Marly foi até Brumadinho com os Bombeiros de Curitiba acompanhados de seus cães farejadores.
(Fotos: Arquivo pessoal Marly Perrelli)

Marly Perrelli é doutora em psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina e uma das fundadoras da Rede de Apoio Psicossocial (RAP). Organismo especializado em prestar apoio psicossocial em emergências e desastres. Esteve num grupo de ajuda humanitária na África e missão no Haiti, após catástrofe que devastou o país. Também ajudou familiares no acidente com a equipe de futebol da Chapecoense.

Outra situação de crise psicológica que a profissional atuou foi no rompimento da barragem de Brumadinho. “Em emergência e desastres sabemos que tem o começo, meio e fim”, citou Marly. Para tanto, afirmando a necessidade da mudança no estilo de vida quando de momentos delicado, como é o caso da pandemia da Covid-19. Neste período são inúmeras lives e trabalho contínuo.

Nesta semana ela palestrou, de forma on-line, no III Dedica Estadual para educadores do Núcleo Regional de Educação (NRE) de União da Vitória. O tema foi ‘Aspectos Psicológicos na Pandemia’ e, nesse sentido, a psicóloga apontou as perspectivas sociais, a crise e a postura de enfrentamento em diversas esferas da vida social. Sobretudo no ambiente escolar.

Em transmissões pela internet, a psicóloga auxilia no alívio de transtornos relacionados à pandemia.
(Foto: Reprodução live do III Dedica estadual)

A Emergência em Saúde Pública, segundo ela, se configura no decreto oficial do Governo Federal. Desde então, o Brasil entrou neste contexto de prioridades e ações relacionadas ao combate frente ao vírus. “O distanciamento social foi uma das medidas iniciais, recomendação das autoridades”, lembra. Esta necessidade de estabelecer um afastamento das pessoas passou a ser algo que a sociedade precisou assimilar.

A partir de agora, segundo ela, é necessário pensar o pós-pandemia, o que vai ser daqui para frente é o desafio. A mudança abrupta de cenário, tanto no pessoal quanto no trabalho (teletrabalho) e no social (distância). Isso tem gerado altos índices de estresse. “Quem está em linha de frente está sofrendo muito”, disse se referindo aos profissionais de saúde que seguem em suas rotinas diárias.

Educação e fases da pandemia

Os professores sofrem muito, frisou Marly Perrelli. “Sem muita metodologia existente e na ausência até de recursos”, disse. A falta de equipamentos e recursos é outro problema relacionado. Mesmo assim, os educadores encontraram maneira de manter o ensino, mesmo de forma não presencial, funcionando. Somados do fato de que as pessoas estão mais estressadas pelo distanciamento e teletrabalho.

A Covid-19 teve uma 1ª fase, segundo a psicóloga, de medo e pânico, pelo risco de ser contaminado. “Medo é o alerta e o pânico é a paralisação”, frisou. Até por conta do estilo de vida que precisou mudar. Esse distanciamento impactou o afeto e fez com que as pessoas se sentissem sozinhas. “Deixar de abraçar, de tocar”, exemplificou a palestrante. Fato que a psicologia está notando e buscando caminhos de superação.

A 2ª fase, mudança de rotina, “não sabemos a data do término”, observa Marly. A vacina seria a certeza disso, mas ainda sem uma definição precisa. Disso o tédio e raiva por perda de liberdade, fase de não pertencer ao mundo. “Isso desequilibra”. Especialmente acomete muitos jovens, causando um desequilíbrio emocional pela impossibilidade de sair, passear ou curtir uma festa com os amigos.

A ansiedade e o medo são duas funções importantes, mas por conta de apontar o perigo. E a ânsia para criar ou fazer algo, sem ultrapassar os níveis de controle interno para evitar de gerar desequilíbrio. “O autocontrole é muito importante”, opina a psicóloga. A meditação e exercícios físicos são indicações importantes. Sobretudo para aliviar este contexto e cenário da vida em isolamento, durante a pandemia.

Uma 3ª fase tem a ver com a perda econômica e afetiva – desemprego ou não conseguir mais pagar as contas. A maior perda humana, sem poder participar dos ‘rituais de despedidas’ é algo muito traumático. “Luto complicado”, citou Marly ao mencionar o processo traumático que impede o adeus. “O velório tem esta função de despedida do ente querido e acolhimento dos amigos e parentes. E isso não se faz mais”.

Oferecer ajuda

Dar o apoio psicossocial é fundamental, uma cartinha, um recado. “Oferecer ajuda, perguntar como você está”, são dicas da psicóloga. Esvaziar a angústia é algo que pode aliviar transtornos futuros, segundo ela. “Não esquecer que somos humanos e precisamos da relação humana. Buscar ser feliz em todo momento”. Os transtornos depressivos aumentaram, conforme a psicóloga. Disso a atenção, virtual, é importante.

A resiliência humana, habilidade de manter equilíbrio e tranquilidade, não é algo tão comum, mas necessário para encarar a instabilidade emocional neste momento de crise. Tentar encontrar uma forma de superar com algo que já fez anteriormente e teve sucesso, é um dos caminhos orientados por Marly Perrelli. O desafio é manter-se bem diante de tanta mudança na vida social e na postura frente ao cenário atual.

A psicóloga lembrou, ainda, que o excesso de informações sobre o Covid-19 pode ser um agravante. Estar informado, mas sem exagero é o que ela orientou. A profissional compartilhou suas experiências em trabalhos humanitários na África e Haiti. Também no acidente do time da Chapecoense e em Brumadinho. Situação em que ela atuou, mas acabou colhendo experiências de vida.

Voluntário e tranquilo

Marly Perrelli defende que quando se predispõe em ajudar no voluntariado, se receber muito. Isso é, também, ato de superação. Até porque, numa situação de trauma, a reação de cada um é diferente. A compaixão, que é a capacidade de entender a dor do outro, é elemento que faz gerar gentileza, oferecendo aparato de auxílio para aqueles que necessitam da ajuda, em situações de crise.

Solidariedade é outra emoção protetora. O sentimento para com o outro, num ato de reconhecimento humano. Importante estar sustentado na gratidão, compreensão do que fazemos, tratando o apoio como algo essencial. Para um equilíbrio emocional, segundo a psicóloga, a resiliência é um antídoto antiestresse. O sofrimento agudo é, de certa forma, natural num momento de crise.

Foto com o chefe de Bombeiros, em Brumadinho.

Por outro lado é problemático não ter sentimento qualquer. Na superação é fundamental deter recursos individuais e capacidade de se adaptar ao contexto. Na situação atual de pandemia, pela incerteza de até quando pode perdurar, há necessidade de adaptação. Essa postura serve para equilibrar os contextos emocionais e ajudar na superação dos tempos difíceis de isolamento e distanciamento social.

Até porque, segundo a psicóloga, a vulnerabilidade é contextualizada pela resposta inadequada que traz consequências negativas. A pandemia exige uma adaptação em movimento, segundo a psicóloga, diante ‘das coisas que vão acontecendo’. “Temos uma ideia, sem saber quando as coisas de fatos estarão estáveis. Não como prever até quando se estende”, observa e relação à Covid-19.

Controle emocional

“Tolerância e novo jeito, nova maneira de agir. Predisposição de reagir. Quanto mais vulnerável mais se potencializa os efeitos do estresse”, ressalta Marly Perrelli. Tendo na resiliência, a combinação de fatores para superar, administrar as emoções em relação ao evento traumático. “Quando está desesperado precisa de alguém para acompanhar. Percepção de que precisa do outro, compaixão, solidariedade”, explica.

Para a profissional é necessário ao ser humano, para estar bem psicologicamente, controle e regulação, auto-regulação emocional, a estabilidade. Junto disso, a empatia de compreender o outro e dar o suporte, compreendendo e se colocando no lugar das pessoas para ter a noção mais precisa de como contribuir. Somente com este entendimento que é possível oferta a ajuda adequada.

Dois outros pontos de tranquilidade emocional são importante, segundo o entendimento da psicóloga. Controle de fluxo de informações, sem exageros, mas estar adequadamente informado e sem exageros. Outra situação é o apoio psicossocial para reduzir os danos. “Aliviar o sofrimento da exposição ao evento traumático. Para dai retomar à normalidade. Cuidado, proteção e amor”, acrescenta.

A pandemia acometeu a sociedade como um todo, de acordo com a psicóloga. “Neste momento pandêmico, devemos considerar nossos sentimentos protetores compaixão, que são momentos de gentileza, demonstrar humano que temos para o outro humano. Portanto, a solidariedade alimenta nossa alma e nossas ações. Cuide do que é melhor em você”, orienta Marly Perrelli.

Sidnei Muran

Sidnei Muran

Jornalista (MTB 7597 DRT/PR), formado pelo Centro Universitário de União da Vitória (Uniuv), pós-graduado em História e Cultura pela Unespar – campus de União da Vitória e Licenciado em História pela Unespar – campus de União da Vitória.
Sidnei Muran

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