Em outubro de 2004, um acidente ocorrido na estrada do Turvo de Baixo, localizada próxima a região do Rio das Pedras, acabou trazendo consequências drásticas para a vida do são mateuense Anselmo Wachaki. (Fotos: Éber Deina/Gazeta Informativa)

Na edição nº 289 da Gazeta Informativa, o leitor acompanhou as diversas situações vivenciadas por um são-mateuense, que acabou citando outra família em um trecho de seu depoimento. A imprensa possui o dever de atuar baseada na imparcialidade, tendo esta como um de seus principais alicerces. A redação do GI foi procurada pela família citada, com o objetivo de prestar um esclarecimento voltado à esta questão em específico.

Se trata da família de Anselmo Wachaki Pereira, um são-mateuense que também sofreu sérias consequências em função de um acidente de trânsito ocorrido em 2004. A redação do GI conversou com a tutora de Anselmo, sua irmã Maria Sirlei Wachaki Pereira, juntamente com o próprio, e ela prestou diversos esclarecimentos relativos à história de vida da família, além dos danos sofridos por eles a partir daquele fatídico dia.

História de vida

Maria Sirlei comentou sobre o início da situação envolvendo o irmão. “Nós somos filhos de uma família de agricultores que deu duro na vida. Perdemos nosso pai muito cedo, o que fez com que desde muito jovens eu e meus irmãos começássemos a trabalhar para ajudar a pagar as despesas de sobrevivência da nossa família. Minha mãe batalhou muito ao longo desses anos, nos ensinando, apesar de tudo, sobre a importância de sermos pessoas íntegras e trabalhadoras. Ela era uma mulher muito respeitada e querida na comunidade onde vivia”, revelou ela.

Ela também relembra outros acontecimentos marcantes relacionados à história de sua mãe. “Minha mãe aprendeu com a dureza da vida, perdendo o seu companheiro muito cedo. Certa época, ela começou a trabalhar em uma escola, fruto de uma oportunidade dada pela Prefeitura Municipal no momento. Ela ensinou aos seus 9 filhos qual é o valor do amor e os princípios para se levar uma vida plena, sendo até hoje muito lembrada por nós e pelos muitos amigos que ela deixou”, afirmou Maria Sirlei.

O acidente em 2004

O episódio que mudou drasticamente a vida da família, aconteceu em outubro de 2004. De acordo com as testemunhas presentes no local, que depuseram legalmente no processo instaurado posteriormente, o carro de um jovem que ainda não possuía habilitação e menor de idade acabou invadindo a estrada na saída da Igreja da comunidade do Turvo de Baixo. O jovem Anselmo Wachaki, com 22 anos na época, transitava pela via e não conseguiu frear em tempo suficiente, colidindo violentamente contra o carro.

Após o acidente, Anselmo foi socorrido por populares e levado até o Pronto Atendimento, sendo de imediato transferido para o Hospital da Cruz Vermelha em Curitiba. Lá ele permaneceu até o dia 4 de dezembro do referido ano. Durante o tempo de internamento passou por várias cirurgias cranianas para retirada de coágulos cerebrais, tendo significativa perda de massa encefálica. Após 31 dias na UTI e muitas complicações, o são-mateuense teve perda de memória e dos movimentos dos membros inferiores e fala. Já em casa, iniciou-se uma intensa e cansativa rotina de tratamentos para recuperação e reabilitação, entre eles: fisioterapia, fonoaudiologia, Kumon, atendimento psicológico e psicopedagógico e consultas mensais com um neurocirurgião e ortopedista. A intensa rotina só chegou ao fim em 2010, quando foi constatado que não era mais possível recuperar o quadro de saúde de Anselmo.

Outros episódios de bastante dificuldade recordados pela família de Anselmo, referem-se às várias crises convulsivas as quais ele passou a ser acometido. Em 2008 uma delas provocou uma grave isquemia cerebral, resultando em 20 dias de internamento. Em 2016 outro evento semelhante aconteceu, resultando em 20 dias de internamento, sendo 15 deles na UTI (parada respiratório e hemodiálise). O tratamento acabou criando uma trombose contraída por Anselmo em seu membro superior direito.

Sua tutora legal atual e irmã, Maria Sirlei, que foi assim nominada pela Justiça em 2006, devido a problemas de saúde de sua mãe, a então tutora revelou ser de muita tristeza aquele momento. “O Anselmo era um jovem muito ativo e trabalhador, já atuava em uma importante empresa de cerâmicas e estava cursando Eletromecânica. O acidente aconteceu na Igreja localizada próxima a nossa casa no interior, e produz uma série de consequências até hoje em nossas vidas. Meu irmão passou por momentos muito delicados, seja no hospital ou até mesmo em seu cotidiano, que surgiram em função daquele dia tão triste para toda a nossa família”, relembraram Anselmo e sua irmã.

Batalha judicial

A decisão de entrada no processo judicial referente ao acidente sofrido por Anselmo em 2004 coube à sua mãe, que na época era sua tutora legal. De acordo com a família, ela o fez na intenção de que ambas as partes arcassem com as consequências do ocorrido. “Até aquele momento somente a nossa família vinha sendo prejudicada de levar uma vida digna. Não recebemos sequer a solidariedade dos outros envolvidos. Quando há uma decisão judicial podemos aceitar ou então temos o direito de recorrer se achamos que há injustiça. Nós aceitamos. Era pouco, mas ajudaria com as despesas oriundas do tratamento do Anselmo”, comentou Maria Sirlei.

A tutora de Anselmo ainda falou sobre a decisão judicial na época. “Ficou decidido pela Justiça, que deveria ser pago à tutora legal do Anselmo (mãe) 30% do que já havia sido gasto em tratamento médico até aquela data (30% divididos em 6 anos) mais uma pensão vitalícia no valor de 75% de 1 salário mínimo. Este processo perdura até os dias atuais, pois a pensão referida encontra-se em débito desde a data da decisão judicial. Recebemos em 2017, como forma de penhora, um veículo ano 2013. Apesar disso ele está repleto de restrições legais, como documentação atrasada e alienação do credor, que nos impossibilitam de utilizá-lo no dia-a-dia”, desabafou Maria Sirlei.

Seguindo em frente

Por fim, a tutora de Anselmo comentou sobre os desafios que eles enfrentam atualmente. “Recebemos uma pequena indenização em dinheiro e um veículo que foi executado, mas que não contemplam todo o prejuízo sofrido pela nossa família. Acredito que a Justiça é quem decide sobre as coisas, não cabendo a nós este juízo. O que posso dizer é que tenho muito orgulho das minhas origens e da minha família, uma coisa pela qual irei sempre lutar. Até mesmo um benefício salarial indenizatório, que foi assegurado e é de direito do meu irmão, não está sendo recebido por nós. Apesar das dificuldades vamos seguir em frente, batalhando sempre”, enfatizou ela.

A irmã e tutora de Anselmo ainda comentou sobre a exposição recente do fato. “Não gostaria de estar expondo todas essas situações em que nossa família enfrentou e enfrenta, mas não posso permitir que em momento algum tentem manchar a honra da minha querida mãe com histórias falsas. Quanto ao meu irmão, me entristece muito o fato de saber que lhe tiraram o direito de ser uma pessoa normal, pois ele nem ao menos possui o direito de ir e vir ou de exercer a sua cidadania como qualquer outro cidadão”, explicou ela.

Maria Sirlei finalizou comentando ter ciência de suas responsabilidades. “Como representante legal do meu irmão, tenho plena convicção de que não há injustiça em querer cobrar o que é devido. Consideramos injustiça saber que devido a irresponsabilidade de alguns, meu irmão teve sua vida destruída aos 22 anos de idade. Depois de 16 anos do fatídico dia do acidente, Anselmo apresenta inúmeras lesões físicas e mentais que o tornam incapaz de realizar as atividades mais simples do cotidiano. Somos gratos a Deus pela vida e somos felizes por ter o Anselmo ainda conosco, apesar de todas as dificuldades”, desabafou ela.

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