Hoboken/New Jersey com a vista de Manhattan ao fundo. (Fotos: Acervo pessoal)

Meu nome é Sandra Griten Vidal, sou casada, tenho 44 anos e uma filha de 5 anos. Sou natural de São Mateus do Sul e possuo minha família aí. Formada em Administração pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), em 2003.

Cheguei aqui nos Estados Unidos, por causa do meu irmão, que veio para cá em 1998, e mora no estado de New Jersey. Vendo o que ele estava conquistando aqui, decidi mudar para cá também e explorar novos horizontes, isso foi em 2005. Morei também em New Jersey, mas hoje resido no estado da Flórida, mudei durante a pandemia e foi desafiador, até mais do que a mudança de país que fiz em 2005, pois eu, meu esposo e minha filha, estávamos infectados pelo coronavírus, e estávamos sozinhos em um novo lugar, distante de onde vivíamos.

O famoso touro da Wall Street (Charging Bull), que representa a bolsa de valores de NY.

Comunidade Amish em Pensilvânia, local de visitação.

A minha vida aqui é bastante agitada, pois desenvolvo meu trabalho de casa. Meu esposo possui uma empresa de logística e eu o ajudo na parte administrativa. Mas aproveito também para estudar, pois meu foco é aprender tudo sobre o mercado financeiro para ser Trader (compra e venda de ações). No meio disso, também tenho uma dupla jornada, visto que tomo conta sozinha de todos os afazeres de casa e da minha filha, que tem atividades pedagógicas além da escola regular.

Como moro aqui nos Estados Unidos há mais de 16 anos, a vida agora está muito mais fácil, mas no início – acredito que todos que moram fora digam a mesma coisa – o idioma foi a principal dificuldade que tive. Para tudo a gente precisa de comunicação de maneira correta, seja para comprar uma água, pegar um metrô, pedir um emprego, etc. Costumo dizer que mudar de país é como nascer novamente: você não sabe falar o idioma, não sabe pegar um ônibus, não sabe comprar produtos em um supermercado pois tudo está em inglês. Além de não falar a língua, eu não tinha a menor ideia da minha localizacao geografica na cidade, pois não conhecia absolutamente nada. Mesmo assim, fiquei muito eufórica com todas essas novidades, apesar de não ser nada fácil o início dessa nova jornada.

Posso dizer que a América é para todos, porém, nem todos são para a América. Há muitas pessoas que vieram para cá e voltaram após poucos meses, pois não conseguiram se adaptar a esse novo mundo.

Comemoração do Dia da Independência em 4 de julho em Jersey City, com a vista de Manhattan.

Hoje em dia a minha maior dificuldade é viver longe da família, para dividirmos os bons e maus momentos. É difícil ver minha filha crescer longe de todos os parentes aí do Brasil, incluindo os do meu esposo, que também é brasileiro. Esse é o preço de morar fora: a saudade é o que mais pesa. Mas, passar por uma experiência como essa nos faz crescer muito como pessoa. Passamos a valorizar muito mais as pequenas coisas, momentos e pessoas. Acredito que muitos de vocês possam me entender melhor hoje em dia, devido a esse distanciamento social que estamos obrigados a manter, devido ao Covid-19. Tem muitas coisas na vida que tem um preço muito alto e muito pouco valor e outras tem muito valor e não te custam absolutamente nada.

Aqui nos Estados Unidos temos uma excelente infraestrutura, segurança e leis que funcionam, são respeitadas. Tem muito mais oportunidades de trabalho e uma melhor distribuição de renda, além de uma moeda forte. O que temos no Brasil que não temos aqui nos Estados Unidos, é o calor humano e a vida menos agitada. Aqui é uma loucura: trabalha muito, porém vemos o resultado financeiro desse nosso suor. Como dizem, a América é a terra das oportunidades.

Uma coisa que, no entanto, me deixa um pouco triste aqui é quando comparo o Brasil com os Estados Unidos e percebo claramente que o Brasil tem condições de ser uma grandiosa potência mundial. O Brasil tem muito mais recursos naturais do que os Estados Unidos e também pessoas dispostas a trabalhar duro. O Brasil poderia facilmente ser um pais melhor e mais forte que os Estados Unidos. Lá, tudo que se planta dá, pois a terra é abençoada e não tem nevascas, tornados, tempestades e se produz o ano inteiro.

Tenho vários amigos norte-americanos. Quem conhece o Brasil, ama de paixão. Por outro lado, quem não conhece nem sabe onde o país se localiza no mapa. Há os que sabem acham que o Brasil é uma floresta e perguntam se o português que falo é o de Portugal. Tenho uma amiga norte-americana que mora em New Jersey e que já foi algumas vezes para as praias no nordeste do Brasil, nas regiões mais pobres e ela disse que ama o Brasil, ama a alegria do povo, a generosidade e a hospitalidade. Ela disse que não entendia como podiam aquelas pessoas que moravam em casas tão simples, com tão poucos recursos serem tão felizes e estarem sorrindo o tempo todo. E completava ainda dizendo que aqui nos Estados Unidos temos praticamente tudo e a maioria de nós não está satisfeito ou feliz com o que tem.

Quanto aos costumes daqui, posso enfatizar duas coisas: a pontualidade que o americano respeita muito e também aqui se marca hora para tudo, hora para começar e hora para terminar, seja uma festa de aniversário, uma reunião na casa dos amigos ou até mesmo quando as crianças vão brincar no parquinho ou na casa de um amigo. Nem pensar em aparecer na casa de um americano sem avisar. Mas, com o passar dos anos, tudo se tornou tão natural para mim que isso não me incomoda mais. Mais uma curiosidade: aqui não se tem o costume de sair à rua, conversar com os vizinhos, bater um papo furado na frente das casas.

O que eu tiro de lição de tudo isso é que o ser humano tem a capacidade de se adaptar. Sair da zona de conforto não é fácil, mas quando queremos melhorar em algum sentido mudar é a palavra-chave. Morar fora me faz olhar tantas coisas por outra perspectiva, dou valor ao que realmente tem valor e tento filtrar tudo aquilo que não tem importância. Aprendi que na vida não podemos ter medo de errar, pois faz parte do processo de apreendizado, amadurecimento e desenvolvimento. Digo para todos: não tenham medo de errar, planejem, estudem a situação e comecem a agir… os problemas irão surgir, porém, para tudo nessa vida tem solução. O que somos hoje é resultado de todas as pequenas decisões tomadas no passado e foram elas que nos trouxeram até aqui. Cada decisão que tomamos é como uma pequena semente. Nem todas irão germinar, porém, aquela pequena semente poderá te propiciar a colheita de muitos frutos. Espero que nosso povo e nossos líderes aí no Brasil plantem boas sementes para o futuro.

Hugo Lopes Júnior
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