Cidade

Conheça a casa que foi transportada sobre um caminhão em São Mateus do Sul

Iniciativa do Grupo Escoteiro Paul Harris, mantêm preservados o charme, e a simpatia de um dos exemplares mais originais da arquitetura em madeira do município. Foto: Xica Langaro

A simpática casinha em madeira, construída na década de 1930, situada na rua Rodolfo Wolf, na vila Amaral, em São Mateus do Sul, passou a ter novo endereço, desde o domingo, dia 20 de dezembro de 2015 e passará a compor a sede do Grupo Escoteiro Paul Harris.

Seria mais um domingo chuvoso e tranquilo, pelas pacatas ruas da cidade, se não fosse a curiosa cena, o que rendeu inúmeros comentários e fotos nas redes sociais. Nada de desmontar a casa, a alternativa inusitada, foi transportá-la sobre um caminhão, alguns quilômetros além de onde estava estabelecida. Provavelmente seja a primeira vez que isso tenha ocorrido, na cidade.

Mas o que há de extraordinário neste feito? Logo adiante é possível entender os vários porquês, desde o registro histórico, até a nova vida que a simpática casinha recebeu.

É possível mensurar dois paralelos, um deles nos leva a reflexão e a importância de estarmos sempre alerta, como diz o lema escoteiro. Realmente isso se fez de fato, em um gesto memorável, mostraram que estão atentos e colaborando com a comunidade. Esse lema deveria ser preponderante em nossa sociedade, sempre podemos fazer algo por alguém, sempre há meios de colaborar, de nos tornarmos agentes de mudança, onde vivenciamos na pratica o ser social. Com isso todos ganham. E assim foi, compreenderam e aceitaram o desafio, de preservar a arquitetura ali presente.

O segundo paralelo, nos revela também um alerta, no entanto pouco evidenciado, a cada dia, a cada ano, as poucas casas que ainda não sucumbiram às ganancias ou a luta diária contra o tempo, vão simplesmente desaparecendo, com isso empobrecemos culturalmente, parte da nossa história passa a receber outro nome, e dizemos que aquela casa velha, agora virou madeira de demolição. Isso sempre vai ocorrer, uma vez que não compreendemos a importância de preservar. Depois de nos, virão as gerações futuras, a consciência está em não deixar um legado apenas em fotos interessantes, ou meros registros, que com o tempo poderiam ficar para sempre guardados em álbuns fotográficos, empoeirados em uma gaveta.

Registrar e congratular iniciativas como estas, são imprescindíveis, pois sabemos das dificuldades e principalmente do custo necessário para tal.

Os tempos são outros e com isso, elas, as charmosas casinhas em madeira, vão aos poucos deixando de existir, em uma competição injusta, perdem espaço para o cimento e formas mais sisudas de edificações, seguindo tendências da arquitetura moderna, é o preço que se paga pelo conforto e formas mais eficientes, assim rumamos.

A presença dominante das casas em madeira, enquanto a cidade despontava “fulgurante vigor de sua mocidade”, aos dias atuais, nos faz compreender nossa urbanização, comparado ao casario que ainda é remanescente, estes conotam traços culturais inter-relacionados que constroem nossa cultura.

Possuímos verdadeiras preciosidades da arquitetura em madeira, são únicas e de significativa importância para o contexto cultural da região, cada qual com suas formas peculiares, remontam a diversidade da qual estamos inseridos.

Jovial Carlos do Amaral Wolf e sua esposa, primeiros proprietários. Foto: década de 1930.

Jovial Carlos do Amaral Wolf e sua esposa, primeiros proprietários. Foto: década de 1930.

Preservar aquelas que ainda restam é mais do que necessário, não só torná-las “intocáveis” por meio de tombamentos, mas atribuir novas formas de mantê-las funcionais, garantindo sua manutenção e preservação, buscando alternativas público-privadas.

Consciente e com sensibilidade, o poeta Arnoldo Prohomann, registrará o apreço daquilo que somos e temos – “Minha terra tem cidades / Muito belas e quiçá / A feição é toda nossa / Curitiba, Ponta Grossa, Londrina Paranaguá / São modelos destas raças / Que povoam o Paraná”.

Resgatamos parte da história da mesma, no livro “Cincoentenário da Navegação no Rio Iguassú”, do ano de 1932, há um registro que revela o perfil do jovem proprietário, o Sr. Carlos do Amaral Wolff, comerciante e ervateiro, daquela época.

Além das fotos, foram constantes as garbosas palavras em menção à lisonjeira pessoa do Sr. Carlos Wolf, – “Como comerciante é um perfeito “bussinesman”, e como homem de sociedade é um irrepreensível cavalheiro, cativante pela sua lhaneza de trato e inteligência fértil de que é dotado. Jovem, o Sr. Carlos Wolf é uma demonstração alvissareira do dinamismo que empolga a alma dos são-mateuenses labutadores, os quais ao mesmo tempo que organizam sua vida futura e o seu patrimônio individual, promovem o progresso do seu querido torrão natal”.

“No seio da sociedade são-mateuense, ocupa o Sr. Carlos Wolf lugar de destaque, exercendo os cargos sociais de secretario do “Clube São-mateuense”, secretário do “Hospital São Mateus” e diretor esportivo do “São Mateus Sport Club”, no qual é um grande incentivador da mocidade são-mateuense na cultura física”.

Nisso tudo há algo que nos ajudar a assimilar, o bom gosto presente nas formas tênues e elegantes, desde os lambrequins, ao padrão aplicado em sua construção. O resultado sem duvida, percebemos no emanar do ar simpático, aos olhos de quem aprecia as belas formas da casa.

Muito além de noticiar, este registro, que poderia permanecer apenas em relatos, ou uma inserção minúscula, transmite aos leitores do Gazeta Informativa, uma melhor compreensão, não apenas do quão rica e importante é nossa história, mas nos ajuda a compreender o processo de aculturação. É preciso que a história de nossa cidade se torne mais conhecida e ativa, iniciativas devem ser valorizadas.

Mais uma joia em madeira, das muitas que aqui houveram, enfim preservada para a memória dos são-mateuenses.

Em entrevista exclusiva ao jornal Gazeta Informativa, Anderson Nora, atual Presidente do Grupo Escoteiro Paul Harris, revela mais detalhes em torno da iniciativa, acompanhe.

Gazeta Informativa: Como surgiu a ideia de optar pela casa em específico, e por que uma casa em madeira?

Anderson Nora: Bom, tudo começou com um amigo que é escoteiro, o Alexandre Godoy, pois como falamos; “uma vez escoteiro sempre escoteiro”. Ele comprou o terreno para um empreendimento e neste local estava essa casa antiga, precisamente construída em 1930, e como ele precisava retira-la entrou em contato com o Grupo Escoteiro para que nós comprássemos, pois já havia outros interessados e para nós faria um preço justo e perfeito. O que efetivamente aconteceu, pois pelo valor que adquirimos ficou na metade da proposta que ele tinha.

Os motivos que nos levaram a optar por esta casa de madeira, foram principalmente, o custo benefício de adquiri-la e coloca-la no local novo e preservação da história polonesa de nossa cidade, pois vamos tentar manter a sua originalidade ao máximo, mas como tudo depende de dinheiro, algumas coisas não temos no momento.

Gazeta Informativa: Quais atividades serão desenvolvidas, após o termino das obras?

Anderson Nora: Como a muito tempo esperávamos a nossa sede, a casa será utilizada para nossas atividades administrativas e principalmente para as atividades escoteiras. Atualmente fazemos nossas atividades de campo no CEPE que continuarão lá também, pois o clube tem uma área ampla, bonita, muito bem organizada e ótima para realizações de atividades escoteiras, sem contar que o CEPE sempre está de portas abertas para os escoteiros, tanto que nesse ano nos cederam uma sala para ajudar na organização do grupo escoteiro.

Gazeta Informativa: Qual a relação entre a preservação e a nova utilidade para o imóvel?

Anderson Nora: Achamos muito importante preservar nossa história, e essa com certeza é uma história polaca. Queremos mostrar para nossos jovens que isso pode ser feito mesmo com a modernização das cidades, e isso é um exemplo bem prático, pois não precisou demolir a casa para um novo empreendimento acontecer, claro que há casos que não tem o que se fazer, mas nesse caso foi possível. Queremos mostrar que é importante conhecer nossas raízes indiferente da origem de cada um, pois todos nós temos histórias. E estando nessa casa vai ser uma mescla de tudo isso.

Como comentado queremos manter ao máximo a originalidade dela, com certeza iremos precisar da ajuda de muita gente. Atualmente estamos buscando mais informações sobre a casa, quem morou lá, acontecimentos relacionados, fotos antigas entre outras coisas.

Gazeta Informativa: O que o Grupo de Escoteiros Paul Harris, busca transmitir para a comunidade são-mateuense, com esta ação de preservação da simpática casa em madeira?

Anderson Nora: Da mesma forma que falamos para nossos jovens acredito ser a mensagem para a sociedade, que nossa história é importante, que temos que preservá-las, que temos que conhecê-la, fazer eventos relacionados a ela. Ficamos felizes em poder participar efetivamente de tudo isso, pois sabemos que São Mateus do Sul está cada vez mais mostrando isso, tanto com evento relacionado a cultura polaca, quanto a própria representatividade a nível internacional que tem hoje, os livros que foram escritos, e os livro que estão sendo escritos.

Gazeta Informativa: Como se deu o transporte da casa?

Anderson Nora: Antes de transportá-la nos preocupamos em buscar as autorizações necessárias, junto a Prefeitura Municipal, Policias Militar, Polcia Rodovia Estadual e Federal, Copel e Bombeiros. No dia do transporte foi bastante tenso, visto que no dia estava chovendo sendo que foi possível o transporte somente quando parou de chover e secou a pista. Foram duas grandes comemorações, uma quando a casa saiu do local e a outra quando ela foi colocada no novo terreno. O que nos ajudou muito foi à vontade das pessoas em ajudar, principalmente dos órgãos mencionados que em nome do Grupo Escoteiro gostaria de agradecer em público todo esse pessoal que deu um grande suporte para nós.

Comentários

Compartilhe:


MATÉRIAS RELACIONADAS
Observatório Social promove reunião de apresentação junto à Prefeitura Municipal
Operação da Polícia Federal causa repercussão em São Mateus do Sul
Mês de Outubro se encerrou com atividades de conscientização