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Havia um poste no meio do caminho…

Fotos: Gazeta Informativa

Fotos: Gazeta Informativa

No feriado de Corpus Christi, deste ano, levei a família para a cidade com um objetivo: procurar um poste. Os leitores podem me dizer: “Mas a cidade está cheia de postes!” Sim, é verdade, mas este era um poste especial. Um poste centenário! Ao chegar na esquina da rua Ulisses Faria com a Barão do
Rio Branco, ficamos observando aquele pedaço da história. Dezenas de pessoas passavam por ali, sem nem notarem o silencioso monumento. Muitos jovens, hipnotizados por seus celulares, esbarravam no velho poste, sem saber que o mesmo foi o responsável por sustentar uma forma de comunicação, quase um tataravô dos telefones atuais.

Chegando mais perto do poste é possível ver que há uma inscrição: “Siemens Patent London N 5”. Sim, este é um poste de telégrafo! Se você é da geração Smartphone, pode estar se perguntando: “Que raios é um telégrafo?”. Bom, o telégrafo foi um sistema inventado em 1837 por Samuel Morse para enviar mensagens a longa distância. Basicamente havia um equipamento no qual a mensagem enviada era codificada em pulsos (Código Morse) e, após viajar por fios, sustentado por postes como o de São Mateus do Sul, chegava ao destinatário que decifrava o código.

Vinte anos após a invenção o telégrafo já chegava ao Brasil. Inicialmente foram construídas linhas curtas, para uso do Imperador, mas rapidamente o governo brasileiro veria a potencialidade daquele tipo de comunicação num território do tamanho do nosso. Em 1867 o Império contrataria a empresa Siemens para fazer a primeira linha de grande porte da América do Sul: a linha Rio de Janeiro – Rio Grande do Sul. A Siemens havia desenvolvido uma tecnologia que evitava a necessidade de a pessoa conhecer o complicado Código Morse. E os postes da empresa, fabricados em Londres, começaram a ser “plantados” em território brasileiro. Um especialista no assunto, o Consultor Verner Dittmer, disse em depoimento sobre a Siemens: “nas atuais localidades de Anhangüera (SP) e de Curitiba (PR), encontram-se erguidos exemplares originais dos postes de ferro dessa linha – descobertos na década de 80 em um ferro-velho do litoral paranaense –, os quais contêm em alto relevo a inscrição Siemens Ltd London”.

Não sabemos ao certo a data em que o poste são-mateuense chegou aqui. Sabemos que Antônio Bodziak, um dos idealizadores da colonização polonesa no vale do Iguaçu, trabalhava importando materiais de telégrafo para o Império e implantando linhas telegráficas, antes de vir para São Mateus do Sul. Também temos registros de nomeações de “encarregados de telegrapho” para São Mateus do Sul já no começo do século passado. Depois que eu “postei o poste” nas redes sociais, instigado pelos amigos Thales Okonoski e Tiago Borges, dezenas de pessoas se manifestaram. Muitos deles apenas se admiraram de passarem por ali diariamente e nunca terem notado o tal poste. Outros, como os amigos Odnei Macalossi, Adriano Dubiel e Edmo Souza Jr., me enviaram materiais que ajudaram a escrever este texto. Foi legal também ver o relato de quem está a mais tempo em São Mateus, como seu Irio Janoski, que falou: “Lembro que quando era guri de calça curta, havia um personagem conhecido como Bonifácio Banana e sempre ficava ao lado de um poste na esquina das ruas Ulisses Farias e Tenente Max Wolf Filho falando ao pé do poste dizendo que estava enviando um telegrama para Palmeira”.

Mas o silencioso poste serve para nos lembrar que a bela história de nossa cidade insiste em sobreviver, mesmo sem receber o devido cuidado. Infelizmente temos visto prédios históricos sendo demolidos e outros em péssimo estado de conservação rumando para o mesmo fim. Mas a história quer seguir altiva, como o poste da Ulisses Faria. Me preocupa apenas que, na pressa louca de viver o presente e na ansiedade insana de antecipar o futuro, estejamos perdendo o passado, sem conseguir interpretar o código das “mensagens” que a história nos manda.

Gerson Cesar Souza
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