Jornal de São Mateus do Sul (PR) e região

Driblando o preconceito e a falta de oportunidade, são-mateuenses apresentam profissionalismo nas quadras

O município possui cerca de 5 times ativos de futebol e futsal feminino. Na imagem o time Futeba. (Foto: Alexandre Müller/Gazeta Informativa)

A sociedade vem a cada dia mais olhando de forma diferente às questões igualitárias entre homens e mulheres. Em diversos setores o paradigma que serve como barreira impeditiva serve também como incentivo às mulheres a lutarem ainda mais pelo que almejam e assim conquistam, passo a passo, mais e mais vitórias em uma luta quase que interminável contra o preconceito.

No mundo esportivo não é diferente, vemos a olho nu uma contradição inexplicável, principalmente na paixão nacional, o futebol. Embora em outros países as mulheres tenham apoio suficiente para a prática e posterior profissionalização no esporte, no Brasil este tabu ainda prevalece. Tradicionalmente o futebol é considerado um esporte unicamente masculino, onde a virilidade e a masculinidade são simbolizadas pela rivalidade, pelo contato físico e pela força. Essa cultura está enraizada na sociedade como um todo, e a quebra desse tabu pode ser uma luta que dure décadas pela frente.

Em São Mateus do Sul e toda a região do Vale do Iguaçu essa realidade está bastante próxima, apesar de nos últimos anos notarmos a presença de mais times participando e incentivando ainda mais garotas que também amam o futebol, seja nas quadras com a prática do futebol de salão (futsal) ou nos gramados (campo e sete), ainda há muito a ser conquistado, principalmente o reconhecimento da comunidade.

A equipe da Gazeta Informativa conheceu e pôde conversar com um grupo de mulheres que se reúne semanalmente para treinar a fim de participar dos campeonatos regionais, mas acima de tudo, segundo elas, para se divertirem. “Gostamos de futebol e temos essa motivação desde pequenas. Quem está aqui é porque gosta de futebol, pois não ganhamos nada para jogar, aliás, pagamos para jogar”, afirma Simone Silveira de 27 anos, uma das principais incentivadoras da equipe Futeba, que ainda comenta que joga bola desde seus 9 anos incentivada pela família, principalmente pelas irmãs que também gostam de futebol e trazem consigo esse amor.

A equipe Futeba é composta por 12 integrantes, número esse que varia de treino a treino e tem como sua atleta mais nova a pequena Camily Vitória Brasil com apenas 13 anos e garante, “minha principal motivação é meu amor pelo futebol, quando fui convidada para participar da equipe não excitei e comecei a treinar. Também sou motivada pelo meu pai que sempre me acompanha nos treinos e jogos”, reforça a pequena, que está sempre sob os olhos atentos do pai, Mauro Brasil. A atleta mais experiente da equipe já soma 41 anos de vida, segundo as atletas.

“Tudo iniciou com o agendamento de um horário no ginásio de esportes da Vila Amaral para que pudéssemos brincar e fazer uma atividade física em outubro de 2015. Em seguida a equipe foi criada para que as meninas interessadas em jogar o campeonato que foi promovido pela Prefeitura Municipal tivessem um time”, explicam as atletas que se emocionam ao relatar como tudo começou, “tudo isso pelo simples fato de gostar do futebol”.

Hoje o grupo participa de campeonatos de futebol de salão e futebol sete. São cerca de 10 campeonatos já disputados e vários amistosos, “nosso primeiro título foi em abril de 2016, quando fomos campeãs do campeonato municipal de Futsal, aquele que nos preparamos montando o time”, conta Simone, “já conquistamos vários troféus e medalhas ao longo dos anos, todos com sua importância singular”.

Segundo as atletas o preconceito por parte dos homens que também jogam existe, apesar de poucas vezes ser expressado, “já ouvimos algumas pessoas falarem que iriam assistir uma comédia, se referindo aos jogos femininos”, contam.

“Nosso grupo é uma família, se alguém precisa de alguma coisa, todas ajudam, nos unimos dentro e fora de quadra e dos campos, e assim como os homens fazemos o nosso churrasco e jogamos prosa fora”, enfatizam as são-mateuenses que garantem ser sempre apoiadas por seus companheiros e companheiras, além das famílias, pois algumas já tem filhos.

Uma das meninas que integra o grupo é a jovem Jaqueline Removicz de 29 anos, que semanalmente vem da comunidade de Lagoa da Cruz na cidade vizinha de Antonio Olinto treinar com a equipe afim de, “praticar algo que eu amo”, afirma a jovem antoniolintense que também faz parte da equipe Sociedade Esportiva Lagoa Feminino (SELF). Jaqueline relata que a realidade na cidade vizinha não é muito diferente.

Apesar dessa prática favorável ao time Futeba, as mulheres reforçam que ainda conhecem muitas meninas que gostam de jogar, mas os maridos não deixam ou não tem com quem deixar os filhos. “Se elas gostam do futebol elas tem de participar sim, mesmo contra a vontade do marido, a vontade é delas e sugerimos que façam um esforço e lutem por aquilo que elas querem. Se ele gosta da mulher e tem confiança, ele tem de apoiar sim. Não é porque ela vai jogar bola que estará se desvirtuando do casamento. Ela estará fazendo algo que gosta e ainda por cima estará fazendo bem para ela e para o casamento”, afirmam as meninas. “Se o homem tem direito a lazer, a mulher também tem”.

O maior problema para o futebol feminino é o apoio. Há cerca de 15 anos os times femininos eram apoiados e fomentados pela comunidade que possuía seu time de futebol e por consequência ajudava o time feminino a participar de jogos e campeonatos, “há pouco tempo tivemos o apoio por parte da realização de campeonatos na nossa região. Durante décadas, se organizava campeonatos masculinos e nunca convidaram ou incentivaram as mulheres”.

A perspectiva das atletas é que haja uma evolução em relação ao futebol feminino daqui para frente, pois, “o futebol feminino não pode acabar, temos muitas meninas novinhas que querem e já participam dos grupos e times, e o futuro para elas poderá ser mais fácil do que para nós”, garantem. E em relação aos homens fica o recado, “deixem e respeitem a vontade de jogar das mulheres e vocês terão alguém ainda mais companheira ao seu lado. Você irá no jogo dela e ela no seu”.

Compartilhe esta reportagem...Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on LinkedInShare on Google+Print this page


Comentários: