(Imagem Ilustrativa)

Ouvi a pouco uma canção cantada por Oswaldo Montenegro e Zé Ramalho. A letra de Zé Ramalho, de “Do muito e do pouco”, parece dar um outro sentido a canção, mas um outro ponto me veio à mente ao analisá-la.

No texto, o poeta afirma que se em terra de cego quem tem um olho é rei – como diz o velho ditado – então, ele complementa: imagina quem tem os dois.

Bem, se vivemos em terra de cego e temos o privilégio de ver com os dois olhos, se recebemos talentos ou oportunidades que os outros não receberam, então temos obrigação de fazer bom uso disso.

Se temos essa vantagem, podemos não só usar a nosso favor, mas em prol da organização em que trabalhamos, por exemplo, ou da Comunidade onde vivemos.

A maior dificuldade sempre está em administrar essa vantagem recebida, pois se chegamos a nos destacar, a ser “rei”, ou como quer significar o ditado temos influência sobre pessoas, temos que tomar cuidado para que o poder não nos suba a cabeça, procurando vantagens pessoais ou para aquelas pessoas ou grupos mais próximos.

Outro ponto a se tomar cuidado é o de que, quem sabe a terra não seja de cegos e seus habitantes apenas não queiram ver ou não aprenderam a enxergar. Assim, se você faz bom uso de seus dons, não se preocupe que os que o rodeiam venham ou voltem a ver com seus olhos.

Mas a terra de cegos já pode ter um rei, então ele tem o poder e pode não querer que um outro regente se estabeleça. Assim, mesmo com os dois olhos, com mais competência, você pode estar ameaçado. Aproveite essa sua capacidade de “enxergar” e defina bem suas estratégias, para sua proteção e dos demais membros de seu grupo, de sua organização, de sua Comunidade.

Talvez também seja interessante, se você tem dois olhos, que busque outros iguais. Não pense em deixá-los de lado, pois, se conquistar aliados será mais fácil defender sua causa, alcançar seus objetivos.

Há mais um ponto a se tomar cuidado: como você tem dois olhos, pode ter visto, contemplado outras belezas, ter visualizado coisas incríveis e que poderão transformar a vida de que não pode ver. Pense que não será fácil que os “cegos” acreditem em você.

Quando eu era garoto e participava de uma reunião de um grupo de jovens, um senhor nos contou uma história. Nela, no fundo de um poço raso, vivia um sapo. Ele parecia feliz, cumprindo sua rotina. Subia numa pedra, saltava, mergulhava, voltava para a pedra. Se alimentava de insetos distraídos e de alguma coisa que no espaço escuro proliferava. Em poucos instantes, durante o dia, um raio de sol penetrava na escuridão. Assim o tempo passava.

Certo dia, ele ouviu o barulho de algo em queda. Fora um outro sapo que caiu no mesmo poço. Num primeiro momento ele ficou contente com a companhia.

O novo sapo, falante, começou a lhe contar tudo que havia lá fora: abundância de alimento, o verde das matas, a beleza das flores, água corrente, a brisa suave, muitas outras formas de vida e tantas outras coisas. Passou vários dias descrevendo tudo que presenciara: a maravilha da Criação.

Mas o sapo que vivia no fundo do poço pensava que nem ele nem o sapo caído conseguiriam escalar as paredes do poço e, para aliviar a sua dor, matou o sapo caído. Preferiu acreditar que tudo aquilo era impossível. Infelizmente, ele não era mais ignorante e sua dor se fez eterna. Hoje, espera que um outro sapo caia do céu e lhe resgate.

Então, se você tem dois olhos, a única coisa que você não deve fazer é desperdiçar o seu talento ou se fazer de cego também, pois como diz outro ditado, “pior cego é aquele que não quer ver”. Se você é “cego”, aproveite e veja com os olhos do outro. Valorize o olhar de quem pode lhe ajudar.

Adnelson Borges de Campos
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