Mentes Inquietas

Crônica de um país no abismo

“O Brasil não me deixa escolha. Com muita dor, serei obrigado a votar no Haddad”, diz autor do artigo. (Imagem Ilustrativa)

Não, não sou petista e nunca o fui, mas a política é um jogo. Como no xadrez, muitas vezes é necessário sacrificar peças, mudar de estratégia para que se chegue ao resultado. Em condições ideais, nem Haddad nem Bolsonaro mereceriam meu voto. Mas é necessário colocar os pés no chão, olhar bem para os dois candidatos e fazer um exame crítico.

Bolsonaro é de origem militar, como Hugo Chávez, e desde quando se tem registro, profere discursos de qualidade intelectual duvidosa, com informações desencontradas e muitas vezes ilógicas; despreza a intelectualidade, as artes, as diversas manifestações culturais, diz-se nacionalista mas é entreguista – não preciso dizer que doutrina essas características representam. A política só pode ser um ilogismo. Em uma conversa de rua cotidiana, muitos dizem que é o candidato que não se corrompe, tem uma conduta ética e está cercado pelos melhores. Quando peço para que definam ética, a conversa declina para acusações e xingamentos. Se os melhores são figuras como Alexandre Frota, temo pelo futuro do Brasil.

Mas no fim das contas, sempre que confrontado, o candidato do PSL afirma que seu interlocutor é um petista, socialista, comunista, apoiador da tortura e do nazismo. Afirma ser a opção para “salvar” o país das garras do PT e de se tornar uma Venezuela. Neste momento nada mais passa pela minha cabeça a não ser imaginar que o indivíduo se encontra em profunda viagem lisérgica.

Questionado no programa Roda Viva, da TV Cultura, se abriria os arquivos da ditadura, afirmou que não o faria e que os crimes cometidos não passam de invenção da esquerda e do PT. Seus seguidores – que são muitos – sistematicamente reproduzem isso que chamam de argumento. Sem sequer conseguirem distinguir socialismo e comunismo, saem postando rótulos; questionados sobre a tortura durante a ditadura, elencam que também houve tortura em regimes totalitários de esquerda (o que é inegável), mas fazem isto apenas porque não apresentam condições mínimas de debater racionalmente qualquer tema. Além disso (pasme!), decidiram que os alemães nada entendem sobre o nazismo e que este foi um movimento de esquerda porque tinha “socialista no nome”. Pobres de espírito, não tiveram sequer a coragem de ler sobre a ressignificação do conceito dada por Hitler.

E por que o Brasil se tornaria uma Venezuela? Entre 2003 e 2010 o Brasil teve diversos avanços sociais, saiu do mapa da fome, houve grande incremento industrial e obras de infraestrutura, construiu-se mais universidades do que em toda a história do país, mas infelizmente o ditado já dizia que brasileiro tem memória curta – e pior, costuma não reconhecer o que lhe é feito de positivo.

Não pretendo gastar nosso tempo aqui defendendo o óbvio, que indivíduos tenham seus direitos respeitados e que os eleitores de Bolsonaro entendam de uma vez por todas o que significa a legitimidade do portador do discurso, antes de saírem espalhando putrefações como “ódio do bem”, “mas tal pessoa disse tal coisa e ninguém falou nada”. Escrevo para pessoas que pensam, portanto deixo a cargo de cada um pesquisar – não no Google, por favor.

Como já passei tempo demais falando da execrável figura, devo explicitar a dor que é votar em Haddad. Sem carisma algum e com uma retórica sem sal, o candidato do PT representa individualmente uma figura de enorme preparo intelectual, mas sem traquejo político. Minha crítica central ao PT está em não ter de fato efetivado as políticas que pôs em andamento e nos seus 14 anos no Executivo, não ter realizado um plano de desenvolvimento nacional que atente para as especificidades regionais.

O PT se apequenou (Jair nunca foi grande). Ocupou o poder, contava com prestígio popular e mesmo assim não conseguiu, e sequer se propôs, a realizar as reformas necessárias. Nestas eleições, a presidente do partido disse querer distância de Ciro Gomes, candidato do PDT, apontado pelas pesquisas como o único a vencer todos os adversários no segundo turno. Também não se aceitava a condição de vice. O partido nega-se a reconhecer seus erros – e reconhecer erros é o caminho para evitá-los no futuro –, nega-se a abrir mão do poder; hoje, podemos considerar o PT como uma falsa-esquerda, como um partido (como corpo) que se deixou levar pelo doce gosto do poder; e para fazer julgamentos positivos, tem-se que ir para o individual.

Os avanços dos governos petistas foram muitos, entretanto nem o mais convicto dos seus eleitores pode se deixar levar pelo sonho que o fez votar no partido em 1989. Foi também durante os governos do PT que os bancos tiveram os maiores lucros da história deste país. Empreiteiras e outros grupos da aristocracia econômica mantiveram-se como nobres amigos nos altos escalões do governo, como vinha ocorrendo desde 1964. O governo foi alicerçado pelas elites, até que não mais serviu a elas e foi enxotado.

Chega a ser risível a maneira como petistas beatificam o ex-presidente Lula. Não entramos aqui no mérito de sua prisão, falo de momentos muito anteriores. Como um dos maiores líderes populares da história deste país, arrasta multidões por onde quer que passe. Lula é o homem das multidões. Por mais que em seus dois governos a condição de vida da população tenha melhorado muito (e quem nega isto provavelmente estava na Lua), casos de corrupção foram claramente acobertados, multinacionais foram beneficiadas em detrimento do produtor nacional, o país não se desenvolveu, mas teve um alento para anos de sofrimento. Votar em Haddad significa nostalgia. Em Bolsonaro, incoerência. As políticas sociais do PT (à exceção das universidades) foram soluções necessárias, mas para curto prazo. O Bolsa Família tem valores risíveis, mas alenta pessoas sem condição de vida; se o programa for cortado, inevitavelmente voltaremos para o quadro da fome. Por quê? Porque não se trabalhou o desenvolvimento sócio-econômico a longo prazo.

Muitos brasileiros, como eu, ainda têm fé na possibilidade de um país alinhado com um modelo político que permita um novo modelo de desenvolvimento social, onde respeitadas as idiossincrasias sejam dadas bases para evolução inteligível da sociedade.  Um país que possa ser chamado de nação e combatamos a plutocracia do Judiciário e dos partidos políticos. Devo alertar que não é na base do grito ou da associação trágica com o baronato agrário e internacional que será feita a reforma estrutural que o Brasil precisa.

Este pleito eleitoral demonstrou que o brasileiro não está mais politizado, apenas cansou do futebol e encontrou outro jogo irracional do nós contra eles. A sorte já foi lançada no dia 07 de outubro, agora resta-nos escolher entre a irracionalidade e a nostalgia. O voto em Haddad é pela ruína de seu adversário.

Por: Alexandre Stori Douvan. Acadêmico de Jornalismo na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Membro do grupo de estudos em Ciências Humanas – Mentes Inquietas.

Ponta Grossa, 10 de outubro de 2018.

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