No Arco do Triunfo em Paris, com Roger. (Fotos: Acervo Pessoal)

Meu nome completo é um pouquinho grande, Edna de Cássia Guimarães Alkmim Thramm, mas prefiro apenas Edna Guimarães ou meu apelido: “Ed”, pela praticidade. Sou natural de São Mateus do Sul, nascida e criada, mas uma pequena parte da minha infância passei em Contagem – MG. Filha de Sueli Aparecida Guimarães Alkmim Thramm – natural de São Mateus do Sul – e Adélcio Magalhães Alkmim Thramm – um mineiro que se apaixonou pela cidade.

Lembro de ter escutado, ainda quando criança, que quem bebe das águas do Iguaçu sempre retorna. Essa frase ficou na minha memória. Tenho 31 anos, moro com meu companheiro e não tenho filhos. Estudei a vida toda em escolas públicas e isso me ajudou a compreender a importância do apoio à educação, do acesso gratuito e de qualidade.

Durante a infância, estudei na escola Municipal Pedro Heffco, na Vila Prohmann, onde morei a maior parte da vida são-mateuense. No início do Ensino Fundamental e Médio, estudei alguns meses no Colégio São Mateus e depois mudei para o Duque de Caxias, onde finalizei meus estudos. Apesar de ter problemas, como qualquer adolescente, sempre gostei de ser uma aluna ativa, participando do grupo de teatro que havia na época e de eventos culturais. Acho que isso ajudou a definir quem eu sou hoje.

Inverno em Stuttgart, Alemanha.

Vista da arquitetura alemã de Hanenberg.

Depois de ter concluído o ensino médio, além da dúvida comum ao jovem sobre qual curso fazer, eu tive que pensar também como iria realizar o sonho universitário. Não tinha recursos financeiros para uma federal em tempo integral morando na capital ou alguma cidade próxima, então optei pelo que foi mais acessível logisticamente: pagar um curso em uma cidade próxima de São Mateus do Sul, onde eu conseguiria trabalhar e estudar. E assim foi até o final do meu curso, em 2015, quando me graduei em Artes Visuais pela UnC – Canoinhas.

Morei em São Mateus do Sul até 2016, quando fui morar em Curitiba. Tinha uma relação de paixão e curiosidade com a cidade e foi bom vivenciar a rotina curitibana. Residi no centro, ao lado da reitoria da UFPR, onde pude compreender a importância de uma vivência universitária para a cidade e a comunidade em si.

Como foi parar na Alemanha?

Estou na Alemanha há 2 anos, atualmente morando em Berlim, e parafraseando a cantora Ana Carolina “vim parar nessa cidade, por força da circunstância” (risos).

Meu companheiro mora na Alemanha há 3 anos, veio a trabalho e, depois de um período de namoro a distância, resolvemos experimentar a nossa vida conjugal em terras germânicas. Cheguei com visto de turista, consegui extensão para o visto de estudante e agora estamos em processo de casamento.

Não cheguei preparada para o mercado de trabalho internacional, pois não vim inicialmente para esse propósito. Atualmente, estudo inglês e alemão, estou correndo atrás do “tempo perdido”. Aos 31 anos, estou reaprendendo a falar, me comunicar, me expressar e ter novamente minha autonomia.

Trabalho há anos com Design Gráfico e, aqui em Berlim, existem muitas possibilidades dentro dessa área. Espero que, em breve, eu consiga conquistar o meu espaço! Algumas vezes, pensei em retornar ao Brasil, em especial pela complexidade do idioma e minha rede de contato/apoio, mas na atual circunstância política e pandêmica não vejo perspectiva em nosso país, o que é uma grande tristeza.

Alemanha também tem belos castelos.

Como é a sua vida aí?


Nossa vida por aqui é confortável. É meio surreal para um brasileiro pobre estar em um país onde, mesmo com um salário mínimo, é possível ter uma vida mais digna.

Inicialmente, morei em Stuttgart, capital do estado de Baden-Wurttemberg, ao sul da Alemanha. É uma região conhecida por ser um polo industrial e automotivo, com empresas como Mercedes, Porsche, Bosch, além de ter belas paisagens e arquitetura típica. Com salários altos e custo de vida alto também! Munich é um ótimo exemplo disso, é uma das cidades mais caras para se viver por aqui.

Foi um período muito interessante, pois eu nunca tinha saído do Brasil, nunca tinha tido o privilégio de conhecer outros países, então tudo era novidade! Mas na rotina, eu e meu companheiro, não nos sentimos muito confortáveis naquela região, é muito conservadora e, em alguns aspectos, não muito receptiva. Acho importantíssimo dizer que essa opinião é totalmente particular, pois varia de acordo com nossas expectativas e vivências pessoais.

Focamos em Berlim como uma possibilidade de mudança sem precisar sair do país. A Alemanha é muito burocrática e não queríamos desperdiçar meses de correria com papelada recomeçando do zero em outro país. Apostamos em Berlim todas as nossas fichas. E aqui estamos! Nos mudamos agora, no meio da pandemia, e já fazem 2 meses – não temos muitas fotos de Berlim ainda porque estamos em lockdown por aqui.

O que sempre procurei é viver bem, de modo confortável comigo e com a sociedade que me rodeia. Berlim é uma cidade cosmopolita, onde muitas pessoas de diferentes nacionalidades e vivências chegam com a certeza de que serão mais acolhidas, como nós imigrantes ou refugiados e pessoas lgbtqia+.

Pensando o que falta do Brasil aí? E o que falta daí para o Brasil?


Além da família e amigos, sem dúvida, o que falta do Brasil é a comida! É incrível como temos uma ligação afetiva com a comida. Encontramos feijão preto, tapioca, pão de queijo e brasileiros vendendo salgados e pratos típicos da nossa região, mas nada supera o ato de ir na feirinha e comer um pastel fresquinho com um caldo de cana gelado ou os salgadinhos da Tuty. Além disso, sinto falta da nossa língua, de toda nossa riqueza linguística e de um inverno menos rigoroso.

E sobre o que falta daqui no Brasil? Essa pergunta é complexa. Eu poderia começar falando da valorização da moeda, da segurança, do acesso à educação e alimentação de qualidade, mas não posso falar isso sem lembrar de onde estou – Europa. Ser uma latina e viver na Europa é lembrar cotidianamente da crueldade dos colonizadores, eles conseguiram o que tem hoje, explorando outros continentes (e ainda continuam).

Boa parte dos problemas que temos em nosso país é reflexo de um passado violento. Não consigo comparar muito Alemanha e Brasil, mas talvez em ambos o amor pela cerveja, comida e festa! Eu tenho muito orgulho do nosso país e da nossa arte. Ser brasileira e ser latina significa muito para mim.

Detalhes no poste localizado na esquina de onde Edna mora.

Edna na Alemanha.

Como o Brasil é visto aí?


Essa pergunta é pertinente, porque peguei dois momentos aqui – antes da pandemia e agora, durante a pandemia com o atual governo. Antes da pandemia, lembro de estar num bar e um rapaz perguntar de onde éramos. Quando dissemos “Brasil”, ele soltou um sorriso e se desarmou! Rapidamente, já estávamos “amigos”. E, logo na primeira abertura do primeiro lockdown, fomos conhecer uma cidade bem próxima, nós estávamos tirando foto e um senhor perguntou de onde éramos, quando dissemos “Brasil”, ele soltou um “mas como vocês entraram?”. Isso me marcou muito!

Claramente, fomos de uma imagem de um país carismático, aberto e receptivo para um sinal de ameaça e descomprometimento, o que é muito triste e não se sabe quanto tempo vai levar para mudarmos nossa atual imagem no cenário internacional.

Fale um pouco dos costumes/curiosidades que gosta e que não gosta aí?

Dos pontos positivos, em relação à cultura e hábitos alemães são:
Têm paixão pelo ar livre. Eles realmente amam parques, lagos, sabem aproveitar demais os poucos meses de calor e clima agradável. Como temos muitos meses de frio, quando começa a esquentar o alemão já está fazendo nudismo no parque! No verão, sem pandemia, os famosos biergarten ficam cheios e acontecem inúmeros festivais. Ah! Quem tem espaço em casa, seja uma varandinha ou um quintal, aproveita muito bem, os jardins e quintais são lindos!

Além de aproveitarem muito ao ar livre, grande parte dos alemães adora atividades físicas e não tem idade limite para isso. Já cansei de ser ultrapassada nos passeios por idosos em ótima forma! Eles amam roupas práticas e esportivas.

O respeito com o meio ambiente também. Eles levam muito a sério a separação do lixo e é muito comum a prefeitura doar sacos de lixo para incentivar a coleta de recicláveis. Lavar carro ou calçadas aqui é proibido, pela questão da água (lençóis freáticos e produtos inadequados para o solo). Alemão ama multa! Já conheci uma pessoa que levou uma multa de 50 euros por jogar bituca de cigarro no chão. E é proibido matar abelhas ou vespas, dá uma multa altíssima. Se tiver algum problema com elas, você deve chamar as autoridades.

Dos pontos negativos:
Não é um idioma fácil, mas o que dificultou muito foi o pouco “consumo” do idioma alemão antes de vir para cá. Estamos trabalhando nisso! O clima na Europa é muito drástico e marcado, vai do calor intenso e dias longos no verão para dias longos de frio, neve e dias escuros no inverno. Sem dúvida, dá um choque nos primeiros anos. O que uns chamam de ser objetivo e sincero, às vezes pode soar como grosseria para a gente. É difícil entender até onde a pessoa está sendo direta ou só mal-educada mesmo.

Edna no portão de Brandenburgo.

Tem saudade?


Sim, da família e alguns amigos, como mencionei antes. Admiro nossa cultura, gastronomia e arte e tenho saudade, sim. Mas, no momento, não vejo que estamos com um governo que nos acolha ou nos respeite. Não gostaria de voltar na atual situação.

No mais, acho que é importante sairmos de nossos ninhos quando possível, pois isso nos traz experiências e vivências novas. Tenho um carinho imenso por São Mateus do Sul, mas sair dela também me fez enxergá-la de outra forma, com mais criticidade e afeto!

Hugo Lopes Júnior
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