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Fé, Igreja e Tradições: ucranianos têm Natal rico e particular

Igreja Ucraniana São Basílio Magno, de União da Vitória. (Foto: Marcelo S. de Lara)

Igreja Ucraniana São Basílio Magno, de União da Vitória. (Foto: Marcelo S. de Lara)

A Paróquia de São Basílio Magno, em União da Vitória, realizou a comemoração especial da Santa Ceia (Sviatei Vétchir, em ucraniano), no sábado (12/12). De início com objetivo catequético, procurando reavivar os costumes e as tradições vividas no natal pelos ucranianos, em sua pátria mãe – Ucrânia –, e mantida no Brasil. A Igreja tem sido, ao longo da história dos descendentes no país, a base que sustenta a cultura e mantém os valores da tradição.

De acordo com o pároco, Josafá Firman, muitos dos descentes, na atualidade, já não praticam, ou então, esqueceram tais tradições e as gerações mais novas, muitas vezes, nem conhecem o sentido e o significado da celebração natalina ucraniana. “Portanto, o objetivo principal foi tentar resgatar tais costumes e tradições que possuem uma grande riqueza cultural e religiosa”, destaca. A Santa Ceia, realizada por sua paróquia, superou a expectativa de público, com mais de 500 pessoas presentes. “Puderam presenciar e celebrar, com antecedência, o Natal”, acrescenta o padre.

Em União da Vitória, a Igreja Católica Oriental Bizantina (Ucraniana) realiza celebração natalina diferenciada. O intuito é buscar o resgate de elementos culturais que simbolizam o Nascimento de Jesus Cristo, em meio ao reavivamento de lembranças e ensino da cultura. Evento teve como foco central apresentar os rituais que fazem parte da tradição sustentada, principalmente, por meio da Igreja. (Na foto: Padre Josafá Firman).

Em União da Vitória, a Igreja Católica Oriental Bizantina (Ucraniana) realiza celebração natalina diferenciada. O intuito é buscar o resgate de elementos culturais que simbolizam o Nascimento de Jesus Cristo, em meio ao reavivamento de lembranças e ensino da cultura. Evento teve como foco central apresentar os rituais que fazem parte da tradição sustentada, principalmente, por meio da Igreja. (Na foto: Padre Josafá Firman, na ceia de Natal ucraniana).

A Santa Ceia é celebrada no dia 24 de dezembro ao anoitecer, quando nasce a primeira estrela no céu, e, a partir dela, é celebrada a alegria do ‘Nascimento do Salvador’ cantando, em família, as Kólhiades (canções natalinas ucranianas). Aos católicos ucranianos (greco-orientais) outro quesito é participar da missa de Natal, na Igreja. O dia seguinte (25 de dezembro), e em todo período natalino, jovens e cantores litúrgicos percorrem as residências dos paroquianos para saudarem às famílias com canções ucranianas de natal. “Alegria do nascimento do Salvador Jesus Cristo”, completa Josafá.

Preparação para o Natal

O Natal, tanto para católicos orientais quanto ocidentais, é a celebração do nascimento do Salvador Jesus Cristo. Contudo, o diferencial do Natal ucraniano são as variadas tradições de cunho religioso. Os preparativos têm início em 14 de novembro, com a festa do Apóstolo São Felipe. Por isso esse tempo litúrgico é denominado de Pelêpivka, que equivale ao advento no calendário da Igreja Ocidental. Esse período é marcado por oração mais intensa, reflexão, jejum e penitência, na espera do tão esperado hóspede: o Filho de Deus, segundo o pároco.

Reza a tradição que, nessa época, não se deve comer carne e derivados, isso porque não há carne na ceia ucraniana, conforme o padre. Também, nesse período a família deve permanecer unida e ninguém deve viajar ou ausentar-se. Nessa época, ainda, é celebrada a Festa de São Nicolau (6 de dezembro) que é um dos santos mais populares na Ucrânia e entre os ucranianos da diáspora (comunidades de descendentes ao redor do mundo). O bispo da Igreja, natural da cidade de Esmirna – atual Turquia –, se destacou “por suas obras de misericórdia e amor fraterno ao próximo, fazendo com que seus gestos tocassem profundamente os corações. Por isso, sua figura se imortalizou no culto, na iconografia e na liturgia”, relata Josafá.

Ainda, para os ucranianos, ele é considerado o santo dos agricultores e defensor dos animais, e, sobretudo, o patrono das crianças. Disso o dia de São Nicolau ser data para a troca de presentes entre as pessoas. “E presentear, de um modo especial, as crianças”, explica o pároco. No Ocidente, São Nicolau foi substituído pela figura do Papai Noel, tendo mais apelo comercial do que religioso.

Árvore de Natal

Prepara-se a ialênka (pinheirinho de Natal) com uma estrela de bom tamanho e bem visível em cima. “Essa árvore sempre indica para o alto e a estrela indica o caminho; assim, como foi para os magos do Oriente, ela nos guia para o Deus que vem e que estará presente entre nós, porque Ele é o Emanuel – Deus conosco”, conta o padre. Ela é enfeitada com vários elementos, como os doces que serão consumidos, posteriormente. Além das luzes, a tradição contempla a montagem de um pequeno presépio.

Ceia de Natal

No dia 24 de dezembro, conforme Josafá, desde o início da manhã têm início os preparativos. A anfitriã prepara doze pratos que serão servidos na ceia, que representam os doze apóstolos. “Enquanto a mãe prepara a refeição, o dono da casa procura deixar toda a propriedade limpa e os animais bem alimentados, para depois forrar o assoalho da sala de jantar com feno [espécie de capim seco], como no local onde Cristo nasceu”, relata o pároco. Cabe às crianças preparam o trigo e o centeio para a saudação do Ano Novo (tradição trazida pelos ucranianos e difundida em diversas localidades de colonização ucraniana em que os pequenos vão de casa em casa ‘semeando’ e anunciando o novo ano).

A mesa é forrada, também, com o feno e coberta com a toalha bordada, para representar a manjedoura onde será colocado o Menino. “A mesa farta trará as bênçãos do Filho de Deus para todos na família”, explica Josafá. Tudo em clima de harmonia, com um castiçal de três velas de cera para simbolizar a Santíssima Trindade. Ainda, no assoalho, sob a mesa, coloca-se a palha de trigo, junto com os instrumentos de trabalho no campo: o machado, a enxada, o serp (erro utilizado na colheita do trigo), entre outros. Isso para pedir que em toda a propriedade estejam presentes as bênçãos de Deus.

Quando a ceia está pronta, o dono da casa convida a todos para a ceia. Todos devem estar presentes. Fazendo a oração pela família, o hospódar (dono da casa) saúda a todos com as palavras: Khrestós Rodêvcia! (Cristo nasceu!). Todos respondem: Slavimo Iohó (Glorifiquemo-lo).

Durante a ceia, ou após, os membros da família entoam as Kólhiades. “Em melodias harmoniosas e fáceis, eles descrevem, de uma forma singela, o nascimento do Menino Jesus”, destaca o padre. Também, é comum deixar preparado um lugar a mais durante a ceia, para simbolizar algum familiar ou amigo que não tem a possibilidade de estar festejando o Natal em família, ou então, representar aqueles que já faleceram.

Cerimonial do didúxh

A ceia de Natal só começa quando todos já estão reunidos, o hospódar avisa quando avista a primeira estrela no céu e traz consigo o didúxh (feixe de trigo) para dentro da casa, que representa os antepassados já falecidos. Também a fartura, a boa colheita, o progresso e o bem-estar das pessoas. Esse feixe de trigo é escolhido durante a colheita e guardado com todo o cuidado. “O didúxh é trazido para dentro de casa num ritual sagrado e, com muito respeito, é colocado em um lugar de destaque, num canto próximo à mesa de jantar com grande cerimônia, anteriormente preparado”, completa o pároco.

A Paróquia São Basílio Magno, de acordo com o padre Josafá Firman, trouxe a reflexão dessa rica cultura, religiosa e da história dos ucranianos, neste evento. A ação permite o resgate de valores e a busca de sua permanência, preservando as tradições e permitindo que elas se perpetuem por mais gerações. Para muitos trouxe lembranças emocionantes de sua infância, juventude e família. Aos mais jovens a certeza de uma etnia diferenciada que, na Igreja, mantém viva sua memória e preserva seus valores.

Sidnei Muran

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