Pela janela da fotografia, nosso olhar passeia por esse ambiente do século passado. A primeira impressão que temos é a do silêncio, muito comum nos locais de oração. A própria imagem mostra isso, ao revelar poucas pessoas no ambiente (mulher em posição de oração e o fotógrafo). Essa quietude transmitida pela foto nos faz pensar num mundo transcendental. Para muitas pessoas, as igrejas são espaços sagrados. “Para o homem religioso, o espaço não é homogêneo: o espaço apresenta roturas, quebras; há porções de espaço qualitativamente diferentes das outras. “Não te aproximes daqui, disse o Senhor a Moisés; tira as sandálias de teus pés, porque o lugar onde te encontras é uma terra santa.” (Êxodo, 3: 5) Há, portanto, um espaço sagrado, e por consequência “forte”, significativo, e há outros espaços não sagrados, e por consequência sem estrutura nem consistência, em suma, amorfos.” (ELIADE,1992 p.17) Então me pergunto: o que me fez escolher essa fotografia?

Ver, ver, inúmeras vezes um lugar que um dia existiu materialmente e se foi. Se desfez? É isso que me trouxe essa foto? Uma mulher de costas, anônima, está ajoelhada diante do altar. Nessa representação da figura feminina, é possível perceber o vínculo das mulheres com o mundo espiritual. Essa igreja, toda em madeira, tinha por padroeira Nossa Senhora da Assunção. Foi construída após a chegada dos imigrantes poloneses em São Mateus do Sul, no final do século XIX, inaugurada em 1900. Infelizmente, desmanchada em 1969. As paredes estão ricamente decoradas. Uma infinidade de desenhos com simbologias, revelam muitos significados. As flores, por exemplo, simbolizam a alegria.

No altar Mor, a imagem de Nossa Senhora das Graças que ainda se encontra na Paróquia São Mateus. São três altares em madeira; ao lado direito de quem olha a fotografia, vemos a imagem de São Francisco e um pouco mais abaixo, em tamanho menor, a imagem de Santo Antonio. A imagem do outro altar não é visível. Acima do altar principal, em pintura na parede, as imagens de Jesus Cristo Ressuscitado, São Vicente de Paula e Santa Luisa de Marilac. Essa foi a Ordem dos Padres e religiosas que atuaram em São Mateus do Sul nos primeiros tempos depois da chegada dos imigrantes. Na imagem de Jesus Cristo, a inscrição em latim: “Evangelizare. Pauperibus Mi Sit Me”, “Evangelizar os pobres é a minha missão”. Essas três imagens estão preservadas e fazem parte do acervo da Casas da Memória Padre Bauer. Ainda temos a representação do céu, no pórtico acima do altar, com figuras de anjos, uma coroa e dois ramos de palma. Os arcos, presentes nas janelas e nas colunas internas, da arquitetura em madeira, complementam o visual gótico, próprio desse estilo.

Não temos a data nem a autoria da fotografia. Essa igreja também foi um espaço sagrado em oposição aos espaço profano, onde tudo é homogêneo, neutro, onde o homem não religioso recusa a sacralidade do mundo (ELIADE, 1992, p.18) Mas o que é mesmo que me atrai nas fotografias antigas?

Dubois tem as palavras certas “É essa obsessão feita de distância na proximidade, de ausência na presença de imaginário no real que nos faz gostar de fotografias”. (DUBOIS, 1993. p.348)

Referências

Fotografia: Acervo digital Hilda J. D. Dalcomuni.
ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano. Martins Fontes. São Paulo, 1992.
DUBOIS, Phillipe. O ato fotográfico e outros ensaios. Tradução: Marina Appenzeller.Campinas, Papirus, 1993.

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