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Como um garoto ajudou a construir a ponte sobre o rio Iguaçu

Deco Cordeiro era apenas um menino quando, manobrando de ré um caminhão Chevrolet ano 37, ajudou a trazer as toras de madeira que permitiriam a inauguração da obra. (Fotos: Eduardo Covalesky/Gazeta Informativa)

Quem chega a São Mateus do Sul e passa pela ponte sobre o rio Iguaçu, sequer deve imaginar as dificuldades de acesso e transporte que os moradores enfrentavam antes da conclusão da obra. A construção desta ponte, cuja placa de conclusão data de 1952, reserva um episódio inusitado para a nossa história.

Antes da ponte, o acesso para quem vinha da capital se dava por meio de uma balsa que cruzava o rio. Por isso, construir o novo acesso facilitaria a vida da população. “Eu vi eles fazendo a ponte”, recorda-se Manuel Cordeiro Filho, ou Deco, como é mais conhecido.

Para evitar que os alagamentos do rio a atingissem, a ponte foi construída numa altura elevada. Assim, a estrada tinha de ser aterrada para permitir o acesso. No entanto, este mesmo aterro acabou atrasando a conclusão da obra.

Devido à geografia do terreno, o aterro não chegava até a cabeceira da ponte, sendo necessária a construção de um muro de arrimo ou de contenção – que levaria mais tempo para ficar pronto.

A saída para liberar rapidamente a obra foi encomendar uma ponte de madeira provisória, que ligasse a estrada recém aterrada até a ponte de concreto. A obra ficou a cargo do já falecido Adelino Cordeiro, conhecido madeireiro da região e que costumava fazer pontes de madeira em estradas do interior. A estrutura seria feita em toras de pinheiro, madeira retirada a alguns quilômetros dali, da Vargem Grande.

O trajeto da estrada àquela época era diferente do que vemos hoje, havia mais curvas, principalmente para contornar o morro que hoje é cortado pela rodovia.

Daí surgiu o desafio: como transportar as seis toras inteiras de pinheiro em uma estrada tão sinuosa? A capacidade de carga dos caminhões disponíveis era de apenas 4m³. Por outro lado, usar um reboque também não era uma alternativa viável. “Era estrada de chão e tinha muita curva, o reboque não ia conseguir”, recorda-se Deco.

A solução foi criativa, improvável, mas bem-sucedida. Se as madeiras eram grandes demais para um caminhão só, o jeito foi apoiá-las em dois caminhões, fixadas com sistema de arrocho com corrente. Assim, Nicolau Wolochen foi encarregado de dirigir um caminhão Chevrolet 49, que vinha à frente fazendo a tração. Atrás, vinha Deco, que era ainda um menino, na boleia de um Chevrolet 37, fazendo todas as manobras de ré. Deco não se recorda ao certo se tinha 14 ou já 15 anos completos à época, mas os detalhes do acontecimento ele guarda bem vivos na memória.

O garoto, irmão de Adelino, participou de todas as etapas da construção, desde a derrubada dos pinheiros para a preparação da madeira até a entrega da encomenda. Como já dirigia desde os 12 anos, não foi muito segredo fazer aquela viagem inusitada. Para concluir a ponte de madeira foram três dias de trabalho no total, o primeiro para transporte da madeira e os dois seguintes para a construção.

Ao ver a obra concluída e com a sensação de dever cumprido, Deco só pensava em uma coisa: “Virei a manivela do caminhãozinho para dar a partida e cruzei a ponte. Fui comprar sorvete no seu Ilmo Wolff, comércio que ficava perto da igreja”, diverte-se, ao lembrar que desta forma foi a primeira pessoa a atravessar a recém construída ponte sobre o rio Iguaçu em direção à cidade. “Quando eu voltei, estava o engenheiro do DER no final da obra. Eu não podia ter passado, porque não tinha passado ninguém ainda. Eu já tinha ido e tinha voltado. Aí ficou o blá, blá, blá, eles bronquearam comigo, mas já não adiantava mais”.

No sentido contrário, o primeiro a passar foi Mariano Olivo, em um trole (tipo de condução puxada a cavalo).

“Depois a gente ficou sabendo que a ponte provisória foi apelidada de pinguela do Bento”, comenta, lembrando a referência ao então governador Bento Munhoz da Rocha. Agora, ao comemorar seus 80 anos de vida, completados no dia 1º de fevereiro, ele recorda esta e outras histórias, que dão ideia do estilo de vida são-mateuense décadas atrás. “Quando a ponte ficou pronta e os caminhões começaram a passar, era só chover que ali na frente da igreja São Mateus eles ficavam na valeta, porque não tinha revestimento. Em 62, quando saí de Antonio Olinto para morar aqui, tinha apenas cinco carros em São Mateus”.

Para eternizar a saga do caminhão que trouxe de ré as toras de pinheiro, ele encomendou há algum tempo uma réplica, feita na cidade de Mafra. Os caminhões em miniatura hoje ficam em lugar de destaque em sua casa, e ele sempre repete com orgulho a história para visitantes curiosos.

Deco trabalhou na madeireira com seu irmão até ingressar como motorista na Petrobras, em agosto de 1963, onde participou de momentos importantes para o desenvolvimento da Industrialização do Xisto. Mas, este já é assunto para outra história…


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Larissa Drabeski

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