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Fundamentos estruturantes d’A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo I

Max Weber. (Imagem Ilustrativa)

Max Weber (1864-1920), foi um dos maiores estudiosos da religião e notável observador da sociedade, tanto é conhecido como um dos “pais da sociologia”. Seus estudos sobre religião, Estado e aspectos econômicos ainda hoje geram debates no meio acadêmico e em alguns círculos da sociedade. É com base em seu trabalho “A Ética Protestante e o ‘Espírito’ do Capitalismo” (1913/1920) que traremos de fundamentos básicos para a compreensão de seus conceitos em paralelo com a atualidade.

Toda estruturação de um modelo organizacional da sociedade depende de um campo que lhe seja fértil para que possa germinar. Dessa maneira, o que compreendemos por “capitalismo” não surgiu a esmo, contou com um sólido conjunto de hábitos que corroborou para seu crescimento e sustentação, da mesma forma que, em determinados lugares, este sistema claudica e deixa muito mais visível sua face sórdida e funesta do que o alvor observado em determinados ambientes – ainda que nestes haja significativo esforço dos seus membros para maquiar quaisquer problemas.

Enquanto o catolicismo historicamente pregou modos de agir baseados na humildade, no desprendimento de bens materiais, no constante estímulo aos deveres de amparo para com os mais necessitados, com os quais o católico seria recompensado post mortem; o protestantismo rompe com tudo isso, fazendo erigir um modelo de pensamento de vida pautado muito mais nas aspirações do indivíduo, no materialismo e nas liberdades individuais, onde cada sujeito deve perseguir seus objetivos e o acúmulo de bens seria uma recompensa de Deus pelo esforço despendido.

Em regiões como a Inglaterra e a Alemanha, os conceitos fundamentais do protestantismo encontraram terreno propício para firmar raízes, isto se deve, basicamente, aos aspectos culturais e divergências ideológicas com relação à Igreja Católica e à série de movimentos cujas sementes vinham sendo plantadas no seio da sociedade – e, com o tempo, irrigadas pela nova seita. As imposições da Igreja, por mais que já não fossem tão imperativas quanto nos séculos anteriores, ainda geravam insatisfação entre o povo dos dois países, que historicamente moldaram-se inclinados ao trabalho e a uma cultura do “recato” se comparados, por exemplo, como que havia nos países ibéricos, com uma cultura da “fidalguia” e da grande valorização do ócio e do desfrutar dos bens. Ademais, não significa que o proselitismo em favor da seita protestante tenha fulminado os crentes no catolicismo da Alemanha, que continuavam em maior número (enquanto os judeus representavam apenas 1,5% do total, contra 61,3% de católicos e 37% de protestantes segundo estudo de Martin Offenbacher). Nenhuma pesquisa social decorre sem dados concretos, portanto, é a partir destes referenciais que são instituídas as bases para analisar a concentração de capital, a oferta e demanda de ensino superior, entre outras variáveis que Weber expõe.

A religião, portanto, é fator de distinção entre os indivíduos no que tange aos princípios que norteiam o acúmulo de capital, pois é determinada pelos fatores ideológicos que constituem a doutrina. A partir do momento em que um grupo passa a tomar unicamente para si suas riquezas sem que haja qualquer constrangimento por parte do aparelho religioso no qual se alicerçam, as futuras gerações iniciaram a existência com condições de infraestrutura de maior qualidade e mais bem determinadas na média, além do processo de formação intelectual voltado para a academia, mas atendendo aos padrões de aplicação prática no mundo de ordem capitalista. Logo, conforme observa Weber, o índice percentual de protestantes ocupando os bancos das universidades é amplamente maior do que o de católicos, em Baden. O sociólogo vale-se dos dados levantados no estudo de seu aluno Martin Offenbacher. Voltando nossa atenção ao levantamento, nota-se que levando em conta o número de representatividade na sociedade e a presença nos bancos universitários, são os judeus os que percentualmente mais ingressavam no ensino superior da região. Não se trata de uma surpresa se levarmos em consideração que os judeus pagavam, em média, 4,19 vezes impostos sobre o capital do que os protestantes, enquanto estes tinham carga 1,62 vez maior do que os católicos. Nota-se que o rendimento médio dos protestantes era ligeiramente maior com relação aos católicos, mas muito inferior ao dos judeus; por que, então, não se atribui o “‘espírito’ do capitalismo” à ética judaica? Sobre esta questão, discorreremos na segunda parte deste texto, bem como sobre as implicações, as influências do pensamento protestante sobre os rumos da sociedade até os dias atuais.

Por: Alexandre Douvan. Acadêmico de Jornalismo na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e membro do grupo de estudos em Ciências Humanas – Mentes Inquietas.

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