“A fotografia é uma fonte histórica que demanda por parte do historiador um novo tipo de crítica. O testemunho é válido, não importando se o registro fotográfico foi feito para documentar um fato ou representar um estilo de vida”, Ana Maria Mauad.

Festa em louvor à Nossa Senhora dos Navegantes

Era uma festa muito esperada! Tudo acontecia na “barranca” do rio Iguaçu. Reuniam-se muitas pessoas de classes e idades variadas. Era uma verdadeira comemoração! Vinham também pessoas de outros lugares para louvar o dia da Santa e participar dos festejos. O local era no antigo porto fluvial São Mateus e os preparativos começavam bem cedo. Celebrada como feriado religioso em 02 de fevereiro, o evento reunia principalmente os profissionais da navegação. Festa de cunho religioso da igreja católica, foi idealizada pela comissão da igreja de comum acordo com a Capitania dos Portos e do poder público.

A fotografia (uma cópia) em preto e branco, faz parte do acervo particular de José Nelson Chaves de Souza e está exposta na Casa da Memória Padre Bauer- Sala da Navegação. Não temos conhecimento do autor da fotografia nem a data exata. Lá estão os vapores perfilados e enfeitados. Os primeiros vapores que aparecem na foto são o Leão e o Pery, dois dos maiores. O Leão pertencia à empresa Leão Jr e Cia e o Pery à Lloyd Paranaense S. A. Aparecem na foto os depósitos em madeira onde eram armazenadas as mercadorias, principalmente erva-mate e madeira. É possível perceber uma pequena armação em madeira montada para o altar da missa e solenidades; possivelmente um coreto para leilão e outras atividades, comuns a esse tipo de festa religiosa. As pessoas aparecem reunidas no entorno desse coreto, na atual rua Barão do Rio Branco.

Raul Ferreira Döepfer, que nasceu em São Mateus do Sul (1924) e foi piloto de vapor, relatou os acontecimentos da festa com grande saudosismo: “Ao alvorecer do dia, às 6 horas, com as caldeiras dos vapores com pressão ao máximo, juntos, com seus apitos estridentes e duradouros, anunciavam a festa. Em seguida, os vapores enfeitados com bandeirinhas coloridas, folhas de palmeiras e pequenos galhos de árvores, encostavam agrupados no local da festa. Após a celebração da missa, ás 10 horas, tinham início as festividades.”, (DÖEPFER,2004, p.67). Havia também corrida de canoas, concurso para a embarcação mais ornamentada (chegou a ter mais de 70 vapores), provas de mergulho e natação onde os vencedores recebiam prêmios. Um momento especial da festa e muito esperado era a procissão de vapores com a imagem de Nossa Senhora dos Navegantes. A procissão seguia até a Reta do Bagre e voltava novamente ao porto.

O culto à Nossa Senhora dos Navegantes, em São Mateus do Sul, veio com o advento da navegação a vapor. Um dos primeiros registros desta festa em nosso município, talvez o primeiro, foi em 02 de fevereiro de 1939. Com o final das atividades deste meio de transporte fluvial, a festa deixou de acontecer por um tempo. A fé na santa continuou a mesma e tempos depois a festa foi retomada. Com certeza, os vapores deixaram saudades. Ao olhar o rio, assim, quieto, como se o seu silêncio quisesse nos dizer alguma coisa, bate uma saudade “daqueles dias”; dos dias de alvoroço, de movimentação de pessoas e barcos, onde o antigo porto era o centro das atenções. Dos dias, que se ouviam os apitos dos vapores.

DÖEPFER, Raul Ferreira. Rio Iguaçu e o Último Apito: homenagem à memória de José Nascimento Teixeira-Capitão Fluvial Regional, Comandante. Curitiba: Torre de Papel,2004

MAUAD. Ana Maria. Através da Imagem. Fotografia e História Interfaces. Rio de janeiro, 1996.

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