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Cruzes, águas santas e cemitérios de anjos: lugares sagrados relacionados a São João Maria

Pesquisadores seguem os passos de São João Maria em São Mateus do Sul. Na imagem Cemitério de Anjos na localidade de Paiol da Barra Feia. (Fotos: Instituto Histórico e Geográfico de São Mateus do Sul)

Há três anos os caminhos, memórias e lugares de São João Maria vêm sendo pesquisados em São Mateus do Sul com o objetivo de tornar visível e conhecido o patrimônio cultural material e imaterial associado a este Santo popular que é personagem respeitado, admirado e venerado devido aos seus milagres de cura, profecias e predições.

Lugares sagrados associados a São João Maria, no município de São Mateus do Sul/PR. (Fonte: Organizado por Föetsch e Deina – 2018)

Tudo começou quando, para ocupar uma cadeira no Instituto Histórico e Geográfico de São Mateus do Sul (IHG/SMS), a professora doutora Alcimara A. Föetsch, da Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR), resolveu homenagear este peregrino curandeiro e profeta, buscando identificar os locais onde existem cruzes e pocinhos d’água. Por residir no município e conhecer tão bem pessoas e lugares, o professor e mestre Mário Deina foi convidado para participar e prontamente auxiliou na tarefa de buscar estas informações. Consolidou-se, assim, uma frutífera parceria e uma verdadeira cadeia de informantes que se dispuseram a indicar locais e relatar histórias. Porém, ao visitar esses lugares sagrados, os dois pesquisadores acabaram se deparando com um elemento diferenciado, ainda não estudado regionalmente, mas muito frequente nos espaços de João Maria: trata-se dos cemitérios de anjos – ou cemitérios de criancinhas, pequenos túmulos de fetos, natimortos ou bebês que pelos mais diversos motivos faleciam e eram enterrados nesses lugares associados ao Santo.

E, dessa maneira, a pesquisa cresceu em curiosidade e objetivo. Foram visitados mais de 60 lugares no município, destes, 33 foram devidamente identificados e mapeados por GPS como relacionados à São João Maria, o que permitiu estabelecer possíveis rotas de passagem além de perceber a importância da crença e da fé nesta figura emblemática da região.

Fazendo uso da Historiografia e da Geografia Cultural para discutir a religiosidade popular e o catolicismo rústico, os cemitérios de anjos tem revelado muita coisa sobre a dinâmica populacional, econômica, social e religiosa de São Mateus do Sul e parte desta pesquisa será apresentada a seguir.

Cruzes marcam a paisagem religiosa e testemunham a fé popular

João Maria, conhecedor nato do poder visual das cruzes, as utilizava em suas pregações, “plantando-as” por onde passava com o intuito de identificar seus locais de paragem e pousio, além de usá-las para alimentar o imaginário coletivo acerca de sua figura mística. A cruz é um símbolo imponente na paisagem. O interior do município de São Mateus do Sul no final do século XIX – momento histórico da passagem do profeta – era pouco povoado e os escassos moradores careciam de espaços sagrados, sobretudo, porque a religião é prática importante na vida social. O Monge, personagem emblemático da época, pernoitava e se abrigava em lugares específicos sempre próximos a fontes d’água. Era onde fincava uma cruz para especializar sua aparição, e, rapidamente, estes lugares passavam a ser considerados virtuosos e imaculados, sobretudo, por conta da fé popular que foi se construindo em torno deste peregrino, vidente, assistente físico e espiritual.

Cruz de São João Maria na localidade de Lageadinho. Na foto, o historiador Mário Deina.

Conhecedor único da natureza e suas manifestações, utilizava do cedro (Cedrela fissilis) para confeccionar suas cruzes. Trata-se de uma espécie arbórea regional dotada de uma característica peculiar e adequada a seus propósitos: o fato de brotar facilmente a partir de galhos e troncos, sem necessidade das raízes. Ao fincar estas cruzes que “milagrosamente brotavam” e formavam frondosas árvores, o Monge atestava sua santidade e demarcava seus espaços de fé e devoção.

Segundo os relatos obtidos pelos pesquisadores, o monge não aceitava hospedagem em residência, preferido dormir debaixo de árvores, grutas naturais ou debaixo de taipas de pedra e que em cada lugar que pernoitava ou acampava costumava afincar uma cruz, símbolo da fé cristã, as quais na maioria das vezes eram confeccionadas em cedro, madeira abundante na região sul e de modo especial em São Mateus do Sul. O historiador Mário Deina afirma a esse respeito: “desde que o ser humano existe no planeta e se reconhece como tal, tudo o que não compreende, atribui a uma força exterior ou superior, que pode ter várias definições, sendo que na fé cristã essa força é chamada de Deus. Hoje a botânica explica facilmente porque o cedro brota, porém para uma população simples e inculta no final do século XIX e início do século XX, aquilo parecia um milagre”, diz.

As cruzes de São João Maria estão espalhadas por todos os quadrantes do município, sendo que foram localizadas até o momento da pesquisa trinta e três delas, cujo mapeamento permite definir de modo aproximado as rotas percorridas em São Mateus do Sul pelo profeta andarilho. As cruzes que brotam, as curas de adultos, idosos e crianças, os batizados e as pregações fizeram com que o sertanejo de alma pura, elevasse o “monge” à categoria de “santo”, embora não reconhecido pela igreja católica, depositando parte de sua fé numa religiosidade popular que caminha paralela ao cristianismo oficial e que os historiadores classificam como catolicismo rústico.

Águas que batizam e que curam

Pocinho de São João Maria na localidade de Borrachão. Na foto, Alcimara A. Föetsch.

Como todo viajante, ao fixar acampamento, “São João Maria” procurava fazê-lo próximo de nascentes d’água, uma vez que esta é insumo fundamental para a sobrevivência humana. Assim, a fim de obtê-la com mais facilidade e tranquilidade, cavava pequenos buracos para que a água se mantivesse armazenada durante sua permanência no local. A mesma água, utilizada para cozinhar alimentos, para higiene pessoal e das roupas, era também usada para batizar crianças, numa época em que os sertões de São Mateus do Sul eram pouco visitados por padres, dada a escassez desses. Se apresentando como um representante de Deus na terra, João Maria batizava as crianças em nome de Deus, utilizando a água dessas fontes.

Após sua partida, com o advento das curas e da cruz que brota, tendo como decorrência a santificação dos locais de parada desse personagem, as pessoas passaram a atribuir poderes milagrosos também à água da fonte utilizada por ele. Surgem então as chamadas “Águas Santas de São João Maria” ou popularmente, “Pocinhos de São João Maria”. Mas a água santa nem sempre é representada por um pocinho. Pode ser também um córrego, um lago ou um rio.
Desenvolveu-se então o hábito de batizar as crianças nos “pocinhos de São Maria”, por considerar que a água do local é benta e, portanto, a criança será recebida por Deus e estará protegida pelo “Santo”. Até os dias atuais algumas famílias cultivam ainda o hábito de batizar crianças no pocinho de São João Maria, além do batismo formal na Igreja Católica. Vale destacar que estes laços de apadrinhamento com João Maria são material que pode render excelentes pesquisas futuras.

Os pesquisadores já localizaram em São Mateus do Sul doze locais onde existiam ou ainda existem os pocinhos, inclusive um na área urbana bem próximo ao centro da cidade, sendo que alguns desapareceram pela ação humana ao expandir lavouras ou estradas e outros ainda continuam nos locais e são visitados frequentemente por pessoas que creem na santidade dessas águas. Também muitas das cruzes localizadas se situam nas proximidades de rios, córregos ou pequenos lagos, que são igualmente venerados pelas pessoas.

Vários dos entrevistados declararam que ou foram batizados no pocinho de São João Maria ou conhecem alguém que foi. Alguns receberam inclusive o nome de João Maria, em homenagem àquele que é considerado pelo sertanejo são-mateuense como um profeta de Deus.

Os cemitérios de anjos – nascidos para não viver, protegidos de São João Maria

São, de fato, muito comuns no Sul do Brasil as cruzes e águas santas de São João Maria, conjunção conhecida na história e na memória regional, locais de romaria, oferenda, promessa e culto. Em São Mateus do Sul, o cemitério de anjos/criancinhas, adiciona um forte elemento identitário agregador a estes espaços sagrados, os ressignificando pelo acréscimo de práticas distintas. Impossível determinar o início de cada cemitério de anjos, sobretudo, porque os primeiros a realizarem essa prática já faleceram, restando apenas os que reproduzem os sepultamentos pela devoção a João Maria e pela consideração aos costumes ancestrais. No recorte espacial analisado ficou evidente que esta prática fúnebre se relaciona diretamente ao Santo popular tendo em vista que muitos relatam que o próprio São João Maria havia “dado ordem” para enterrar os anjinhos em seus lugares de pouso, por serem lugares “valiosos”.

Estes “anjinhos” eram, principalmente, recém-nascidos natimortos, fetos que nasciam antes do tempo e, em casos menores, crianças até sete anos de idade. De início, acreditava-se que eram chamados de anjos por não terem sido batizados, isso procede em alguns casos, porém, muitos relataram que a própria Igreja, justamente por sua ausência nestes sertões interioranos, não impedia o sepultamento nos cemitérios oficiais. Dessa forma, percebeu-se que o que deu origem aos cemitérios de anjinhos foi muito mais a crença na proteção de João Maria, (lembrando que muitos eram seus afilhados reais ou espirituais) do que o fato de não terem sido oficialmente abençoadas pelo batismo da fé cristã. Portanto, “anjos” são os que nasciam mortos (natimortos), faleciam logo após o nascimento, frutos de abortos involuntários, por vezes ainda sem identificação clara do sexo ou crianças que morreram antes dos sete anos de idade. Quando não se sabia ainda o sexo, durante o batismo em casa ou no próprio cemitério, eram atribuídos nomes duplos que mesclavam o feminino e o masculino, como Maria José, ou, muito comum, João Maria. O enterro era feito pela própria família, pela parteira ou por conhecidos próximos, sem documentação oficial de nascimento e óbito.

Somam-se a isso, as justificativas acerca das dificuldades encontradas na região durante os anos finais do século XIX e estes anos iniciais do século XX, em especial, a falta de estradas trafegáveis, a precariedade de transportes e as intempéries que dificultavam o translado destas crianças até os campos santos mais distantes. Entretanto, há que se mencionar o fato de que os adultos, independente destas condições, eram levados até os cemitérios oficiais, o que confirma as informações levantadas pelos pesquisadores, de que o sepultamento junto às cruzes estava ligado diretamente à crença dos pais na santidade do monge peregrino.

A pesquisa

O trabalho dos dois pesquisadores está vinculado às atividades do Instituto Histórico e Geográfico de São Mateus do Sul (IHG/SMS) que a patrocina e teve origem na eleição da professora doutora Alcimara Föetsch para a cadeira número 2 da instituição.

Da pesquisa já resultaram três trabalhos apresentados em eventos acadêmicos de projeção nacional e internacional durante o ano de 2017, como: o “3º Simpósio Nacional Eletrônico de Ensino de História” promovido pela UNESPAR; o “XII Encontro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia – ENANPEGE”, na cidade de Porto Alegre-RS; e no “Seminário Internacional de Geografia Agrária – SINGA” na cidade de Curitiba. Em todos os eventos os trabalhos apresentados foram inscritos nos anais e estão disponíveis ao público nos sites dos eventos.

Em agosto, as pesquisas foram apresentadas em mesa redonda na Universidade Regional do Cariri (URCA) em Juazeiro do Norte e Crato-CE e na disciplina “Dinâmica dos Lugares Sagrados” sob coordenação do professor doutor Christian Denis de Carvalho, do curso de Pós-Graduação em mestrado e doutorado em Geografia da Universidade Federal do Ceará, em Fortaleza.

Os projetos futuros dos pesquisadores e do IHG/SMS contemplam a possibilidade de realização de seminários locais, publicação de livros e realização de congressos de alcance regional para discussão da presença de São João Maria não apenas em São Mateus do Sul mas em toda a região fronteiriça do Paraná e Santa Catarina.

Serviço

Os pesquisadores pedem que cidadãos que conheçam lugares de passagem de João Maria não contemplados no mapa ilustrativo, ou conheçam lendas ou possuam relatos de supostos milagres entrem em contato e assem as informações para o IHG/SMS nos seguintes endereços:

E-mail: ihgsms@gmail.com

Facebook: Instituto Histórico e Geográfico de São Mateus do Sul

Whatsapp: (42) 98863-7343.

Material exclusivo disponibilizado pelo Instituto Histórico e Geográfico de São Mateus do Sul

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