Sonda de xisto na Fazenda Pedreira. (Fonte: Acervo Casa da Memória)

A campanha “O Petróleo é Nosso!” mobilizou o país na primeira metade do século passado, culminando com a criação da Petrobras. O Sítio do Pica-Pau Amarelo é uma obra clássica da literatura infantil. Mas você está se perguntando qual a relação disso tudo com São Mateus do Sul? Vamos lá, embarque comigo nessa história!

Quando falamos da exploração do xisto certamente nos vem à cabeça o nome de Roberto Angewitz. Mas antes dele, o alemão Rodolfo Wolff, o poeta Arnoldo Prohmann e o espanhol Antônio Tápia também tentaram extrair o “petróleo” da rocha betuminosa. Nesta época de tentativas e fracassos, a Fazenda Pedreira, de David de Paula e Silva, conseguiu atrair os olhares da firma “Lage & Irmão”, do Rio de Janeiro. O empresário Henrique Lage investiu pesados recursos nas sondagens do xisto, enviando para a Terra do Mate o engenheiro romeno Badesco Dutza.

Em 1º de setembro de 1921 era inaugurada, na fazenda da Pedreira, a Usina Santa Cecília, “primeira usina petrolífera deste gênero no paiz” (A República, 24/08/1921), como anunciava o próprio Badesco Dutza aos jornais de Curitiba e do Rio de Janeiro (foto desta coluna: sonda de xisto na Fazenda Pedreira). Durante os anos seguintes o engenheiro prosseguia com as explorações “certo da eficiência da mina, pelos indícios obtidos” (Diário da Tarde, 25/11/1922). Após as explorações em São Mateus, Dutza explorou xisto e petróleo em várias localidades do país. Nessa época, Companhias Internacionais e até órgãos do governo divulgaram relatórios dizendo que o Brasil não tinha petróleo. Dutza reagiu: “Neste abençoado país existe o petróleo, e o afirmo com bases seguras. (…) Existe petróleo no sul do Brasil” (O Dia, 05/04/1925). Em outro artigo era mais incisivo: “O que venho afirmar sabem perfeitamente os geólogos da The Standard Oil e The Royal Dutch, porém esperam que o Brasil se alinhe entre suas vítimas”.

Nos anos seguintes Badesco Dutza se instalou em São Paulo e passou a se comunicar com o escritor Monteiro Lobato. Os dois chegaram a se associar numa companhia de exploração de Petróleo. O criador da Emília e do Visconde de Sabugosa abraçou a ideia de que o Brasil seria rico em petróleo, contrariando a Standard Oil que “estranhamente” emitira um laudo para o governo brasileiro afirmando não haver petróleo em nosso solo. Em 1936 Monteiro Lobato publicou “O Escândalo do Petróleo”, que vendeu todos os 20 mil exemplares em cinco meses. Quando o livro foi proibido pelo governo, em 1937, o escritor lançou a história infantil “O Poço do Visconde”, com críticas veladas à situação. O ápice do conflito ocorreu quando Monteiro Lobato enviou uma carta ao Presidente Getúlio Vargas, denunciando “as manobras da Standard Oil para senhorar-se das nossas melhores reservas”. Vargas determinou a prisão do escritor, que passou seis meses atrás das grades.

De 1939 a 1953 foram perfurados 52 poços de petróleo no país, provando que o engenheiro Dutza que furava xisto em São Mateus, e o grande Monteiro Lobato, tinham razão! Rapidamente o mesmo presidente Vargas, ao ver que o apelo nacionalista do petróleo ganhava cada vez mais adeptos nas ruas do país, abraçou a causa e patrocinou a Campanha do Petróleo, cujo lema era “O Petróleo é Nosso!”, criando a Petrobras em 1953. Até a próxima semana e céus limpos para todos nós!

Gerson Cesar Souza
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