(Divulgação)

“Nessa terra, em se plantando, tudo dá”. Esta frase é uma espécie de dupla “fake News”. Muitos acreditam que foi escrita por Pero Vaz de Caminha, escrivão da frota de Pedro Álvares Cabral na carta endereçada a Dom Manuel, rei de Portugal. Essas palavras não constam no documento entregue ao rei, portanto foi inventada e a informação falsa foi repetida tantas vezes que a ponto de ser tomada como verdade. Outra informação falsa é a própria afirmação da frase. De fato, é de se esperar que os primeiros europeus que aqui chegaram, ao verem as magníficas florestas, pudessem achar que “nesta terra, em se plantando, tudo dá”. Mas a realidade é bem diferente. Por mais verdejante que seja uma floresta, ao removê-la o que temos é um solo carente de alguns nutrientes quando o objetivo é plantar grãos, tubérculos ou outras fontes de alimentos. Preparar o solo para adequá-lo ao cultivo é uma das mais antigas atividades humanas e também uma das ações mais importantes para a sobrevivência e evolução da humanidade. Estima-se que os primeiros sistemas de cultivo se desenvolveram há aproximadamente 10 mil anos, no período conhecido como neolítico.

As primeiras formas de agricultura foram feitas em regiões próximas às margens dos rios, que periodicamente eram inundadas. As águas das enchentes transportavam nutrientes e enriqueciam os solos, que eram aproveitados pelos primeiros agricultores. Isso permitiu ao homem, deixar de ser somente um caçador e coletor e poder armazenar alimentos e assim fixar moradia em determinadas regiões. Portanto, quando olhamos uma moderna máquina colhedora computadorizada, orientada por satélite e oferecendo todo o conforto possível ao operador, ou até mesmo sem o operador, por gerenciamento remoto, precisamos lembrar que ela representa 10 mil anos de evolução da agricultura, quando comparada aos primeiros ceifadores artesanais. No entanto, a evolução mais importante na agricultura não está nos equipamentos automáticos para plantar ou colher, mas sim no conhecimento desenvolvido sobre a fertilização dos solos.

O homem neolítico já utilizava estercos e cinzas para fertilizar o solo para algumas culturas e existem relatos de que os antigos romanos desenvolveram estudos comparativos entre diferentes fertilizantes. Portanto, a fertilidade do solo é uma preocupação tão antiga quanto a própria agricultura. Milhões de toneladas de fertilizantes são utilizados anualmente em todo o planeta. A produção de alimentos em quantidade suficiente para alimentar os quase 8 bilhões de seres humanos que habitam o planeta é impensável sem o uso de fertilizantes e não é exagero afirmar que se a produção de fertilizantes fosse parada por 3 ou 4 safras, o mundo teria imediatamente outros milhões de pessoas passando fome.

Nos últimos dias a possível falta de fertilizantes ocupou muitos debates no mundo todo devido à guerra na Ucrânia. A Rússia, país que iniciou o conflito armado, é um dos maiores produtores mundiais e por conta da guerra parou as exportações. A China já havia reduzido a produção devido a problemas internos. No Brasil as últimas safras já mostravam o reflexo da redução da produção chinesa, com consequente aumento dos custos na produção de grãos. Mas qual é o real tamanho desse problema? Sempre teremos que nos preocupar com a falta de fertilizantes? Bem, o problema não é grande, é gigantesco! E sim, a preocupação com a possível falta de insumos para fertilização do solo veio para ficar.

Infelizmente, em ano eleitoral, o assunto já está sendo explorado para atender interesses políticos e o governo vem tentando aproveitar a polêmica guerra entre russos e ucranianos para tentar forçar a aprovação de mineração em terras indígenas. A desculpa é que essa é a solução para o problema de falta de fertilizantes. Isso não é verdade. As reservas em Minas Gerais são maiores e de fácil exploração. Não faz sentido o ataque às terras indígenas. Além disso, a profundidade das reservas nacionais é grande e o impacto ambiental será também considerável. A importação ainda será a forma mais barata de obtenção desses insumos por muito tempo. Mas claro, não é um tempo infinito e aí está nosso maior problema.

Da mesma forma que o petróleo, o carvão e qualquer outra riqueza mineral, depósitos de minérios úteis para a produção de fertilizantes são limitados. Mesmo as reservas gigantes como chinesas, russas e canadenses um dia chegarão ao fim. No entanto, muito antes da extinção da reserva mineral, o problema ambiental causado por sua exploração cobra seu preço. A extração de um minério sempre é um processo agressivo e com os fertilizantes não é diferente.

A China exporta milhões de toneladas de insumos para fertilizantes anualmente e fatura alto com isso. Mas o país lida com o grave problema do acúmulo de resíduos da produção de fósforo. Resumidamente, a exploração das reservas de minério fosfatado requer operações que envolvem extração e tratamento de rochas com ácido sulfúrico para extração do fósforo de forma que ele seja útil na fertilização. Isso é necessário porque as plantas só absorvem este elemento sob determinadas condições. Não basta que tenha esse nutriente no solo. Ele precisa estar disponível. O problema chinês é que a exploração das rochas fosfáticas em mega escala foi causando o acúmulo de sulfatos e fosfatos, principalmente de cálcio como resíduo. O país já teve que evacuar bairros inteiros devido às doenças respiratórias causadas na população pelas montanhas de Gesso fosfatado, resíduo da produção de fósforo pelo método de reação com ácido sulfúrico. Isso nos dá uma ideia do tamanho do problema a ser gerenciado.

O fósforo (P) não é o único nutriente necessário. Apenas considerando os principais, ainda temos nitrogênio (N) e potássio (K). Juntos formam o NPK, sigla que vemos nas embalagens de fertilizantes ou nos laudos de agrônomos após avaliação de solos. Existem ainda os micronutrientes. Boro, Cobre, Manganês, Cobalto, Zinco, entre e outros também são importantes, mas exigidos em menor escala. A forma de nitrogênio mais conhecida por nós leigos, é a ureia. A decisão de interromper a produção de nitrogenados em nosso país foi um dos maiores erros dos últimos tempos. Muito diferente da proposta eleitoreira de explorar terras indígenas, a produção de nitrogenadas já era consolidada pois trata-se de subproduto do refino de petróleo. Atualmente existem tratativas para a retomada dessa produção. Aguardemos!

O potássio é adicionado à mistura fertilizante na forma de cloreto de potássio (KCl). Esse elemento tem habitado as conversas porque nosso país possui reservas dele em terras indígenas. Isso é verdade, mas está em grande profundidade, além do custo ambiental e social, a exploração de nossas reservas ficaria muitas vezes mais cara do que a atual importação da China.

Para além dos problemas econômicos imediatos, silenciosamente a utilização de fertilizantes em larga escala agrava de forma crônica um problema que vai nos gerar elevados custos a longo prazo. A distribuição de elementos de elevada toxicidade junto com os fertilizantes. Junto com os nutrientes essenciais, o produtor espalha na lavoura consideráveis quantidades de Arsênio, Mercúrio, Cádmio, Cromo, Chumbo e até Urânio. Esses elementos estão presentes nas reservas minerais e não é viável sua remoção. Os efeitos mutagênicos e carcinogênicos dessas espécies são conhecidos e a sua absorção pelas plantas também. São espécies químicas que não estão presentes naturalmente nos solos em altas concentrações pois se depositam nas camadas inferiores. No entanto, ao extrair os minérios e distribuir nas lavouras, estamos movimentando tais elementos para a superfície.

Os efeitos colaterais do espalhamento de Urânio e outros metais tóxicos nas lavouras ainda é desconhecido e requer muito estudo até que se possa chegar a alguma conclusão, mas as perspectivas não são boas.

Fertilizar o solo é preciso, é essencial. Estudar e planejar o futuro do planeta que vamos deixar aos nossos descendentes também!

Luís Ferraz
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