Prismas

Descrevendo

(Imagem Ilustrativa)

Voltei no tempo e me vi sentado na carteira escolar, numa aula de português, na minha quinta série. A professora, Dona Angelina, fixou no quadro uma fotografia de um jardim, num parque, com uma cidade ao fundo e nos pediu que descrevêssemos a cena. Esta foi uma das minhas primeiras inspirações para as minhas tentativas de escrita.

É impossível narrar sem descrever. A descrição nos textos literários, por exemplo, foi se modificando ao longo dos tempos. Vejamos os clássicos, textos extensos e muito descritivos. Eram adequados para a época em que foram escritos, pois os leitores não tinham acesso a tantas imagens e informações sobre o que se descrevia. Também, no auge do romance, muitos escritores eram remunerados pelo número de páginas que escreviam e exagerar nas descrições ajudava, muitas vezes a “encher linguiça”.

Hoje em dia, caso você desconheça um objeto ou um ser, você digita a palavra num site de busca e você obtém tudo o que precisa saber sobre ele. O leitor da era do cinema, da televisão e da Internet não tem paciência com a descrição, ele quer ação, concisão, potência. Parecem não dispor de tempo ou de paciência para os detalhes. Assim, textos extensos ou muito descritivos são deixados de lado.

Descrever é um processo no qual o escritor deve empregar todos os sentidos para captar uma realidade e transportá-la para o texto. Da mesma forma, deve permitir que o leitor exercite os próprios sentidos para interpretá-lo, complementá-lo. É muito comum a descrição representar apenas aquilo que o personagem está vendo, quando seria muito mais envolvente mostrar para o leitor também as impressões do cheiro, do gosto, do tato, da audição. Isso vale não apenas para descrições, mas também para a criação de cenas.

Um bom conselho para redatores é que descrevam o essencial, pois temos que deixar espaço para a imaginação do leitor, para que ele se ambiente e mergulhe na história, se envolva com o texto.

Marcelo Spalding em uma de suas dicas numa Oficina de Criação literária dizia que, “não é preciso que o narrador descreva toda uma igreja, mas pode ser interessante dizer que o sol cruzava os largos vitrais de forma a iluminar um imenso crucifixo sobre o altar”. Ou seja, a descrição concentrou-se naquilo que é distinto, que chamou a atenção do narrador ou da personagem. O restante do ambiente, o leitor é capaz de imaginar, com base na sua própria experiência, ou conhecimento.

Também é importante ter em mente que a descrição não é uma parte isolada do texto. Ela pode, inclusive, ajudar a fazer progredir a cena, ou alimentar o suspense em um determinado momento.

Por falar em cenas, vamos abordar a sua construção numa próxima coluna. A estrutura dos parágrafos é de extrema importância para uma boa ambientação e progressão textual.

Adnelson Borges de Campos
Últimos posts por Adnelson Borges de Campos (exibir todos)

Comentários

Compartilhe:


MATÉRIAS RELACIONADAS
“Em Educação, não avançar já é retroceder”
Vida em sociedades
Só uma caixa d’agua