Mentes Inquietas

Elementos para uma clínica da potência

Na imagem Friedrich Nietzsche. (Imagem Ilustrativa)

Em seus textos, fragmentos e anotações póstumas que compõe a coletânea “A Vontade de Poder”[1], cuja primeira edição data de 1900, logo após a morte de Nietzsche ocorrida em 25 de agosto de 1900 e, publicada após inúmeros acréscimos e edições por parte de seus intérpretes no Brasil em 2008, encontra-se no subtítulo de abertura da obra: “O NIILISMO EUROPEU” 1 [COMO PLANO] a seguinte profecia: “O niilismo está a porta: de onde nos vem esse mais inquietante de todos os hóspedes?” (p. 27).

Mas, é possível conceber profecia em Nietzsche? Se aceitarmos tal proposição seria Nietzsche um profeta? Mas, os profetas pertencem a um determinado tempo? Não pertencem a narrativa hebraica do Antigo Testamento? Sua tarefa não era o anúncio dos novos tempos, da Boa Nova, da Salvação? Porque cumprida a tarefa do anúncio desaparecem da historia do Ocidente? (AGAMBEN, 2014, p. 9)[2].  Mas, a filosofia de Nietzsche é uma dura crítica ao edifício moral judaico-cristão? Não seria contraditório falar de profecia no pensamento e na obra de Nietzsche?

Na perspectiva arqueológica e genealógica do filósofo italiano Giorgio Agamben (1942…) o que caracterizava o profeta era sua intima vinculação e comprometimento com o tempo presente a ponto de proferir, de profetizar a salvação inscrita no ato da criação.  No ser do profeta encontra-se em potência no anúncio da salvação e obra da criação (Agamben, 2014, p. 14).  Para Agamben, no rastro da tradição judaico-cristã a modernidade, sobretudo a filosofia e a crítica herdaram “a obra profética da salvação (…); poesia, técnica e arte confiadas a obra angélica da criação” (Idem, p. 14).  Ou seja, para o filósofo italiano o processo de secularização que conformou a modernidade promoveu uma cisão entre salvação e criação.  Parte considerável dos filósofos refugiou-se na exegese e na elaboração de sistemas filosóficos hermeticamente constituídos no interior do qual se realizava o expurgo de toda e qualquer contingência que demandasse criação. Afirmava-se a salvação.

No bojo desta tradição, talvez se possa afirmar que a filosofia de Nietzsche se constitui de forma diferencial. É uma filosofia em compasso de dança. É uma filosofia que declara todo seu apreço e vinculação a condição imanente da vida, do corpo, dos afetos e afecções que compõe as mais diversas formas de percepção do mundo e de seu jogo de forças. É um convite à olhar e sentir o mundo e a totalidade da existência em constante devir. É uma proposta de assumir a existência mergulhada na “necessária contingência”, em sua dimensão trágica.  Tragicidade da vida! Monstruosa e alegre exigência de reconhecimento de que viver é constante combate de forças vitais que promovem a vida e seu par constitutivo, a morte. Não há garantias! Há somente jogo e a  fruição na ludicidade das jogadas enquanto o jogo estiver em curso.

Para a constituição de sua filosofia trágica Nietzsche convocou Dioniso, Heráclito, os poetas trágicos da Grécia Antiga, os teólogos, os racionalistas, os empiristas e os céticos, Spinoza, Schopenhauer, Kant, Hegel, Zaratustra, o Camelo, o Leão, a Criança, a Águia, a Serprente e Deus em sua condição cadavérica, entre outros.  Apoderou-se do martelo e iniciou sua caminhada entre os homens, entre os animais de rebanho, entre os zeros somados, entre os últimos homens. A certa altura anuncia a intensidade de sua ação filosófica critica e criativa: “É preciso ter o caos dentro de si para dar luz a uma estrela” e anuncia o além do homem. Filosofia trágica.

Na potência de seu pensamento se encontra a concepção do papel do filósofo e seu incondicional amor pela verdade trágica. Assim, o filósofo é um educador que promove constantemente em seus interlocutores a potência de tornar-se o que se é.   Não se encontram no filósofo trágico, certezas, explicações definitivas, ou salvação na vida além túmulo, ou no rigor dos imperativos morais de dever-ser, mas, sobretudo o convite ao exercício rigoroso da potência do pensamento, da reflexão na busca “de sua mais genuína vocação, de seu amor mais elevado – em outras palavras, a caminho da justa e completa maturação e florescimento de uma autêntica personalidade, firme o suficiente para poder criar novas tábuas de valor” (JÚNIOR, 2012, p. 271)[3].

Esta condição do filósofo requer que ele tenha uma relação especial com o tempo, com o próprio tempo. Filho do seu tempo é preciso que se torne extemporâneo, que se situe fora de seu  tempo como condição de compreendê-lo em sua intensidade e profundidade.  Assim, o filósofo em sua extemporaneidade anuncia e promove o confronto do tempo presente consigo mesmo.  Tarefa para poucos. Paga-se caro por tal ousadia. Incompreensão. Aversão. Banimento. Os animais de rebanho, os zeros somados confortavelmente situados na efemeridade de suas experiências do tempo em curso regurgitam a intensidade trágica que a potência filosófica propõe.  Ávidos pela mais rasteira felicidade, que confundem com a saciedade de seus desejos e prazeres, rechaçam o incomodo convite ao exercício do pensamento e de situar sob outras perspectivas a vida, o mundo, a existência.

É nesta direção, que o anuncio do niilismo feito por Nietzsche se apresenta como profecia, como situação que vem a todo o momento, no curso do tempo presente. A profecia não se apresenta como anúncio do que virá, mas daquilo que já se apresenta em nosso meio. “O niilismo está à porta”.  A vontade de nada, o cansaço em relação às exigências da vida, da existência nos afronta cotidianamente. Como a sombra que se projeta de nossos corpos, da aurora ao entardecer insistentemente nos acompanha. Ao meio dia, sol a pino funde-se com nossos corpos. No entardecer ameaça abandonar-nos esgueirando-se longa e distorcidamente para retomar o assédio sobre o corpo e o espírito no dia seguinte.

Mas, pergunta o filósofo “de onde nos vem esse mais inquietante de todos os hóspedes?”.  Por que se hospedou entre nós? Que caminhos percorreu para chegar até aqui? Evidências indicam que este incômodo forasteiro, “o niilismo”, sempre esteve à espreita da caravana civilizatória. Acompanhava-a de longe, de soslaio. Disfarçava-se entre dunas, montanhas e vales sombrios. Mas, sempre se manteve por perto esperando o derradeiro momento para hospedar-se entre nós. Regozijava-se e afirmava sua missão civilizatória ao constatar os esforços humanos de projeção de um fundamento transcendente para suportar os desafios da existência. Na negação da vontade de vida. Na idealização de uma vida ascética, moralmente boa, repressora do corpo, de seus afetos e afecções. Na negação do corpo como Grande Razão.

Esforços monumentais, transcendentais para extirpar a contingência, a condição imanente, o vir-a-ser como fundamento derradeiro da existência. Deus, Alma, Verdade, Liberdade, Felicidade. Promessas ao alcance de todos. Bastava cumprir o receituário. Mas, eis que de subido nos vem o anúncio da morte de Deus. Desespero. Angústia. Sentimento de orfandade. Ressentimento. As incertezas de uma existência desprovida de garantias são excessivas, insuportáveis. Excesso de peso sobre os ombros. Egoisticamente não suportamos a dor da morte do grande pai e com ela a perda das garantidas de uma vida feliz, mesmo que medíocre.  Ligeiramente erguem-se novas transcendências. O Estado, a ciência, o capitalismo, o socialismo, o anarquismo, o consumismo, o crédito, o débito. Nosso desespero com a morte do Deus monoteta, nos conduz há uma espécie de panteísmo. Para cada situação de mal-estar busca-se refúgio numa das divindades produzidas pela modernidade.

A dor de uma existência desprovida de garantias, lançada na incerteza é insuportável. É preciso constantemente encontrar fármacos para aliviá-la. É preciso que um grande pai nos diga o que fazer. Abate-se sobre nós um cansaço existencial. O niilismo em sua condição reativa torna-se o fundamento de nosso modo de ser. Deseja-se afirmar constantemente a vontade de nada querer. Frustrados, desejamos ardentemente nos afastar desse cálice transbordante de incertezas, de vazio de sentido, de ter que assumir a tarefa da vida em suas próprias mãos e transformá-la por própria conta e risco numa obra de arte.

Nietzsche, ao questionar “de onde nos vem esse mais inquietante de todos os hóspedes” não nos propõe rechaçá-lo, negar sua condição de hóspede, de um ser incômodo e insuportável que se alojou entre nós e, que pelos indicativos que nos apresenta não pretende nos abandonar. Mas, a partir do mal-estar proveniente da cotidiana convivência com o niilismo e seu anuncio do vazio de sentido existencial promover a vida sobre outras perspectivas, sobre outros valores.  Trata-se da oportunidade de primeiramente nos reconhecermos como animais doentes, infelizes, moralistas, desconfiados e repressores das intensidades contingentes das forças vitais que nos animam cotidianamente.  Trata-se de nos livrarmos da condição de animais de rebanho ávidos pelas promessas de consumo de uma vida gorda e feliz, asséptica em relação as contradições, a dor e as frustrações inerentes a dinâmica constitutiva das forças vitais que promovem a vida em sua intensidade.

Para o filósofo dionisíaco vivenciar a experiência do niilismo é a oportunidade par excellence ao exercício da coragem vital necessária para andar com leveza na corda estendia sobre o abismo.  É um convite a assumir a dimensão contingente e trágica da existência e, nesta condição assumir um sim afirmativo à vida em todas suas possibilidades e limites. Assim a vida pode ser vivenciada como vontade de potência que se realiza em cada instante no caudal da diversidade de forças caóticas em fluxo constante, desprovida de sentido e finalidade previamente estabelecidos e, é na confluência da multiplicidade de forças desprovidas de um princípio unificador que a dinâmica do devir se mantém em curso vital.

Conceber e assumir a vida em sua dimensão trágica requer que se retome a inocência da criança que brinca, que joga e se diverte com o mundo, com a existência em sua totalidade. Desprovida de uma missão, de uma tarefa a ser realizada em vista de uma promessa futura, a criança vive ludicamente o tempo presente. Transforma cada instante numa oportunidade de fruição do mundo. Profunda experiência vital ética e estética de tornar-se o que se é naquele instante e desejar que tal acontecimento se repita eternamente.  E nesta direção Nietzsche nos esclarece: “E sabeis vós também o que ‘o mundo’ para mim? Deve eu mostrar a vós em meu espelho? Este mundo: uma imensidão de força, sem começo, nem fim, uma firme, brônzea grandeza de força, que não se torna maior, nem menor, que não se consome, apenas se transforma, inalteravelmente grande como totalidade, uma economia sem dispêndio, nem perda, mas também sem crescimento, sem ingressos, cercada pelo ‘nada’ como por sua fronteira, de modo algum dissipadora, perdulária, nada de infinitamente – distendido, mas como força determinada (…) este é meu mundo dionisíaco do eterno criar-se a si mesmo, do eterno destruir-se a si mesmo, este mundo de segredos de dupla volúpia, este meu além do bem e do mal, sem meta – se a meta não se encontra na felicidade (…). Este mundo é a vontade de poder – e nada além disso! E também vós mesmos sois essa vontade de poder – e nada além disso”[4].

A proposta de uma clínica da potência, a partir da psicologia trágica de Nietzsche apresenta-se inicialmente como reconhecimento da profecia do filósofo dionisíaco, de que o niilismo está na soleira de nossas portas e, sobretudo de que não se trata de encontrar um novo fármaco a partir do qual se possa expulsá-lo da dinâmica da vida contemporânea.  Desconsiderá-lo, ou amenizar sua presença por meio de subterfúgios em novas técnicas de tratamento, em novas dietas, no exercício do consumo, na busca do gozo sem limites, ou de qualquer outra estratégia assemelhada é manter-se no mundo na condição de menoridade, da necessidade de um grande pai, de uma divindade que afirme um modo de subjetivação. É negar-se a si próprio. A busca de um amparo transcendente apresenta-se como tentativa desesperada de anestesiar-se da dor da existência no reconhecimento da condição contingente e trágica da existência.

Nesta direção, uma clínica da potência é um convite ao exercício pleno de um niilismo ativo, de reconhecer que se a vida, a existência, o mundo em suas dimensões contingentes e trágicas não oferecem qualquer forma de garantia existencial, o que se apresenta é a oportunidade única, ímpar de viver intensamente a vida transformando-a cotidianamente numa obra de arte. A experiência estética advinda da proposição de clínica da potência requer que a intensidade vital esteja ancorada eticamente no cuidado de si. Tornar-se o que se é requer cuidado de si, disciplina e sensibilidade para a beleza da fragilidade da vida, das relações do ser humano consigo mesmo, com a natureza, com o mundo, com os outros seres humanos em suas diferenças. Requer disciplina e sensibilidade com o corpo como Grande Razão inserido na totalidade das forças que compõe o mundo.

Assim, uma clínica da potência apresenta-se como uma proposta de exercício da potência do pensamento trágico sobre o qual se constitui a vida e a existência em sua totalidade. Desprovida de subterfúgios transcendentes, promessas, ou garantias de alcance de pequenas felicidades, mas plena do exercício ético e estético de uma grande política da vida que afronta a condição rastejante contemporânea em que estamos inseridos.

[1] NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. A vontade de poder. Tradução do original alemão e notas Marcos Sinésio Pereira Fernandes; Francisco José Dias de Moraes: apresentação Gilvan Fogel. Rio de Janeiro: Contraponto, 2008.

[2] AGAMBEN, Giorgio. Nudez. Tradução David Pessoa Carneiro. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2014.

[3] JÚNIOR, Oswaldo  Giacóia. NIETZSCHE E KANT: uma disputa permanente a respeito de liberdade, autonomia e dever. Rio de Janeiro: Casa da Palavra; São Paulo: Casa do Saber, 2012.

[4] NIETZSCHE, Friedrich Wilhem. Fragmento Póstumo n4. 38 [12 ]. Junho-julho. In KSA, vol. 11, p. 610s.

Por:

Dr. Sandro Luiz Bazzanella

Universidade do Contestado

Ascurra, 19 de Janeiro de 2018.

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