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Aquela noite do mês de junho fornecia uma boa amostra do tempo característico, que faz alguns amarem e outros odiarem o inverno são-mateuense. Já no final da tarde, às margens do Rio Iguaçu, surgiu uma neblina que se tornou forte cerração, dando ao pedestre a sensação de caminhar dentro de uma nuvem. Havia pouco movimento nas ruas pois além do desconforto do frio e da umidade, era dia de jogo da seleção.

A rua Manoel Correa fica numa região alta da cidade, aliás, provavelmente o início da rua seja o ponto mais alto, razão pela qual está situado lá o reservatório de água da cidade, em forma de cuia de chimarrão, orgulho da cidade! A massa de ar frio vinda do Sul já se aproximava da cidade e aquela neblina se deslocava lentamente, parecendo que a rua Ulisses faria era um rio de umidade que atravessava a Manoel Correa rumo ao Rio Taquaral. Ali pertinho, alheio a essas maravilhas da natureza, Tonico assistia ao jogo e comia pinhão assado na chapa do fogão à lenha. Um olho na televisão e outro no relógio pois estava trabalhando no turno da noite e o ônibus passava pontualmente às 23:10 em frente. Era só abrir a porta e com 10 passos estava dentro do veículo.

Tonico era uma figura conhecida pela sua paixão pelo futebol, pelo bom humor e pelo timbre de voz. As vozes masculinas são classificadas como Tenor (as mais agudas, da maioria dos homens), Barítono (as intermediárias) e Baixo (as vozes mais graves). Tonico estava nessa ultima categoria e além disso, era o do tipo gutural, trazendo um pouco de rouquidão ao falar.

O jogo seguia empatado e estava nos minutos finais. Que agonia! A esposa grita lá do quarto: – Vai perder o ônibus! Olha a hora! – Pegou o crachá e a mochila, já se conformando em perder os últimos lances, mas o adversário cometeu falta dentro da grande área. Penalidade máxima! O artilheiro ajeita a bola, o goleiro organiza a barreira, o zagueiro argumenta com o juiz e a esposa: – Tonico, o ônibus chegou! – Sossega, o ônibus vai dar a volta lá na Cuia e passa a 3 quadras daqui apanhar o José. Dá tempo de chegar lá!

Pênalti perdido, frustração do empate que não servia pra ninguém. O jeito era ir trabalhar. Saiu correndo pela rua Manoel Correa e ao entrar na Altino Pereira de Lima, pensou que seria importante começar um regime e uma atividade física. O coração parecia que ia sair pela boca. A adrenalina da cobrança de pênalti e a corrida tinham levado a frequência cardíaca a níveis perigosos, imaginou. Parou de correr, mas ao chegar na esquina da rua Manual Furtado Neves viu fachos de luz projetados na neblina lá na rua Eduardo Sprada. O ônibus chegaria no ponto antes dele. Correr já não conseguia, voltar pra casa e ir de carro? Não! Teve uma ideia e colocaria em prática. – Se a menor distância entre dois pontos é uma linha reta, atravesso o cemitério na diagonal e me sobra tempo!

José, estava no ponto há alguns minutos. Detestava o trabalho naquele turno. Não pela atividade noturna, mas por ter que esperar o ônibus na esquina do cemitério. Conhecia vários falecidos que estavam enterrados ali e era inevitável pensar neles enquanto esperava o ônibus. Como adjacências de cemitérios não são muito frequentadas à noite, ele sempre ficava ali solitário e pensativo. A iluminação da rua esbranquiçava ainda mais a cerração que neste momento cobria o campo santo deixando emergir apenas as pontas das cruzes mais altas de alguns jazigos. O ônibus estava a duas quadras e José deu as costas para a cena que lhe lembrava os filmes de Béla Lugosi, ator húngaro imortalizado no cinema como Drácula.

Enquanto José ficava aliviado em ver o ônibus se aproximando, Tonico se dava conta de que a linha reta que imaginara só seria possível se ele fosse aquela coruja que voou assustada com sua presença. O zig-zag entre túmulos fez aumentar ainda mais a distância. Faltavam uns 10 metros e ainda teria que pular o muro pois o portão era na outra rua e decerto estaria trancado. Vendo que perderia o ônibus depois de tanto esforço, subiu num túmulo mais alto para projetar a voz e gritou: – Zé! Ô Zé, segura o ônibus!

Convenhamos, ninguém espera que uma voz vinda de dentro do cemitério chame seu nome e ainda com um pedido desses. José, que já havia se assustado com a coruja que passou voando sobre sua cabeça, sentiu um calafrio lhe percorrer as vértebras. Sem nenhum tipo de raciocínio, correu, como nunca havia corrido na vida. Entrou em casa, para espanto da esposa que já estava indo dormir.

O motorista do ônibus viu que alguém correu no meio da cerração, mas a pouca visibilidade não permitiu identificar quem era. Com janelas do veículo fechadas não ouviu os gritos do Tonico e nem viu aquelas mãos acenando por cima do muro do cemitério. Ainda bem. Poderia ter causado um acidente grave.

A coruja voltou, pousou na pontinha de uma cruz e soltou seu canto mono fonêmico. – Não entendo de canto de pássaros, mas juro que isso foi uma risadinha – pensou Tonico enquanto buscava um local mais adequado pra sair do cemitério. Pulou o muro e fez um ultimo esforça de corrida para a casa do José. Temia ter causado algum dano ao amigo.

Tocou a campainha na casa do Zé. A esposa atendeu e com expressão de espanto o convidou a entrar: – O que tá acontecendo vizinho? Porque está ofegante? – Tonico respirou fundo antes de falar: – O Zé tá em casa? Posso falar com ele? – Claro vizinho e eu também quero falar com ele, mas desde que voltou da rua agora há pouco, já bebeu mais de um litro de água e só diz que eu não vou acreditar.

  • E não vai acreditar mesmo vizinha. Concordo com o Zé. A senhora consegue uma água pra mim também?
Luís Ferraz
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