(Imagem Ilustrativa)

Entre o final de 1975 e meados de 1976 a Rede Globo apresentou sua primeira novela em cores. Naquela época, as novelas marcavam mais as vidas das pessoas, já que não tínhamos muitas opções para divertimento nas noites frias de inverno, numa cidade interiorana. Eu ainda não tinha completado treze anos e já trabalhava, buscando algum dinheiro para o sustento da família. Quem não sonha com um bocado de dinheiro! O dinheiro transforma a vida das pessoas, para o bem ou para o mal. É difícil lidar com ele, com a sua falta ou com o seu excesso.

A música tema, de Paulinho da Viola, que tinha como título o mesmo da novela de Janete Clair, Pecado Capital, me impressionava e me fazia pensar em como o dinheiro impactaria a minha vida, a vida das pessoas que me cercavam, pois eu já sabia o quanto era difícil juntar algum.

Duas cenas da novela me marcaram muito. A primeira foi quando Carlão, a personagem vivida por Francisco Cuoco, encontrou em seu táxi, um belo Fusca, uma mala com oitocentos mil cruzeiros, em notas de cem, as vermelhinhas que estampavam a imagem do Marechal Floriano Peixoto. Na época uma pequena fortuna. Imaginar o que se poderia fazer com aquele montante excitava a imaginação de qualquer um. “Dinheiro na mão é vendaval, é vendaval, na vida de um sonhador”, como dizia a canção.

Descobri mais tarde, que a novela foi diferente, por apresentar o anti-herói, Carlão, e não um galã, como era comum até então. Dividido entre devolver o dinheiro à polícia ou usá-lo para resolver seus problemas pessoais. Ele fez a opção mais fácil, tentando comprar sucesso, amor e felicidade.

Lembro-me de minha mãe, minhas tias e as vizinhas discordando quanto ao rumo que a história deveria tomar. Cada uma com sua opção.

Talvez a novela devesse ter sido chamada Pecados Capitais, pois cada um dos pecados, que bem representam a natureza humana, tem origem ou são acentuados pelo dinheiro, pelo excesso ou pela falta dele.

Afinal, “Dinheiro na mão é solução e solidão”, pois quem o tem, nem sempre divide e se não divide, tende a viver só, pois “viver não é brincadeira não, quando o jeito é se virar, cada um trata de si, irmão desconhece irmão”. Vejam quantas e quantas famílias se dividem, quantas empresas familiares se dissolvem justamente na hora de dividir o dinheiro, quando os patriarcas se vão, por exemplo, ou na hora de dividir despesas com tratamento médico ou assistência de um doente na família.

Na segunda cena da novela, na Estação Carioca do Metrô, em construção, Carlão, arrependido de ter ficado com o dinheiro, tenta devolve-lo. É atingido por tiros e morre abraçado a mala do dinheiro. Depois de morto, sua vela se extingue e num breve período, é esquecido também rapidamente, como no conto de Dalton Trevisan. Sua amada se casa com o seu maior rival e o planeta continua a girar.

Ele foi apenas mais um que passou por aqui e se foi sem levar um único centavo. Penso que dinheiro é importante, pois há necessidades básicas que precisam ser supridas. Precisamos de segurança e algum conforto para nossas famílias. Entretanto, possuí-lo não pode ser o único objetivo de nossas vidas. O desafio é este: sobreviver aos vendavais, sem sucumbir às tentações dos pecados capitais.

Adnelson Borges de Campos
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