Potro em estado de choque sendo transportado. (Fotos: Divulgação)

Na última semana, um caso que repercutiu nas redes sociais, nos recorda que, infelizmente, ainda existem casos de maus tratos e abandono de animais em nossa cidade.

Luana Skiba, uma jovem são-mateuense que desde nova está envolvida na causa animal, nos conta que recebeu um pedido de ajuda um tanto quanto inusitado nesta última semana. Um número desconhecido lhe mandou mensagem na sexta-feira (16) pedindo auxílio no caso de um potro, supostamente abandonado. Por falta de transporte, visto que o animal se encontrava na localidade do Lageado – interior do município – Luana optou por aguardar até o final do seu expediente para resolver o que seria feito. Até este momento, acreditava-se que o animal estava saudável, tendo apenas um ferimento em sua pata.

A partir das 8h, ela conta que recebeu ligações de outro número desconhecido – desta vez um homem – que exigiu uma ação a respeito do potro, afrontando e insultando a jovem. Após ela explicar que estava em horário de trabalho e que não havia conseguido transporte, o homem afirmou que o animal corria perigo de ser atropelado e que sua pata estava quebrada. Mesmo com os pedidos de Luana, ele disse que não ajudaria dando água ou comida até que ela chegasse no local.

Durante a manhã toda, ela recebeu diversas fotos e ligações referentes ao potro que estava sem sombra, água ou comida. Destas ligações, ninguém ofertou ajuda, apenas pediram para que Luana buscasse o animal.

“Nesse momento, eu percebi que era um grande problema e que ninguém iria se esforçar para ajudar”, afirma a jovem. Não conseguindo assistência de moradores do local, ela passou a pedir auxílio de amigos e conhecidos. Chegou a tentar contato com os bombeiros, que infelizmente não conseguiram disponibilizar um veículo de emergência para o caso. Sua última tentativa foi pedir socorro para a prefeitura.

Em contato com Fernanda Sardanha – prefeita da cidade – foi encaminhado o caso para os setores de Vigilância Sanitária e Meio Ambiente. A partir disso, Tiago Kruchelski Huk, secretário de Meio Ambiente, se comunicou com os veterinários Rachel Azambuja Langaro e João Ignacio Imianovski.

Ao chegar no local, encontraram um animal em estado de choque e completamente deplorável. “Ele tinha sinais de pancadas na cabeça e pelo corpo, além de cortes profundos na orelha e na coxa, os quais pareciam ter sidos feitos com um facão. Também uma fratura exposta na pata dianteira. Não encontramos nada que evidenciasse um atropelamento, apenas ferimentos antigos e com cicatrizes”, conta Luana Skiba.

Equipe chega para atender o animal que estava em situação deplorável.

Sobre a proveniência do animal, houveram diversas versões contadas pelos moradores da região, uma diferente da outra, não sendo capaz de identificar o suposto dono ou o paradeiro da mãe do potro – que, pela idade, ainda mamava. As histórias contadas possuíam variantes, como: o animal foi abandonado por um caminhão boiadeiro; apareceu subitamente; foi atropelado na BR durante a madrugada; houve uma briga de vizinhos que resultou no abandono do animal. A última versão conta que o dono não quis o potro porque foi comprado de alguém que tinha rivalidade com a família.

Sem saber sobre a existência ou paradeiro do dono, o animal foi transportado até a região da Água Branca, com auxílio de uma carreta simples emprestada pela prefeitura, onde o animal foi deitado, já que não podia se manter em pé devido a fratura.

Em busca de uma terceira opinião profissional, contataram o veterinário particular Vinícius Justi. Junto de Raquel Langaro e João Imianovski, avaliou-se o estado do animal, assim como as perspectivas de melhora em um possível tratamento.

As articulações de equinos são completamente estruturadas aos 3 anos de idade, sendo que neste caso se tratava de um animal com menos de 5 meses. Não estando totalmente formado e com um peso, em geral, superior aos seus membros, a possibilidade de uma melhora era baixa. Além disso, São Mateus do Sul não possui um centro cirúrgico veterinário de grande porte e ele somente poderia ser atendido em Curitiba, sendo uma viagem longa e estressante. Também seria necessário o uso de uma prótese que deveria ser trocada conforme crescimento do animal. Tudo isso sem ter a certeza de que ele teria uma boa qualidade de vida sem dor.

Analisando os prós e contras, a decisão final foi de Luana Skiba que optou pela eutanásia do animal, a qual foi realizada por profissionais de forma ética e segura.

O Brasil e sua relação com o abandono de animais:

Com base em dados oficiais do IBGE, é possível afirmar que o Brasil é o segundo país em quantidade de animais de estimação. Entretanto, a OMS (Organização Mundial de Saúde) aponta que mais de 30 milhões de cães e gatos estão em situação de abandono em nosso país.

O abandono está configurado como crime de maus-tratos, segundo a Lei nº 9.605 de 1998. Além do citado, praticar ato de abuso, ferir ou mutilar animais domésticos, domesticados, nativos ou exóticos. A pena para esses casos é a detenção de 3 meses a 1 ano junto de uma multa. A Lei Federal nº 14.064 de 2020 aumentou a pena ao se tratar de cão ou gato, sendo agora a reclusão de 2 a 5 anos junto de uma multa e a proibição da guarda. Vale ressaltar que a penalidade é aumentada de um sexto a um terço quando ocorre a morte do animal.

Abandono é considerado crime de maus-tratos.

A fiscalização do crime de maus-tratos pode ser feita por qualquer cidadão. Ao ver um caso, deve-se realizar a denúncia. Recomenda-se que sejam reunidas todas as provas existentes, como fotos, vídeos e áudios. Tendo esse material em mãos, ir até a delegacia mais próxima para registrar um boletim de ocorrência, o qual pode ser feito de forma anônima.

Além da denúncia, o animal deve ser recolhido em um local seguro, sendo resgatado quando possível. Luana nos conta que a primeira atitude, ao ver um animal precisando de ajuda, é averiguar se há algum ferimento e qual a gravidade da situação. É necessário também levar até o médico veterinário para confirmar o estado de saúde. “Tem que pensar primeiro na saúde dele”, complementa a jovem.

O Brasil possui alto índice de abandonos. (Imagens Ilustrativas)

Ela também fala sobre fazer cadastros nas clínicas da cidade para conseguir parcelar os valores gastos com o resgatado. Não podendo arcar com os custos, pode-se ressarcir a quantia através de campanhas nas redes sociais e rifas. Neste processo, é necessário ter força de vontade para ajudar.

Como presidente da ONG 4 Patas, Luana conta que, no caso de cães, pode-se pedir o auxílio da organização, que irá custear a esterilização do animal. “Não temos abrigo para receber ele, mas iremos ajudar com a castração e na divulgação para doação, após ele estar saudável e apto para encontrar uma família”, conclui Luana Skiba.

FALA DE LUANA SKIBA

Sou voluntária da ONG 4 patas há 6 anos e, em 2020, fui eleita Presidente da Associação. Mediante aos fatos aqui apresentados, quero colocar que a ONG não faz resgates e esses casos de maus tratos não dizem respeito a Associação.

O único trabalho que a organização desenvolve é a castração de cães de rua e semidomiciliados, encaminhando para doação. Além disso, fazemos palestras para diversas faixas etárias em escolas, empresas, eventos, etc.
Dessa forma, diante de casos de maus tratos, nossa orientação é sempre a mesma: a pessoa que presenciou deve registrar boletim de ocorrência e assumir a responsabilidade. A ONG somente faz a orientação, caso quem presenciou não saiba o que fazer.

Esse caso do potro, como de tantos outros animais, é atendido por voluntários com o próprio dinheiro e tempo. A ONG 4 Patas não dá nenhum suporte financeiro para isso, somente participa da divulgação pra auxiliar o caso.

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