Mentes Inquietas

Explicando Nietzsche para iniciantes

Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900) é mundialmente reconhecido como o mais importante pensador desde Kant. Estabeleceu um ponto de ruptura no pensamento ocidental com sua “filosofia do martelo” e resignificando conceitos, tal como Karl Jaspers o apontou como um marco divisório na história do pensamento ocidental.

Pela complexidade de suas obras, que são repletas de metáforas e críticas aos padrões sociais estabelecidos, é muitas vezes mal interpretado. Quando encontrava-se no ocaso da vida, sua irmã, com quem sempre teve rusgas, boicotou vários de seus escritos visando a depreciação da figura do irmão. Mesmo com tal episódio, suas obras permanecem até hoje em debate, tamanha a influência que conquistaram. A Universidade da Basileia e diversos pesquisadores, entre os quais Erich Podach, Giorgio Colli e Mazzino Motinari, foram elementares para a preservação e difusão de seus escritos.

Por mais que muitas pessoas o interpretem erroneamente, advirto: ter capacidade de interpretação de texto e, sobretudo, ler suas obras é o passo mais importante a se dar antes de elaborar uma “opinião”. Não raro encontramos indivíduos tomando notas de comentadores ou textos de blogs como verdades irrefutáveis. Fato é que o estudo científico claudica quando não nos valemos da leitura integral das obras. É justamente a partir do questionamento que construímos o saber. Este, por sua vez, deverá ser questionado, reavaliado incansavelmente, sem exceções; sempre que uma nova evidência surgir, há de ser acrescentada ao debate. Assim, este escrito destina-se aos raros indivíduos que arriscam-se à leitura. Por conta do espaço, a análise será superficial, pois é impossível tratar de ideias complexas em apenas uma lauda. Tomaremos como ponto de partida os equívocos cometidos no texto de opinião (meramente) publicado neste jornal no dia 18 de agosto.

O primeiro ponto a destacarmos é a incerteza dos motivos que abreviaram a existência do filósofo. Seus biógrafos não entraram em consenso, mas a causa mais provável é a sífilis, que desencadeou uma série de problemas físicos e psíquicos.

O Anticristo não é o último livro de Nietzsche, mas Ecce Homo (1908), uma espécie de autobiografia publicada postumamente. Tendo como características uma postura ríspida e sarcástica, cultivou inimigos e sua herança foi marginalizada durante o período nazista, justamente por se opor ao antissemitismo em vigor na Europa até o fatídico momento histórico conhecido como Holocausto.

Em sua obra prima, Assim Falava Zaratustra (1891), bem como em seus outros discursos, a “morte de Deus” é tema recorrente. Em nenhum momento o alemão nega a existência de uma figura mística. Trata-se de uma figura de linguagem que se refere ao fim de um modelo de pensamento pautado em dogmas e regras que tiram do indivíduo a máxima responsabilidade pelos próprios atos. A morte de Deus está longe de ser uma ameaça, mas encontra-se na cruzada entre a vontade de potência e a reatividade. Vale frisar que este pensador prezava que ninguém tomasse qualquer coisa como uma verdade pronta, mas que cada indivíduo, em sua particularidade, busque sua própria compreensão sobre a vida. Assim, quer-se dizer: leve o tempo que for para decidir o que quer da vida e, quando decidir, não recue ante nenhum pretexto, pois a sociedade tentará te dissuadir [Barros Filho]. Viver a individualidade, sem impor nada a quem quer que seja. Ao passo em que diz que “eu mesmo governarei o mundo”, refere-se a cada indivíduo tomando em mãos as rédeas da própria vida; cada ser deve coordenar a própria existência como melhor lhe convir, livres como o leão, para fazer uso da analogia do próprio filósofo. Mas, e se a partir da própria reflexão o indivíduo decidir que deve seguir alguém ou alguma seita religiosa? Neste caso, foi uma decisão e é válida. A crítica de Nietzsche destina-se à doutrinação de mentes que ainda não atingiram um alto grau de desenvolvimento. Nietzsche era avesso ao discurso marxista, não julgava que os homens deveriam viver em unidade e compartilhar dos mesmos artifícios pois cada um preserva sua individualidade.

Ao elaborar o conceito de rebanho, aponta na mesma direção em que Paul Lazarsfeld apontou ao falar da disfunção narcotizante dos meios de comunicação de massa, isto é, mesmo com uma enormidade de informações recebidas, a massa permanece apática, julgando conhecer aquilo que vê apenas superficialmente.

Uma coisa que não se pode negar é que a desvirtuação dos escritos do filósofo foi elementar na constituição do Mein Kampf, tal como Hegel, Kant, Leipzig e a Bíblia. Hitler valeu-se de pontos isolados de diversas obras para, de alguma maneira, construir e legitimar seu discurso de intolerância. Tanto é que o Papa Pio XII colocou a Igreja à disposição do fascismo e do nazismo. Diferentemente de Maquiavel, que fez uma profunda análise dos sistemas de governo que vingaram e fracassaram no decorrer da história e elaborou uma carta a Lorenzo de Médici, explanando sobre os atos de governantes que caíram e que se mantiveram no poder (foi criticado pela igreja católica por expor a imagem de líderes religiosos que fizeram uso de artifícios imorais para defender seus interesses), Hitler fez recortes de vários nomes de expressão da filosofia e da política.

É importante lembrar que ser seguidor de Nietzsche é uma incoerência. Em vários de seus escritos (e principalmente em Assim Falava Zaratustra), afirma que não queria seguidores. Para ele, cada um deve trilhar seu próprio caminho, assumir suas desventuras e encontrar suas próprias respostas.

Para concluir, devemos esclarecer o que é a laicidade, já que o desarranjo na organização das ideias de alguns acaba causando confusões em vista a defender seus próprios dogmas. O Estado Secular não consiste somente em defender “o respeito ao ateísmo”, muito além: o Estado deve ser uma figura neutra e, assim, garantir a possibilidade de coexistência pacífica das diversas doutrinas, garante a liberdade privada de cultuar o que bem entender (desde que não fira os direitos humanos). A neutralidade do Estado deve ser garantida por seus agentes. A partir do momento em que cruzes são fixadas nas paredes das instituições públicas e versículos da Bíblia são lidos em espaços de representação política, o rito religioso incorpora-se ao fazer político, abrindo a possibilidade para que decisões embasadas em princípios religiosos sejam tomadas, enquanto a única coisa que o Estado deve patrocinar neste caso é a tolerância de culto em sua devida esfera. Não é uma questão de ofender credos, mas de defender a coerência ética da sociedade. A moral, enquanto cultura, deve ser respeitada, mas também questionada pela via da razão para decidirmos a melhor maneira de conviver.

A secularização da política é condição para a liberdade. É justamente nessa condição que o indivíduo e a nação poderão sair de menoridade, serem senhores de si mesmos de acordo com um processo de reflexão autônoma, reagindo a qualquer imposição. Isso faz com que a vida em sociedade siga com maior fluidez. A religião não pode ser imposta, muito menos se impor e, nas palavras de Habermas “[…] só merecem o predicado ‘razoáveis’ as comunidades religiosas que, segundo seu próprio discernimento, renunciam à imposição violenta de suas verdades de fé, à pressão militante sobre as consciências de seus próprios membros, e tanto mais à manipulação para atentados suicidas” [DOUVAN, A. S.. Secularismo Retrógrado. Gazeta Informativa, São Mateus do Sul/PR, p. 02. 2016].

Artigo escrito por Alexandre Stori Douvan.

Mentes Inquietas
Últimos posts por Mentes Inquietas (exibir todos)

Comentários

Compartilhe:


MATÉRIAS RELACIONADAS
Aparelhos do Estado – Provocações sobre o Brasil do Futuro
Nuances do jornalismo brasileiro
Igualdade no Brasil: solução ou problema?