Mentes Inquietas

Fundamentos estruturantes d’A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo II

(Imagem Ilustrativa)

Antes de avançarmos em explicar o porquê da atribuição do espírito do capitalismo aos protestantes, devemos tomar nota do que Weber chama de “espírito”. É uma definição de elementar importância para toda a teorização traçada por Weber sobre os aspectos da sociedade capitalista moderna e sua inescapável comparação com o que é chamado de sociedade “pré-capitalista”.

A denominação “espírito” a um conjunto de elementos reunidos por determinado grupo ao decorrer do processo histórico, que consolida seu aspecto cultural, dão significação à cultura. Portanto, ao invés da concepção do senso comum, não se trata de um idealismo metafísico, mas de um conceito histórico. O autor observa que o discurso de Benjamin Franklin (1706-1790), reproduzido no estudo, é um fiel retrato do que é a ética protestante. O trabalho é dignificado e a recompensa monetária que dele provém é enquadrada como uma “dádiva”, justa recompensa ofertada pelo deus cristão. Vê-se o trabalho e o dinheiro como fins, não como meios; daí cria-se uma estrutura organizacional que enaltece o indivíduo que abre mão de quaisquer momentos de ócio/ lazer em nome do trabalho. Que utilidade (renda) pode haver em jogar futebol com os colegas ao final do expediente? O ethos protestante preza diretamente pela utilidade direcionada ao aspecto econômico. A aparência, isto é, a imagem de si transmitida para a sociedade possui enorme importância, uma vez que é a partir do que se concebe sobre o indivíduo que são criadas as possibilidades de galgar degraus na categoria econômica e ascender a estratos sociais (altos) restritos àqueles recatados e hercúleo esforço no trabalho. Uma interpretação da Bíblia (Provérbios 22-29) é citada como um aparato de legitimação da dignificação do trabalho e do lucro (condenados pelos católicos).

Eis, portanto, a diferenciação elementar entre judeus e protestantes. Enquanto os primeiros são parte das camadas da elite da sociedade (acadêmica, financeira etc.), tomam seus lucros como riqueza e meio para engrandecimento pessoal – cultural, intelectualmente etc. –; já de acordo com a lógica do capitalismo protestante, o lucro é meio para ampliar as rendas em investimentos e busca por mais lucros.

De certo modo, décadas antes de Weber, Nietzsche percebera os impactos do ethos protestante na sociedade alemã. O “filósofo do martelo” cresceu em uma família de pastores e era preparado para se tornar um; após determinado momento de sua vida, passou a questionar as determinação bíblicas e, sobretudo, a moral que o cristianismo criara e difundira, transformando o magote em rebanho. Diferentemente do sociólogo, Nietzsche não se vale de dados estatísticos ou pesquisas de campo sistematizadas para elaborar sua argumentação, parte da experiência e observação própria dos encontros com o mundo.

Weber observa que o “capitalismo hodierno, dominando de longa data a vida econômica, educa e cria para si mesmo, por meio da seleção econômica, os sujeitos econômicos” (Weber, p.48). Na compreensão weberiana, “sujeitos econômicos” seriam o empresário e o operário, membros do sistema capitalista moderno, que foi galgando espaço e sobrepujando outras formas de organização econômica. O capitalismo moderno, caracterizado pela reprodução do discurso do “livre lucro” arraigou-se na medida proporcional em que desprezou as circunstâncias éticas do convívio social tradicional, em uma inversão da ordem lógica, na qual o tradicionalismo perdeu espaço para o capitalismo moderno.

A noção de tradicionalismo, por sua vez, nos remete ao modelo organizacional da sociedade/economia que antecedeu a 2ª e a 3ª fase da Revolução Industrial. Com isso, nos remetemos a um sistema no qual se vive do modo como se está habituado e ganhar não mais do que o necessário para manter seu estilo de vida; o homem tradicional valoriza o ócio, o descanso, em detrimento da possibilidade de aumentar seus rendimentos em decorrência da elevação do esforço/tempo de trabalho. A isso Weber chama também de “economia pré-capitalista”. O contraste entre o sujeito tradicionalista e o capitalista moderno está na disposição (e anseio) pelo aumento dos seus lucros, sem se importar profundamente com os efeitos colaterais que isto lhe causará. Weber nos dá um exemplo clarificador:

O homem que, por exemplo, à razão de um marco por jeira na ceifa de trigo estivesse até ali acostumado a ceifar duas jeiras e meia por dia, ganhando assim 2,50 marcos por dia, depois que a remuneração por jeira foi aumentada 25 Pfennige ele passou a ceifar não as três jeiras como seria de se esperar a fim de aproveitar a oportunidade de um ganho maior; em vez de ganhar 3,75 marcos – o que seria perfeitamente possível – o que ele fez foi passar a ceifar menos, só duas jeiras por dia, já que assim ganhava diariamente os 2,50 marcos de antes e, como lá diz a Bíblia, “com isso se contentava”. Ganhar mais o atraía menos que o fato de trabalhar menos; ele não se perguntava: quanto posso ganhar por dia se render o máximo no trabalho? e sim: quanto devo trabalhar para ganhar a mesma quantia – 2,50 marcos – que recebi até agora e que cobre as minhas necessidades tradicionais? (WEBER, p.53).

O “lucro pelo lucro” certamente não é uma das ideias mais lógicas que se impregnou na sociedade, mas o fato é que em algum momento da história determinado grupo projetou tal “modo de ser” como dignificador do homem, valendo-se da estrutura ideológica do protestantismo para legitimar suas ações, ainda que a própria gênese da seita fosse muito mais inclinada ao tradicionalismo do que ao que se tem por capitalismo moderno, mas isto será tratado mais adiante.

O modelo capitalista, é sabido, busca maximizar seus lucros de qualquer forma, uma vez que se trata de sua essência; o que estudiosos como Althusser posteriormente chamaram de “aparelhos ideológicos do Estado” é observado e elencado por Weber sobre a doutrina cristã. Desde sua gênese, o capitalismo moderno tende a estimular a produção e reduzir salários para maximizar o lucro. Citando Pieter de la Cour, que elenca o pensamento calvinista, “o povo só trabalha porque é pobre, e enquanto for pobre.” Logo, cai por terra o mito de que os “mercados livres” trariam prosperidade para toda a população, já que os proprietários dos meios de produção necessitariam de mais mão de obra ao passo em que aumentassem seu mercado; é nítido que para a lógica de funcionamento do capitalismo é necessário que haja quem esteja disposto a trabalhar por salários risíveis, uma vez a única preocupação do empregador é cuidar de si e da prosperidade de seu negócio[1].

O capitalismo demanda de um excedente populacional que aceite salários reduzidos, mas muita mão de obra barata acaba saindo caro, pois não tem o know-how (capacitação técnica) para desempenhar um trabalho de alto nível. Eis a utilidade do mito (Barthes), como uma forma de fazer com que as pessoas acreditem que a formação (técnica) trará benefícios, enquanto serve para dar ao empregador a possibilidade de escolher trabalhadores com capacitação específica para o serviço, o que lhe aumentará os lucros; o “curso técnico” é uma invenção de caráter mitológico que permite ao capitalista selecionar melhor o seu rebanho. Esta linha de pensamento está associada diretamente ao modelo de sociedade capitalista atual, que através de seu aparato ideológico-coercivo sustenta o triunfo de seus mitos.

Uma das “chaves” para a compreensão da tese de Weber é o conceito de Beruf, que pode ser traduzido como “chamamento”, “vocação”, “profissão”. Utilizaremos aqui o termo em alemão para efeitos de não gerar brechas para interpretação errônea. Ao formular suas teses, Lutero previa que a “fé” deveria ser despertada através de um “contato” do indivíduo com o divino, ou seja, a partir do sentimento de que se deveria enviesar pela crença íntima e profunda. Contudo, a atribuição de sentido ao Beruf tornou-se diferente da sua gênese, enviesando pelo caminho do capital. “Não tem cabimento atribuir a Lutero parentesco íntimo com o ‘espírito do capitalismo’”, uma vez que seu trabalho foi o de fundamentar bases das quais determinados grupos tomaram proveito para se legitimar. O que se pode dizer é que Lutero tem uma ligação muito mais forte com o modelo tradicionalista; a subversão da ideia fundadora de uma doutrina não é particularidade do protestantismo (que guinou a “justificar” o capital pelo capital), vê- se, hoje, cristãos católicos apoiando a pena de morte e o ódio ao próximo.

Há muito vemos grupos católicos e evangélicos galgando posições no parlamento, impondo e aprovando projetos que confortam suas verdades de fé frente ao progresso social e científico. Não é necessário consultar um especialista em Ciência Política para verificar que indivíduos como Marco Feliciano, Magno Malta, Everaldo e tantos outros fazem proselitismo em causa própria. Os grandes pastores e religiosos políticos hodiernos não podem de modo algum ser relacionados com a gênese de suas seitas. As ovelhas andam pelas ruas distribuindo panfletos em defesa da propriedade, da família, da moral, contra o comunismo. Por que será?

A ideia moderna de “vocação” em muito contrasta com a blia e a figura de Jesus. Isto se dá por conta de a Bíblia pregar um afastamento da moral mundana em ambos os testamentos. A figura de Jesus, por exemplo, fortalece a representação de um ente tradicionalista, que em nenhum ponto seriamente estudado justifica o acúmulo de capital ou propriedades. Weber dirá que “a posição pessoal de Jesus é caracterizada por sua pureza clássica na prece típica do antigo Oriente: ‘O pão nosso de cada dia nos dai hoje’”. Ora, eis o tradicionalismo em sua versão mais simplificada.

Não é necessário uma profunda dissertação para tornar nítido que diversos grupos são caracterizados pela subversão daquilo que dizem crer, e o fazem com consciência para legitimar, perante aos ignorantes que os seguem, um modelo que apenas justifica anseios pessoais. O que Weber chama de desencantamento do mundo, isto é, a “eliminação da magia como meio de salvação” é de interesse neste momento. Com isto quer-se dizer que a práxis ética do indivíduo rege-se por um princípio racionalizado, não apenas seguindo a moral religiosa no aguardo do sacramento. Levando em conta as atuais circunstâncias, tomamos a liberdade de propor que nos encontramos em processo de reencantamento. Não se trata diretamente do retorno ao sacro, mas do fideísmo mitificado, pelo qual o chefe político-religioso tem o único trabalho de convencer seu potencial rebanho através da duvidosa potência psico-intelectual deste; em decorrência, este público adota seu chefe como líder, um messias defendido e reverenciado, seu poder repousa no anseio de seu povo por um salvador. Este tipo se dissemina pela margem do letramento, ou seja, pela mais extensa camada da população – abrindo caminho para a deliberação sobre os rumos da sociedade. Coloca-se, assim, fé e saber como pontos antagônicos; tal fé rompe com o real, afirma que a ciência está para testar a fé do indivíduo (dizem que fósseis são invenções do maligno), mas sequer significa que sigam os preceitos fundadores da seita, agem e pregam por coisas (como as citadas) que peremptoriamente escapam da concepção lógica. Nas próximas décadas o trabalho centrar-se-á em observar como sucederá esta relação.

Por: Alexandre Douvan. Acadêmico de Jornalismo na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e membro do grupo de estudos em Ciências Humanas – Mentes Inquietas.

[1] A ideia de que as grandes empresas estariam a “criar” postos de emprego para os trabalhadores torna-se defasada na medida em que o maquinário industrial exerce a função de grande número de pessoas – que ficam sem emprego –, reduzindo os gastos do industriário com funcionários. Nesse sentido, os aparelhos ideológicos projetados e reproduzidos pelo grupo dominante mostram sua face mais nitidamente: com veemência o trabalhador crê que a prosperidade do patrão lhe trará, também, a chance de trabalho remunerado.

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