Mentes Inquietas

E se seguirmos as orientações da obra “Ensaio sobre a Lucidez”?

O Brasil, na atualidade, vive uma crise política, ética e econômica que chama a atenção, não só do povo brasileiro, mas do restante do mundo. O País vem sendo gerenciado por um governo ilegítimo, que tenta passar suas propostas reformistas. Para tal intento, se utiliza da mídia que nos apresenta dados manipulados, tentando nos fazer crer na necessidade e urgência de tais reformas. Utiliza, também, conchavos com seus iguais e ameaça ministros que não compactuam com seus ideais. Os mesmos poderão ser demitidos, ou seja, não mais poderão fazer parte da cúpula governamental e continuar com polpudos salários, pensões e diárias. Diante do que se apresenta a revolta cresce entre o povo brasileiro, que não tem a qualidade de vida defendida nos direitos humanos e, as duras penas subsidia, por meio de pagamento de impostos abusivos e trabalhos assalariados a farra governamental.

O desemprego cresce, a fome e a miséria se alastram, basta observar dados estatísticos que nos são apresentados quase que diariamente. Essas reformas abrangem a previdência, as leis trabalhistas e a educação. E o povo segue desconfiado, apesar dos discursos eloquentes de uma mídia manipuladora, gerenciada pelo poder dominante que mascara a realidade. O que sugere um quadro, que se parece ao quadro pintado por Saramago, em sua obra em questão.

Ensaio Sobre a Lucidez é título de uma das obras de José Saramago (1922-2010) na qual apresenta argumentos sobre a necessidade do despertar do ser humano para uma cidadania mais coerente e participante. Para tal intento, trabalha com histórias, envolvendo uma comunidade descontente com o seu governo e que resolve agir defendendo seus direitos. Se sentindo dominada por um governo totalitário resolve ensaiar suas potencialidades, não indo votar, votando contra o governo e/ou votando em branco, sendo a última alternativa a que mais se efetivou, o que assustou o poder dominante.

Que tal fazermos o mesmo? Por que o voto tem que ser obrigatório? O voto em branco é a solução? No terceiro capítulo de seu livro, Saramago delineia as consequências de tais atitudes. Um estado de exceção é declarado, mas o que se queria mesmo era um estado de sítio a sério, autêntico, um estado de exceção na mais exata acepção da palavra, duro, sem falhas de nenhum tipo, capaz de esmagar um contra-ataque. É preciso agir antes que antes que a gangrena se alastre, que a parte da sociedade anômica, termo cunhado por Durkheim (1858-1917), tome conta do restante do país, considerado são. Gozar de saúde, neste caso, é comungar com o governo, ser de direita, nem esquerdista ou anarquista. De acordo com Agamben (2004), estado de exceção é algo diferente da anarquia e do caos. Institui-se para justificar a ilegitimidade de um governo. Porém, não vamos nos deixar levar pelo senso comum e desprezar o anarquismo como forma de governo, compreendendo-o, erroneamente, como baderna.

Bakuni (1814-1876) teórico russo, expoente da teoria anarquista defende que o anarquismo sustenta a ideia de que a sociedade existe de forma independente e antagônica ao poder exercido pelo Estado, sendo este considerado dispensável e até mesmo nocivo ao estabelecimento de uma autêntica comunidade humana. Portanto, não é doença, representa um direito de escolha para que o cidadão possa exercer sua cidadania. Mas, continuando com a obra de Saramago, essa não é a forma entendida pelo poder constituído e uma verdadeira caça às bruxas se inicia.

A censura, conforme obra apresentada, passa a ser usada pelo governo vigente como instrumento de controle. É um dos dispositivos utilizados para a dominação da vida, que para Agamben são meios bioplíticos a favor de governos totalitários, no bojo está o deixar viver ou deixar morrer. Mas para o sistema vigente, conforme o enredo de Saramago, a censura bem entendida é como o sol, quando nasce é para todos, o que não representa nenhuma novidade, pois assim vai o mundo, são sempre os justos a pagar pelos pecadores. Mas quem são os pecadores e quem são os justos? Segundo Arendt (1906-1976) numa sociedade de proprietários, em contraposição uma sociedade de proletários e assalariados, é ainda o mundo, e não a abundância natural nem a mera necessidade da vida, que está no centro dos cuidados e preocupações humanos.

A segunda decisão, foi à infiltração maciça de investigadores no seio das massas, o que poderia decifrar o mistério, ou seja, quem eram os votantes em branco, ou contra o governo. Tal afirmação nos remete a obra de George Orwel, “1984” considerada obra prima do autor, a qual choca e ao mesmo tempo abre os olhos para que seja percebido o quanto somos vigiados na sociedade atual, pois retrata o totalitarismo político que vigia todos os cidadãos que, onipresente dita normas por meio de um sistema de informação e comunicação, cuja voz apresenta ideias do regime político dominante para que sejam incorporadas pelos ouvintes.

O polígrafo (máquina da verdade) que aparece na apresentação do capítulo da obra analisada é outro dispositivo utilizado para em interrogatórios, analisar se o sujeito fala a verdade ou não, lendo as suas emoções. Mas, o que não teve grande êxito, pois foi confrontado com a complexidade que é lidar com as emoções que envolvem o ser humano. Essa complexidade se torna explícita na nova animação da Pixar com o título: “Divertida Mente”, na qual é trabalhada, de forma bem expressiva, o funcionamento da mente pela neurociência e psicanálise. Pontua como o ser humano se desenvolve por meio dos embates entre os cinco sentimentos que são: – alegria, tristeza, raiva, medo e repulsa. Assim, o polígrafo que é apenas uma máquina e operada por leigos não atinge o sucesso almejado.

Os embates continuam deixando claro a necessidade de profanar os dispositivos governamentais e lutarmos por uma sociedade mais justa e igualitária, onde, o verdadeiro sentido da democracia se apresente. Ditadura nunca mais e que Auschwitz não retorne ao contexto histórico. Vamos buscar os dispositivos a nosso favor, segundo Adorno (1903-1969), a educação poder ser uma forma de impedir o avanço de governos totalitários e conformação de novos campos de concentração. Campos que segundo Agamben, estão presentes na contemporaneidade, porém, com novas configurações. Precisamos dialogar mais sobre esses temas apresentados e responder a pergunta presente no título deste texto.

Artigo escrito por Maria Benedita de Paula e Silva Polomanei, mestre em Educação e docente da UNC. Grupo de Pesquisa Interdisciplinar em Ciências Humanas (CNPq).

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