Quando esquentou um pouco mais, subi ao sótão e resgatei alguns ventiladores. Um deles, já o tenho há quase trinta anos. Funciona perfeitamente e é disputado por todos em minha casa.

Procuro manter os aparelhos limpos, pois eles costumam acumular um pouco das partículas presentes no ar em suas hélices. Mais uma vez, o bom e velho ventilador da Walita é o mais fácil de limpar, não foi só feito para durar, como também é facilmente desmontável e quando se monta novamente, não sobram peças!

Algumas marcas foram sinônimo de qualidade e de durabilidade. Quem não lembra dos comerciais onde os concorrentes “não eram assim, uma Brastemp”. E a Brastemp concorria com marcas como Consul, Prosdócimo, Frigidaire, Westhinghouse. Todas buscavam qualidade.

Mas o capitalismo, como forma de criar necessidades, inventou o descartável. Produzir cada vez mais barato, com materiais de qualidade inferior não só para fazer frente a concorrência. É a chamada obsolescência programada. Reduz-se a vida útil, dificulta-se o conserto com a retirada de peças de reposição ou cobrando preços absurdos por algumas delas. Tudo para garantir que os produtos sejam usados pelo menor tempo possível, aumentando o consumo. Alguns dos resultados são o uso acelerado de recursos naturais, poluição e o empobrecimento da população que poderia estar usando o seu pobre dinheirinho para satisfazer alguma outra necessidade.

E são os mais pobres que sofrem com este modelo, pois os mais afortunados ainda têm acesso a alguns itens de melhor qualidade e durabilidade.

Nossa sociedade transformou-se. Passou de produtora para uma sociedade consumidora. A indústria criou nos consumidores o desejo de possuir algo um pouco mais novo, um pouco “melhor”, um pouco antes do necessário.

Nós, nossos governos, aceitamos e jogamos o jogo ditado pelas multinacionais, que cada vez mais realizam fusões e associações para tirar ainda mais dos consumidores. Você conhece alguma empresa que comprou ou se associou a outra para produzir algo com mais qualidade? Pode ser que você encontre algum exemplo, mas na maioria das vezes o que se procura é eliminar a concorrência e aumentar a margem de lucro. Quase nunca o objetivo é atender melhor ao usuário.

Há países em que há marcos regulatórios, regras sobre a qualidade e durabilidade dos produtos. Nosso INMETRO mal consegue dar conta dos controles de segurança e de proteção ambiental com seus requisitos de certificação e o Instituto ainda gasta dinheiro público criando regras como as das tomadas de três pinos, cujo modelo só existe por aqui.

Na Espanha há um movimento chamado Sem Obsolescência Programada, onde o líder do movimento recebeu propostas milionárias para deixar de fabricar sua lâmpada que dura para sempre e ameaças de morte caso não desista da ideia de incentivar a não obsolescência.

Um gigante do comércio eletrônico mundial queima ou destrói parte de seus produtos recebidos em devolução ou não vendidos. Praticas para domínio do mercado, regular preços e criar necessidades. Milhões e milhões em recursos naturais incinerados ou jogados em lixões. Com política predatória, acabou com livrarias e lojas espalhadas pelo mundo e com os empregos de quem trabalhava nelas. Por incrível que pareça, todas as suas práticas são consideradas legais. É melhor desperdiçar do que levar até quem precisa, por um preço justo.

Aproveito para lembrá-lo de, se a garantia do seu carro está acabando, logo vem dor de cabeça, em série!

Adnelson Borges de Campos
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