Essa semana, no dia 30 de agosto, fazem exatamente 53 anos que ficamos sem “Dona Estefânia”. Estefânia Hetka Janowski foi parteira em São Mateus do Sul. Ela nasceu em 19 de junho de 1898 na Colônia Taquaral e faleceu em 30 de agosto de 1966, era descendente de poloneses que emigraram para o Brasil e chegaram em nosso município no final do século XIX. A partir do nascimento de sua filha Marta, dedicou-se a auxiliar as mulheres na hora do parto. Tornou-se parteira e exerceu essa atividade até o fim de sua vida.

Até o início do século XX, o parto era realizado na residência da parturiente, a partir dos anos de 1930 é que os hospitais passam a ser recomendados como os lugares mais apropriados, ideais e seguros para as mulheres darem a luz (MOTT, 2002). Apenas em casos complicados, quando a parteira não conseguia resolver o problema é que se chamava o médico. Para Witter, (2005), as parteiras, ao menos no Brasil, ocuparam um lugar nas artes de curar que se manteve por mais tempo fechado aos homens e, consequentemente, aos doutores. Foram diversos fatores que contribuíram com essa situação. O trato do corpo feminino era algo revestido de muitos pudores por parte da sociedade e das próprias mulheres ,mas também de uma boa dose de desconhecimento. “A valorização da experiência como fonte de saber, própria das sociedades anteriores ao século XX, acabava por facultar às mulheres, mesmo as de origem mais humilde, uma superioridade no trato das mazelas femininas, que muito dificilmente foi possível aos médicos superar”, (WITTER, 2005, p.21)

Partejar era “coisa” de mulheres… Encontro de mulheres e essa mentalidade permaneceu por muito tempo. Algumas parteiras atuavam ainda como “ginecologistas”, por conhecerem as doenças de mulher, e como “pediatras”, pela sua proximidade com mães e filhos. A prática na forma de dar à luz e de nascer, bem como quem atende ao parto é tão importante, que passa a fazer parte da memória sociocultural de uma família e de uma sociedade. A fotografia dessa semana mostra uma dessas famílias; a família de Dona Estefânia, da própria parteira. Estefânia era casada com Ladislau Janowski . Na fotografia ela (ainda jovem), aparece com o esposo e dois filhos pequenos. Seu esposo, nasceu em 25 de julho de 1893 e faleceu em 23 de setembro de 1980. Ladislau foi marceneiro, trabalhou ainda na construção de barcos que navegaram pelo Rio Iguaçu (vapores). Estefânia, na época dessa foto ainda não era parteira. Ela veste saia e blusa e ele terno completo. Estão sentados em um ambiente interno, estúdio fotográfico. Sobre a data da fotografia, não temos essa informação e nem sobre quem era o fotógrafo. Jadwiga que está no colo de Estefânia nasceu em 1922. Essa foto pode ser de 1922 ou 1923.

A história desse casal é linda! Dois momentos marcantes na vida das pessoas: nascimento e morte faziam parte do dia a dia da família Janowski. Ela era parteira e trazia para a vida e ele que trabalhava com a madeira, fazia caixões para sepultar os mortos, e era quem, depois, conduzia os enterros (Ladislau sempre ia na frente) com uma cruz de madeira. Tiveram 4 filhos: Miceslau, Jadwiga, Romualdo e Marta. O casal está sério e dos 4 retratados apenas o menino olha diretamente para o fotógrafo na inocência e naturalidade de não saber que essa imagem iria atravessar o século XX, completando quase 100 anos, sendo vista por tantos olhares.

Referências

MOTT, Maria lúcia. Assistência ao parto: do domicílio ao hospital: 1830-1960. Projeto História. São Paulo, 2002.
Witter, Acosta Nikelen. Curar como arte de ofício: contribuições para um debate historiográfico sobre saúde, doença e cura. 2005.
Arquivo Histórico Casa da Memória Padre Bauer.

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