Mentes Inquietas

Do isolamento aos discursos

Ao falar em Nietzsche, devemos levar em conta alguns pressupostos básicos para que não o interpretemos de forma desvirtuada. Ele não foi o modelo de autor que preocupava-se em demonstrar em suas obras qualquer tipo de verdade universalmente aceita. Isto é, não há em seus livros qualquer proposição que refira a si mesmo como portador de uma verdade que seja válida em todas as ocasiões ou, como percebemos em Kant, de um modo de agir que possa ser universalizado. Falar em Zaratustra é se colocar na inquietante condição de pensar o que somos e como somos. Na condição de seres em trânsito ao discorrer sobre a máxima potência de elevação da condição humana – ao além do que somos.

Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900) escreveu sua obra-prima, Assim Falou Zaratustra (1891), na qual narra – como de costume – diversas temáticas em um tom ácido e sarcástico. Percebe-se, porém, que o principal apontamento do texto se dá no sentido da morte de Deus. A asserção não se refere a um indivíduo Deus, mas a um objeto de culto e linha de pensamento que deveria se dissolver para dar espaço à força criativa máxima do homem como meio para ser quem é. Zaratustra, aos trinta anos, refugia-se nas montanhas para buscar sua auto-elevação, isto é, viver da forma como bem entende. Percebe-se a analogia com o sacerdócio de Jesus na literatura bíblica. Após dez anos de reclusão, decide descer aos vilarejos para informar aos homens sobre a realidade que vem. Nesta, os homens elevados, profundos, dariam lugar ao Übermensch, o Super-Homem. Zaratustra desce a montanha com o intuito de “presentear” a humanidade com tal nova que lhe ocorreu, mesmo correndo o risco de esvaziar-se e voltar a ser um simplório homem.

Ao falar ao povo, fazem-lhe troça, pois querem divertimento. Apresentou-lhes a conceituação do elevado, aquele que ama quem “vive para conhecer e quer conhecer para que um dia viva o Super-Homem” e, do mesmo modo, falou sobre aquilo que deve ser superado: a vida fútil e nefasta daqueles que aceitam os costumes pela fraqueza de seu espírito e não pela validade do proposto. Para a surpresa de Zaratustra, foi pelo último que o povo deliberou. Os discursos de Zaratustra são repletos de signos aos quais se deve dispor relevante atenção. Após certo tempo passado na cidade chamada “Vaca Colorida” – uma amostra do senso de humor ácido presente nas obras deste autor –, passa a ter seguidores que visam acompanhá-lo para aprender o Übermensch. Mas, no entanto, não são aceitos. Como justificativa, afirma que deve caminhar sozinho, e assim deve fazer aquele que pretende atingir seu mais alto grau de elevação: cada qual deve procurar por si seu próprio Eu para o fim daquilo que foi até então. Zaratustra quer desvencilhar os homens do rebanho, fazê-los sair da condição de servos e que procurem por seus próprios meios a tornar-se quem são.

As falas iniciais de Zaratustra procuram ir de encontro justamente do sistema social vigente há séculos: a vida que, para Nietzsche, é de fracos e temerosos. Uma conformação de mundo que teme conhecer e dobra os joelhos porque disseram ser importante dobrar. O meio é composto por maioria de fracos, os quais necessitam aglomerar-se para formar grupos e com isto falsamente dizerem ser fortes unidos. O discurso é destinado aos que cultuam e sentem a necessidade de ter sobre si um governo da maioria, seguir regras, ao invés de governarem a si próprios; aos que “necessitam” de seus ídolos para dar sentido a uma existência baixa.

Muitos julgam o livro do qual falamos como aquele em que Nietzsche foi mais longe em suas reflexões e, por conta disto, fala-se que é sua obra mais complexa. Neste ponto, precisamos ter em mente que em qualquer obra de Nietzsche nunca poderemos tratar de apenas um ou outro ponto do discurso sem entrar em contado com as obras organizadas ao acaso, haja visto que os temas (moral, estética etc.) estão todos interligados em aforismos. O que nos leva, certamente, a necessidade de compreender todo o raciocínio do filósofo antes de aferir sobre qualquer uma que seja de suas assertivas.

É também pertinente ressaltar que a forma como Nietzsche sistematiza suas ideias no texto é aforística, e mais, são aforismos sem sequência garantida com relação ao tema. Isso ocorre porque o autor compreende que o pensamento (ideia) não pertence à consciência. Portanto, a ideia deriva de “algo que pensa em mim” (Es denkt in mir). Nesta linha, tudo aquilo que passa por nossa consciência no uso da razão é ínfimo, desprezível, pois o que realmente vale, o que provém sem a deliberação racional, nem sequer passa pelas mentes preocupadas dos homens.

O primeiro título da obra que aqui estamos a comentar funciona como uma contextualização do leitor ao personagem, mas não deixa de apontar objetivamente para o cerne da filosofia de Nietzsche, que é a supressão das morais para dar lugar ao processo ativo que o indivíduo atinge apenas por sua própria conta, em um processo de “desprendimento” com relação aos objetos e formas de agir categorizadas, que representam uma baixeza quase simiesca do ser humano. Tal baixeza deve ser superada, o homem deve ser superado. E justamente o tão falado super-homem é aquele que leva a vida segundo sua própria vontade.

Artigo escrito por Alexandre Stori Douvan, acadêmico de Jornalismo da UEPG.

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