis o motivo principal da alegria da festa pascal”, acrescenta, em relação ao período de reflexão com o novo tempo.

Padre Basilio cita de que o período de preparação para a Páscoa é marcada pela quaresma que termina com o ‘sábado de Lázaro’ – milagre da ressurreição, que antecede o Domingo de Ramos. “A semana santa tem o aspecto de quaresma muito intensa, mas a liturgia foca o Cristo vitorioso que se entregou livremente à condenação, flagelação, crucificação, morte e sepultamento, mas que ressuscitou ao terceiro dia”, esclarece.

A quinta-feira santa celebra a instituição da Eucaristia. “Na tradição bizantino-ucraniana este seria dia do ‘Corpus Christi’ propriamente dito”, explica. Data que, ainda, celebra as Matinas, com doze leituras sobre a Paixão de Cristo. “Após a narração da sua morte, sessão os sinos até o início da celebração pascal e se usa só um instrumento, cujo badalo bate dentro de caixa de madeira e se chama ‘kalátalo’”, complementa.

“Na sexta-feira santa se faz a exposição do Santo Sudário – a ‘Plashtchanêtsia’ – um ícone do Cristo morto em tecido especial. Esta celebração prevê uma procissão com o uso do ‘kalátalo’. Depois, novamente dentro da igreja, os fiéis se aglomeram bastante e dedicam quase todo o dia para oração, adoração do Cristo morto por nós, mas na fé n’Ele Ressuscitado”, detalha o pároco.

“Não pode faltar a oportunidade de venerar o Santo Sudário indo até ele de joelhos e beijando todas as feridas de Cristo, representadas na ‘Plashtchanêtsia’. Um cristão ucraniano (seja católico ou ortodoxo), não se sente bem se lhe chegar a Páscoa sem ter tido esta oportunidade!”, ressalta o sacerdote. Ainda, neste dia, a Igreja celebra Matinas de Jerusalém, em espírito de adoração e reflexão.

Cesta de alimentos

A tradição passada de pais e mães para os filhos ensina que consumir, no domingo de Páscoa – da Ressurreição – e em família, alimentos abençoados pelo padre na Igreja ucraniana são de grande suma importância na vida espiritual. “Na cesta dos alimentos não podem faltar as famosas ‘pêssankas’ – ovos decorados principalmente com símbolos ligados à fé cristã”, lembra padre Basilio.

Bênção de alimentos realizado junto da Igreja, em foto publicada pelo Santuário em 2019.

“Todo alimento é dom de Deus, é fonte de vida. Mas este alimento abençoado de modo tão especial na Páscoa, significa muito mais. Ele representa a alegria da fé no Ressuscitado. Neste alimento está representada toda a obra de Deus em nosso favor, realizada em Jesus Cristo. As orações contêm um forte tom de exorcismo que representa a vitória definitiva de Deus contra todas as forças e ações do maligno”, afirma.

“O celebrante invoca sobre os alimentos a força, bênção e todos os dons que só podem vir de Deus, antes de tudo a salvação, o dom da vida eterna. Por isso, mais que uma refeição em família, o café da manhã pascal é a comemoração da fé e de todos os dons divinos. Acontece a alegria de sermos participantes da vitória de Jesus Cristo”, destaca o pároco e reitor do Santuário de Antonio Olinto.

Benção familiar, em casa

Mas, e a Páscoa deste ano, em decorrência do isolamento contra o Covid-19, de que forma será celebrada por ucraínos? “Triste realidade, mas não acontecerão as celebrações acima mencionadas com a presença dos fiéis. Em cada Paróquia serão feitas somente as mesmas celebrações, mas de portas fechadas, com a presença somente de um restrito número de pessoas para ajudar na liturgia”, lamenta o padre.

Contudo, aponta a alternativa espiritual que mantém a união das famílias e vivo o ritual de adoração e celebração. “Cada pai ou mãe de família somente fará aspersão dos alimentos com água benta. De fato, este é o último ato da bênção e, num caso assim extraordinário, pode ser feito por outras pessoas e não requer nem a presença do ministro ordenado”, orienta o sacerdote.

O ato familiar não prejudica o renascimento da vida espiritual, matriz religiosa da Páscoa. “A oração em família reunida, a participação de celebrações através dos meios de comunicação este ano terão o mesmo valor espiritual que a presença física dos fiéis na igreja. É mais seguro exagerar nos cuidados! Feliz e abençoada páscoa a todos!”, enaltece padre Basilio Koubetch.

Sidnei Muran

Sidnei Muran

Jornalista (MTB 7597 DRT/PR), formado pelo Centro Universitário de União da Vitória (Uniuv), pós-graduado em História e Cultura pela Unespar – campus de União da Vitória e Licenciado em História pela Unespar – campus de União da Vitória.
Sidnei Muran

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