(Fotos: Arquivo Pessoal)

Iniciando nessa edição, vamos contar um pouco da vida de são-mateuenses ou de pessoas que viveram muito tempo aqui (e se consideram são-mateuenses de coração), que ganharam o mundo e hoje vivem em outro país. Vamos conhecer outras realidades, costumes e como nosso país é visto lá de fora, pelos olhos de nossa gente.

Embarque nessa viagem e, se conhecer alguém que vive nas terras de lá e que queira contar a sua trajetória aqui, entre em contato com a nossa redação.

Nossa primeira viagem é com Gustavo Portes, natural de São Mateus do Sul, que atualmente mora na Tailândia. Filho de João José Portes e Ione Portes (ambos já falecidos). Conheça aqui um pouco a sua trajetória.

Hoje, com 35 anos, casado há 8 anos com Gabriella, com quem teve o Benjamin, de 4 anos, e a pequena Clarice, de 1 ano. Estudou no Colégio Sema e também no Cpans.

Seu caminho pelo mundo começou aos 17 anos, quando saiu de São Mateus do Sul para cursar Comércio Exterior na UEPG, em Ponta Grossa. Os estudos continuaram com Mestrado em Ciências Sociais Aplicadas (UEPG, 2013), a Especialização em Teologia (Unasp-SP, 2015) e Doutorado em Estudos Interculturais (Andrews University, Michigan-USA, 2016).

Onde mora atualmente?
No momento, moro na Tailândia.

Como foi parar na Tailândia?
Depois de morar e estudar nos Estados Unidos, trabalhando para a Igreja Adventista do Sétimo Dia, fui designado para trabalhar na China e lá fiquei por cinco anos. Meus filhos nasceram na China (ambos falam inglês e português, sendo que o Benjamin entende mandarim e fala um pouco), mas com a pandemia do Covid-19 fui transferido para a Tailândia e aqui sigo trabalhando.

Como é a sua vida aí?
Aqui a vida é tranquila e muito boa. O país é bastante seguro, há ótimas perspectivas de vida e de trabalho. Além de ótimos destinos para visitar, também.

Quais as dificuldades que encontrou?
Inicialmente, o idioma e a cultura de forma geral, são bem diferentes. Estudamos e ainda continuamos estudando o tailandês, o que tem facilitado bastante. Na China, estudamos mandarim em uma universidade local nos primeiros anos de trabalho. Falo, entendo, leio e escrevo em mandarim, o que torna a vida bem tranquila. Em relação a cultura, a Tailândia é o quarto país onde moro, o que facilita neste processo de se adaptar a um novo contexto, nova forma de pensar e organizações diferentes de toda a sociedade.

Como é o seu trabalho?
Trabalho para a Igreja Adventista do Sétimo Dia como coordenador de um departamento chamado Global Mission, com sede administrativa em Hong Kong.

De forma geral, no mundo são mais de 8.500 escolas, 118 universidades, 800 hospitais e clinicas, 23 fábricas de alimentos saudáveis, 16 centros de mídia, incluindo rede de TV e rádio, centenas de projetos humanitários e de desenvolvimento, mais de 30 mil igrejas adventistas e aproximadamente 20 milhões de membros em 210 países no mundo.

É uma comunidade global, com uma estrutura altamente desenvolvida e dinâmica que oferece serviços de alta qualidade ao redor do mundo. Em meu trabalho, coordeno projetos que visam expandir os serviços oferecidos entre a comunidade de fala mandarim, que vive em outros países além da China. Temos projetos em mandarim entre a comunidade chinesa de diversos países, atualmente.

Para conhecer um pouco mais acesse: https://www.adventistas.org/pt/ ou https://ntplay.com/

O que sente falta?
Do Brasil, sinto muita falta de açaí, pinhão e do inverno da região sul.

O que falta daí, no Brasil?
Puxa, faltam algumas coisas sérias, como a eficiência, a segurança, a responsabilidade individual, o trabalho árduo e diligência. Não é à toa que vários países asiáticos são chamados de “Tigres Asiáticos”, pois estão crescendo e se desenvolvendo tão rápido. Diversos países asiáticos tem uma cultura pragmática, focada em planejamento de longo prazo, trabalho árduo e resultados. Na minha opinião, isso falta muito no Brasil, onde a cultura, de forma geral, enfatiza o “jeitinho”, a vida mansa, entre outros. Naturalmente que há muitos brasileiros extremamente dedicados e que suam a camisa para ganhar o pão de cada dia, mas o que me refiro é a cultura de forma ampla. Neste aspecto, a brasileira é bem mais acomodada.

Como o Brasil é visto aí?
Em relação a Tailândia, por um lado como um país com semelhanças: tropical, pessoas que gostam de festas, praias, calor, música. Por outro lado, como um lugar em que há muita violência, crime e corrupção.

Em relação à China, é visto como um fornecedor de carne, soja e milho, além de ser também um lugar de gangues, drogas e o samba. O filme “Cidade de Deus”, e os escândalos políticos, crise econômica e tráfico contribuíram para gerar esse pensamento.

Fale um pouco dos costumes que gosta e não gosta aí?
De forma geral em relação a Ásia, a questão de responsabilidade e diligência, a eficiência com que algumas coisas são feitas, como assuntos de bancos, e tecnologia são aspectos muito bons, os quais eu aprecio bastante.

Em relação a Tailândia, algo que não aprecio é a tradição popular de que tudo que é ruim ou de mau que acontece na vida de alguém vem da noção do “karma”, logo não se deve interferir no sofrimento alheio, o que torna a sociedade insensível. É um aspecto filosófico, mas que impacta o dia a dia das pessoas. Outro aspecto que não gosto muito, mas já estou acostumado, é o fato de que os asiáticos – de forma geral – são indiretos na comunicação, ou seja, falam quase sempre nas entrelinhas. Falar de forma direta e clara pode ser considerada rude, por isso tive que me adaptar. É um processo natural.

Saudades?
Temos oportunidade de todos os anos viajarmos para o Brasil durante as férias. Agora, com a pandemia, pela primeira vez tivemos que ficar aqui por dois anos seguidos. Dá um pouco de saudade, mas o trabalho ajuda a ocupar o tempo e planejar bem quando será o melhor momento para visitarmos o Brasil.

Tem como comparar o Brasil e esse lugar?
Em relação ao clima, grande parte da Tailândia tem apenas duas estações, seca e chuva. Em ambos, é geralmente muito calor e isso é diferente de São Mateus, com o inverno bem distinto e as geadas. A alimentação é bem diferente, várias comidas típicas, picantes, temperos e pratos que só existem aqui. Outra diferença marcante é o fato de se dirigir do lado esquerdo da rodovia. Demora um pouco para acostumar, mas depois se torna natural.

O fato do país ser multicultural (há uma comunidade estrangeira muito grande aqui) é diferente do Brasil, que embora tenha muitas etnias, todos são brasileiros.

Em relação à China e ao Brasil, grandes diferenças. A infraestrutura da China é altamente desenvolvida: trem bala em todo o pais, aeroportos em quase todas as médias e em todas as grandes cidades, e-commerce bom, barato e rápido, eficiência e rapidez em assuntos de banco, governo, etc. Na questão financeira, o país está sem dúvida na liderança: com um smartphone se faz tudo: compra, venda, transferência, viagens nacionais e internacionais, assuntos de governo, praticamente tudo de forma rápida e prática.

Quanto aos aspectos ruins, um deles é a falta de higiene em muitos lugares, além da internet restrita quanto ao acesso a sites e matérias ocidentais.

Na China o conceito de público-privado também é diferente, falar sobre seu salário, quanto se ganha e gasta é muito comum, enquanto que no Brasil esse assunto é privado. Nós brasileiros falamos e expressamos sentimentos, ao passo que muitos asiáticos e chineses são totalmente reservados, não expressam sentimentos e acham embaraçoso demonstrar isso em público. Quando se convida um amigo em casa, a pessoa geralmente entra e vai direto nos quartos, anda pela casa e começa a perguntar: “a casa é sua ou alugada?”, “Quando comprou?”, “Quanto pagou? ”, “Quantos m²? ” Coisas assim. No Brasil, seria ofensivo chegar na casa de alguém e já ir perguntando estas coisas, a menos que seja uma pessoa muito próxima. Esses são alguns dos contrastes marcantes.

Mais alguma coisa a falar sobre essa experiência de morar e trabalhar em outro país?
Para eu e minha família, tem sido uma experiência muito positiva, tanto pelo que se aprende quanto pelas oportunidades profissionais e para a vida. É realmente uma grande lição para a vida.

Com a integração cada vez maior entre os países, em razão da globalização, é natural que as novas gerações tenham em mente que falar inglês, morar em outro país ou mesmo trabalhar com pessoas de outros países de forma remota, seja um processo cada vez mais comum. Isso facilita muito.

Curiosidades

Tailândia é um país do Sudeste Asiático conhecido pelas praias tropicais, palácios reais suntuosos, ruínas antigas e templos ornamentados com figuras de Buda. Bangcoc, a capital, tem uma paisagem urbana ultramoderna que contrasta com comunidades tranquilas à beira de canais e com os emblemáticos templos de Wat Arun e Wat Pho, além do Templo do Buda de Esmeralda (Wat Phra Kaew).

Moeda: baht tailandês.
Rei: Maha Vajiralongkorn.
População: 79.031.345 habitantes em 2020.

Hugo Lopes Júnior
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