Mesclagem de retrato de Euclides da Cunha com fotografia de pessoas fugindo de Saigon e imagens do filme Rambo III.

Um avião cargueiro militar, da força aérea norte-americana, decola do aeroporto de Cabul, capital do Afeganistão, cidade mais populosa daquele país. Uma cena comum se considerarmos que tropas do exército americano estão lá desde outubro de 2001. Mas há algo diferente acontecendo. Uma multidão tenta embarcar com o avião já taxiando para a decolagem. Parece que alguns afegãos, desesperados ou enlouquecidos, conseguiram se agarrar ao trem de pouso e só caíram depois que a aeronave já estava a centenas de metros de altitude. Esta cena deveria tomar conta de todos os noticiários do mundo, mas parece que não impressionou ninguém. Estamos acostumados com morte violenta quando se trata daquele país asiático. E nesses 17 meses de pandemia, quando tivemos que nos acostumar a ver pessoas morrendo aos milhares e sendo enterradas em valas comuns, com uso de escavadeiras, o que são corpos afegãos caindo de um avião? O mundo evolui mal!

No dia 12 de agosto, semana passada, morreu Tarcísio Meira, que na ficção foi João Coragem, Capitão Rodrigo, Euclides da Cunha, entre outros. Sim, Tarcísio interpretou Euclides. Mas o que tem a crise no Afeganistão a ver com o autor de “Os Sertões”? Respondo: São os rumos de nossa controversa evolução.

A biografia de Euclides da Cunha nos mostra que ele foi expulso duas vezes do exército (ou da escola militar). Isso já seria suficiente para causar estranheza. Como assim? Expulso duas vezes? Não vou contar aqui. Deixo para os leitores interessados buscarem, porque é uma leitura muito rica. Mas ele também foi assassinado duas vezes, e pelo mesmo homem. Está bem, preciso admitir que, na segunda vez, o assassino matou o Euclides da Cunha Filho, quando este tentava vingar a morte do pai. Mas ainda assim é estranho né? E fica pior, porque o assassino era casado com a mãe de sua vítima! O que importa, minha gente, é que o pensamento do primeiro Euclides da Cunha ressona nos dias atuais.

O escritor e jornalista, no início dos trabalhos de pesquisa para conhecer a região e as pessoas sobre as quais escreveria como correspondente de um jornal, no conflito que ficou conhecido como “Guerra de Canudos”, acabou reunindo material tão completo sobre o ambiente, os costumes e as pessoas do sertão, que isso se transformou numa das maiores obras da literatura brasileira.

“Estamos condenados à civilização. Ou progredimos, ou desaparecemos”. Nesta frase, dita há mais de 100 anos, ele mostrava preocupação com os rumos que a civilização tomava. Euclides estava certo! A sociedade civilizada é capaz de atitudes bárbaras e o conceito de civilização e progresso pode ser devastador. É fato que progredimos tecnicamente, mas nossa evolução como espécie humana é boa? Somos seres melhores que nossos ancestrais?

A imagem de pessoas escalando um avião em decolagem horroriza? Sim. Mas não é diferente do que aconteceu em Saigon em 1975, quando os americanos se retiraram depois do fiasco na guerra do Vietnã. Isso nos faz lembrar de outro personagem da ficção, Rambo, da franquia que Sylvester Stallone explora até hoje nos cinemas e que dominou as bilheterias de filmes de ação nos anos 80/90. No primeiro filme o enredo explora a mágoa de um soldado que retorna de uma guerra inútil e em vez de herói, se torna rejeitado pela sociedade. No segundo filme, retorna ao campo de batalha e acaba mostrando que seu governo abandonou seus heroicos soldados ao destino. Mas o terceiro é que nos “linka” com os dias atuais. Nesta produção, Rambo vai ao Afeganistão para, em meio a um resgate de oficial americano, ajudar os afegãos a combater os russos, que na época eram o inimigo daquele povo. Rambo III é de 1988. Numa das cenas do filme, um dos soldados afegãos diz ao Rambo: “Meu Deus, livrai-nos dos venenos das cobras, do dente do tigre e da vingança dos afegãos”.

Em 11 de setembro de 2001, 13 anos depois do cinema mostrar americanos e afegãos lutando junto contra os invasores russos, a vingança de radicais do Talibã atingiu as torres gêmeas do World Trade Center. Naquele momento os russos estavam expulsos e o inimigo era o Tio Sam. A rápida resposta militar, inclusive com a morte do líder, Osama Bin Laden, fez parecer que desta vez seria diferente. Foram quase 20 anos de ocupação militar americana no Afeganistão, mas como no Vietnam, acabaram se retirando diante da comprovada ineficácia da missão.

De acordo com a Bíblia Sagrada, o exército comandado por Gideão tinha 32 mil homens. Uma imensidão de soldados, considerando a demografia da época relatada. Mas que raios tem a ver um personagem bíblico de milênios atrás com o desastre humanitário no Afeganistão? Exércitos! E antes que alguém pense que sou contra o exército, peço que continue a leitura pra entender.

A Bíblia, que para nós católicos é sagrada e para outras religiões apenas um livro, mesmo como livro é importante. Serve como registro histórico dos ambientes, das pessoas e dos costumes. Há nos textos bíblicos, relatos de façanhas de diversos exércitos. Fatos ocorridos há 3, 4, 5 mil anos ou mais. Ou seja, em 5 milênios, nós humanos não mudamos muito. Evoluímos tecnicamente, mas moralmente pouco ou nenhum ganho é percebido. Há até indícios de piora. Os povos precisam ter seus exércitos para não serem subjugado. Se tivéssemos de fato evoluído, exércitos estariam apenas nos livros de história, as cercas teriam desaparecido e não precisaríamos de “cancelas nos limites das fronteiras”.

Em setembro de 2004, quando o ataque às torres gêmeas ainda era recente, numa sexta-feira, aula de psicologia da educação do curso de licenciatura em química da FAFI (hoje UNESPAR) a professora propôs uma discussão sobre o tema. A principal questão debatida era como combater pessoas que acreditam que, se morrerem numa guerra que consideram santa, vão para a eternidade como heróis e recebem premiações além-túmulo, entre elas cinco virgens para o desfrute eterno. Até hoje não há resposta para essa pergunta. Não há como combater com eficácia um inimigo que é fanático religioso, porque ele vê a morte como um prêmio.

O Talibã fala em anistia e apresenta um discurso moderado, mas fica difícil acreditar nisso. Os efeitos da retomada do Afeganistão pelos fundamentalistas

Luís Ferraz
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