Marcin Raiman e o livro dos 100 anos de São Mateus do Sul. (Fotos: Acervo Pessoal)

O estudante e pesquisador polonês, natural da cidade de Siemianowice Śląskie, um município da Polônia, na voivodia da Silésia, Marcin Raiman de 38 anos, está realizando uma pesquisa de doutorado na Universidade de Cracóvia, sendo o tema a presença da língua polonesa em São Mateus do Sul. Ele é graduado em Letras Português e Letras Polonês e o título do trabalho é “Línguas minoritárias no espaço público brasileiro: chances para a língua polonesa”.

De acordo com Marcin, nessa pesquisa ele procura saber o que os são-mateuenses pensam sobre a presença da língua polonesa no município, se eles aprovam, por exemplo, o ensino da língua nas escolas e a presença do idioma no espaço público. “Considero interessante a opinião de todos os habitantes e não só dos que são descendentes ou dos que falam polonês”, comenta.

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Marcin morou em Curitiba por sete anos. Ele esteve em São Mateus do Sul duas vezes e, nessas visitas, conheceu representantes de entidades polonesas, como a Braspol e o Karolinka. “Quando o Karolinka veio pra Polônia, fui guia deles em Cracóvia”, destaca.

Para a pesquisa, Marcin montou um questionário que pode ser respondido por todos os habitantes do município de São Mateus do Sul, independentemente da origem e conhecimento da língua polonesa. Para responder a pesquisa, basta digitar o seguinte link: https://abre.ai/d4R0 no seu navegador e acessar.

A história do estudante e pesquisador polonês

Em 2012, Marcin conta que se mudou para Curitiba para trabalhar como professor visitante na Universidade Federal do Paraná (UFPR), no único curso de Letras-Polonês da América do Sul. “Naquela época já sabia que no Paraná tinha uma grande comunidade de descendentes de poloneses e que a língua e cultura faziam parte do patrimônio histórico e cultural local, inclusive conheci alguns paranaenses de origem polonesa ainda em Cracóvia, onde estudei na mais antiga universidade polonesa. Os meus estudos facilitaram bastante minha vida no Brasil – eu falava português por ter me formado em Letras-Português e também era professor de polonês como língua estrangeira, pois foi essa a especialização que escolhi fazendo pós-graduação na área de Letras-Polonês”, conta.

Marcin Raiman, no Bosque do Papa João Paulo II, um dos mais importantes parques da cidade de Curitiba, no ano de 2012.

Embarcando no avião em fevereiro de 2012, “eu me sentia bastante preparado para começar meu trabalho em Curitiba e conhecer o Brasil. Mas preciso confessar que o Brasil guardava para mim muitas surpresas que eu não esperava. Dizem que uma das características do curitibano é o fato de ele ser fechado. Talvez, mas mesmo assim eu conheci ali várias pessoas bem simpáticas e abertas e quase sempre fui tratado com muita informalidade, o que facilita bastante para fazer novas amizades. E isso acontecia também na universidade! Na Polônia, o mundo acadêmico é normalmente muito formal, já na UFPR, quando fui apresentado à chefe do Setor de Ciências Humanas, ela me deu 2 beijinhos de boas-vindas! No início, os alunos do Curso de Letras-Polonês me consideravam muito sério, porque eu não sorria muito dando as aulas. Muitos dos meus alunos eram descendentes de poloneses e graças a eles pude conhecer histórias bem interessantes sobre a história das famílias deles e a situação atual da comunidade de descendentes de poloneses no Paraná. O primeiro município do interior paranaense com grande número de descendentes de poloneses que conheci foi Cruz Machado. Fiquei encantado com Santana, uma localidade do interior, onde ainda moram muitas pessoas falando polonês. Vale a pena mencionar aqui que o polonês de lá é obviamente diferente daquele falado na Polônia, ele tem sua própria história, sua própria evolução que se deu dentro de condições bem diferentes das do país natal dos colonos poloneses que mudaram para o Brasil. Eu sempre gostei de línguas e linguística, mas em 2012 ainda não sabia que um dia eu ia fazer pesquisa relacionada à língua polonesa no Brasil”, relata.

Depois do seu primeiro ano em Curitiba, tomou a decisão de renovar o seu contrato e acabou ficando cinco anos dando aula de polonês na UFPR (Universidade Federal do Paraná). Fez mais amizades e visitou muitos lugares não só no Paraná, mas no Brasil inteiro. A primeira pessoa de São Mateus do Sul que Marcin conheceu foi a professora Magdalena Linde Tosetto, que foi até Curitiba para fazer um curso de metodologia para os professores de polonês do Brasil inteiro. “Graças a ela, fui convidado para São Mateus do Sul dar uma palestra sobre a história da língua polonesa em junho de 2015 e logo depois voltei para participar do mês polonês e falar um pouco sobre a cidade onde estudei, Cracóvia. Durante essas duas visitas, tive o grande prazer de conhecer os senhores José Carlos Janowski e Crisanto Cavalcante. Foi José Carlos que me mostrou vários lugares interessantes no centro da cidade e também nas colônias Iguaçu e Água Branca. Depois, conheci também o pessoal do grupo Karolinka que veio várias vezes para Curitiba para se apresentar nos eventos organizados na Sociedade Kościuszko pelo Consulado da Polônia. Fiz amizade com Iris Janowski e o pai dela, seu Irio”.

Marcin ao lado do mosaico (painel de azulejo) representando o Paraná e o Rio Iguaçu, no ano de 2012, na Praça do Rio iguaçu em Curitiba.

No Museu Oscar Niemeyer (MON) em Curitiba, no ano de 2013.

Infelizmente, no final de 2016 Marcin teve que voltar para a Polônia. Mas já no ano seguinte reencontrou seus amigos são-mateuenses: foi guia turístico da família Janowski em Cracóvia. Na época, essa era sua segunda profissão, o que permitiu manter contato com a língua pois mostrou Cracóvia para vários turistas brasileiros. Decidiu também continuar seus estudos e fazer doutorado na universidade de Cracóvia. Escolheu como tema a política linguística no Brasil. “No início, ainda não sabia se focaria num panorama geral ou escolheria um município específico para fazer a minha pesquisa, mas em 2018 soube que existia a possibilidade de eu voltar para lecionar polonês na UFPR a partir de fevereiro de 2019 e, por causa disso, comecei a pensar em São Mateus do Sul como o município mais adequado para minha pesquisa que ia consistir em saber qual é a opinião dos habitantes do município sobre a presença da língua polonesa no espaço público local”.

Marcin expõe que escolheu São Mateus do Sul por vários motivos, o primeiro sendo geográfico: fica perto de Curitiba e o seu plano era viajar com frequência para o município com a finalidade de fazer pesquisa ali mesmo. O segundo era mais pessoal: já tem uma rede de amigos no município e sabia que podia contar com a ajuda deles. O fato de São Mateus ter sido colonizado principalmente pelos poloneses também foi muito importante, pois o polonês é a única língua de imigração que teve uma presença muito forte no município. “Muitas pessoas sabem que no final dos anos 30 do século passado as línguas de imigração foram oficialmente proibidas no Brasil. Quase 90 anos depois desse evento a situação no Brasil é bem diferente – várias línguas indígenas e outras, trazidas por imigrantes, começam a aparecer no espaço público ao lado do português. Muitos municípios criaram leis para valorizar essas línguas que podem coexistir com o português e, por isso, são chamadas de línguas co-oficiais. Mas como sabemos, as leis podem nem sair do papel – por isso decidi criar um questionário, onde procuro saber se os habitantes de São Mateus do Sul querem ver e ouvir a língua polonesa nas escolas, nas repartições públicas, nas placas e letreiros, nos nomes de empresas e qual é a opinião deles sobre o futuro da língua polonesa no município, que aliás foi o primeiro no Brasil a co-oficializar a língua polonesa em novembro do ano passado. Infelizmente, planejei a minha pesquisa para o ano de 2020 e, por causa da pandemia, não pude realizá-la do jeito que tinha pensado. No início de 2021 voltei para a Polônia e depois disso decidi continuar com minha ideia original, mas preparando um questionário on-line”, conclui.

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