Basta escutar algumas notas tocadas no piano que o corredor do Colégio Estadual São Mateus (CESM) enche de ouvintes atentos às melodias. Localizado logo na entrada da primeira ala do CESM, o piano, datado de 1875, é admirado por quem aprecia uma boa música. Quando um aluno toma postura no banquinho original de madeira e começa dedilhar algumas canções, o sentimento de pertencimento cultural surge em todos àqueles que acompanham o som que ecoa pelo extenso corredor da instituição que completará 100 anos em 2022.

O piano da marca Essenfelder faz parte do patrimônio do CESM, e até onde sabe-se, ele foi doado para a instituição, porém o nome do doador ainda é um grande mistério para a equipe da diretoria. “Não há nenhum registro que afirme quem realmente doou e em qual ano, temos apenas a sua comprovação como patrimônio do Colégio”, destaca Telma Staniszewski, diretora do CESM. Vale a pena destacar que se algum leitor do jornal Gazeta Informativa tiver mais informações sobre essa doação, pode entrar em contato com a nossa equipe para partilhar os dados históricos.

A linha Essenfelder na capital paranaense

Um dos melhores pianos já fabricados no Brasil pertence a fábrica de pianos Essenfelder que passou por inúmeras fases, modificações e reviravoltas que infelizmente culminaram com o fechamento da fábrica nos anos 80 para 90. A fábrica curitibana foi fundada no final do século 19 pelo alemão Florian Essenfelder, que havia sido técnico da Bechstein, considerado um dos melhores pianos do mundo, em Berlim. Antes de chegar em Curitiba, Essenfelder se estabeleceu em Buenos Aires, mas as madeiras disponíveis no país para a fabricação de pianos não o agradaram e ele veio para o sul do Brasil. Em Curitiba, Essenfelder criou vários modelos do instrumento: verticais, de cauda e também orquestral, confeccionados com madeiras nobres como imbuia, mogno e cerejeira.

A estrutura escondida

Desde que assumiram a direção do CESM em 2011, a equipe responsável pela administração do Colégio tem o dever de conferir todos os bens patrimoniais da instituição, seja um simples telefone à bens de grandes valores, como geladeiras, impressoras e o piano, que até então, seu paradeiro era um grande mistério. “Víamos nos documentos do acervo que o piano era sim um patrimônio do Colégio, mas aonde ele estava? Procurávamos em inúmeros lugares e a busca sempre era desanimadora”, relembra Telma. A grande estrutura de um piano é notável, mas mesmo com essas dimensões, levou dois anos para que ele fosse reencontrado pela equipe.

O Colégio Estadual São Mateus divide suas dependências com a Escola Municipal Doutor Paulo Fortes, que possui salas específicas para o trabalho didático com os alunos. “Nós não temos acesso às salas da Escola Municipal, até que um dia a professora que lecionava para a classe especial veio até o gabinete da diretoria e informou que o piano se encontrava em sua sala, no andar inferior da segunda ala”, diz Telma.

Finalmente o piano havia sido encontrado, e entusiasmada com o patrimônio recuperado, a direção entrou em contato com profissionais da área musical para verificar a qualidade do piano, como sua estrutura e afinação. “Quando os técnicos chegaram até o CESM e viram que o piano era da marca Essenfelder, eles garantiram que um instrumento musical como esse é uma raridade”, informa Telma. Sendo envernizado e com algumas peças trocadas, em setembro de 2013, a equipe organizou um concerto para reinaugurar o piano, que contou com a participação de ex-diretores, professores e pianistas da escola de música da professora Regina Trinco.

O aparecimento misterioso do banquinho

Com a aquisição de um piano, é comum o banquinho fazer parte do conjunto, porém, quando o piano foi recuperado o item não estava junto da estrutura. “Conversamos com ex-diretores e eles informavam que o piano tinha sim um banquinho. Comentamos com professores, funcionários e alunos que se eles vissem algo era para nos avisar, pois queríamos restaurá-lo também”, enfatiza Vania Sezanowitch Sass, vice-diretora do CESM. Até que um dia, misteriosamente, o banquinho aparece em frente ao piano, e a direção até agora não sabe como ele foi parar até lá…

As aulas de música dos anos 50

Para Solange Teresa Almeida Fayad, ex-diretora do CESM, o piano fazia parte da rotina dos alunos do fim dos anos 50 até os anos 70. Solange era professora de música da instituição e usava o piano durante suas aulas. “Ensaiávamos com as crianças músicas infantis, folclóricas e hinos brasileiros. Eles aprendiam a cantar e eu usava o piano para dar ritmo às canções. Na época que o Ginásio Duque de Caxias também fazia parte da estrutura onde hoje encontra-se o CESM, ensaiávamos apresentações culturais com músicas e danças”, relembra.

A professora que também trabalhava com orientação pedagógica, conta que aprendeu a tocar piano quando estudou por oito anos em um colégio interno em Curitiba. Quando voltou para São Mateus começou a lecionar no CESM o piano já fazia parte da instituição, e a equipe também não conhecia a procedência do instrumento musical.

O incentivo para a música

Segundo Anne Karoline, ex-aluna do CESM formada em 2018, tocar o piano do Colégio era completamente mágico. “Eu fiz aula de teclado mas não via a hora de poder tocar piano”, conta. Um dia ela descobriu que os alunos também podiam tocar o instrumento musical presente na instituição. “Eu via um amigo tocando e me inspirei nele. Comecei a ir direto, pedia a chave do piano na direção e sempre torcia para ter alguma aula vaga para poder tocar”, relembra.

A aluna, que estudou Formação de Docentes, afirma que a equipe da direção sempre apoiou os alunos na área musical, disponibilizando o piano para aprendizados culturais. “A melhor sensação e um nervosismo tomavam conta, pois enchia de pessoas ao redor e nas escadas para gravarem vídeos das músicas sendo tocadas”, recorda. Anne diz que o piano é um instrumento caro, e não permite acesso a muitas pessoas. A oportunidade ofertada pelo CESM foi fundamental para seu desenvolvimento na música. “Sou apaixonada pela música, e esse amor foi enriquecido nesse período de colégio, em que eu tinha a liberdade de me expressar por meio dela, tendo todo o incentivo. Tenho saudade, não só do piano mas de todo o sentimento envolvido”, conta.

Fotos: Cláudia Burdzinski/Gazeta Informativa

Estudante de Jornalismo que adora escrever e conhecer um pouco sobre a vida e a história de cada pessoa envolvida. Preza pela essência que é repassada na produção de cada matéria, valoriza os pequenos gestos e apoia o ativismo ambiental. E-mail para contato: claudia@gazetainformativa.com.br

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