São Mateus do Sul. (Foto: Artur Wischral/Acervo Gerson Cesar Souza)

Se você já foi estudante e teve que fazer um trabalho sobre a história de São Mateus do Sul, provavelmente explicou o motivo pelo qual a cidade tem esse nome, contou que antes ela se chamou “Porto de Santa Maria”, explicou que a localidade foi fundada por Rodolfo Wolff, que chegou aqui em 1855 e explorou petróleo em parceria com Gustavo Thenius. Se você é um professor, talvez tenha ensinado isso para seus alunos. Bom, eu também fiz isso… Mas eis a má notícia: fomos vítimas de fake news! Embarque comigo nessa história!

Invenções em relatos históricos podem tomar grandes proporções. Uma vez ouvi alguém afirmar que a Colônia Água Branca tinha originalmente o nome de “Águia Branca” (em homenagem à Polônia), e que teve que mudar de nome durante a nacionalização, no governo Vargas. Essa seria uma bela história, mas é totalmente falsa. Os documentos antigos mostram que a colônia já se chamava Água Branca (devido ao rio de mesmo nome) 40 anos antes da era Vargas. Ela até já teve um segundo nome (Colônia Accioly), mas nunca foi “Águia Branca”.

Mas a campeã das fake news é nossa São Mateus. Meu amigo Rodrigo Lima de Castro produziu um artigo chamado “O lugar denominado ‘São Matheus’” que merece ser lido por todos que gostam de história. Rodrigo mostra, com fontes, que a denominação São Mateus deve ter surgido em algum momento entre 1859 e 1871. A “versão oficial” de que a origem do nome se devia ao “Porto de Nsa. Sra. dos Prazeres de Matheus”, em homenagem ao Morgado de Mateus, também é jogada por terra, visto que o tal porto “ficava muito além da cachoeira do Iguaçu em Porto Vitória”, como afirma, com propriedade, Rodrigo.

A versão de que a cidade se chamou no passado “Porto de Santa Maria” também não tem sustentação. Rodrigo cogita que seja uma confusão baseada nas “Memórias de Saporski”, onde cita-se que a demarcação do terreno para sede da colônia foi feita no lugar onde ficava o Porto de Santa Maria, mas em nenhum momento (e em nenhum outro documento) fala-se que a localidade teve esse nome. “Colônia Maria Augusta” sim, mas nunca “Porto de Santa Maria”.

A chegada de Rodolfo Wolff em “1855” estava no site da Prefeitura (já pedi para alterarem) e em vários outros sites, mas é certamente um erro de digitação. O ano em que a empresa de Wolff recebeu os direitos para explorar petróleo na “Fazenda São Matheus” foi 1885. Wolff ficou lembrado como o “fundador” da cidade, mas vários documentos mostram a presença de inúmeros moradores antes dele. E por mais que ele tenha vindo para São Mateus visando “explorar petróleo” (no caso o xisto), não há documentos que mostrem que ele tenha feito qualquer exploração (a própria concessão da empresa foi revogada pelo governo dois anos depois). E há dúvidas se o “outro fundador”, Gustavo Thenius, participou da empreitada. Thenius tinha uma padaria em Curitiba, e não há qualquer registro confiável de que ele tenha mantido residência em São Mateus.

É claro que brinquei ao falar em “fake news”, mas vale a reflexão: se “certezas históricas” são desfeitas com dúvidas e pesquisas, precisamos manter sempre forte nossa capacidade de questionar, principalmente nos dias atuais.

Até a próxima semana e céus limpos para todos nós!

Gerson Cesar Souza
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