Quem anda pelas ruas de São Mateus do Sul facilmente identifica a influência da imigração polonesa que colonizou o município no final de século XIX. São marcas na arquitetura, na culinária e em sobrenomes que dão nomes a ruas e praças. Mas, você já parou para pensar em como os descendentes de migrantes lidam com essa mistura de traços brasileiros e poloneses? O que faz com que, passados tantos anos e tantas gerações após a migração, muitas pessoas ainda se identifiquem como poloneses?

Dissertação de jornalista são-mateuense buscou compreender como a comunicação se relaciona com a forma com que os descendentes de poloneses se reconhecem como parte da etnia. (Fotos: Larissa Drabeski)

Esses questionamentos estão presentes na pesquisa desenvolvida pela jornalista são-mateuense Larissa Drabeski, que resultou na dissertação “Identidade Polono-Brasileira em São Mateus Do Sul-PR: Processos Comunicativos de Expressão Étnica Tecidos em Família”, defendida no Programa de Pós-graduação em Comunicação pela Universidade Federal do Paraná (PPGCOM-UFPR), sob orientação da professora Dra. Valquiria Michela John.

Apresentação realizada pela são-mateuense. (Acervo Pessoal)

A etnia polonesa, embora tenha contribuído para o desenvolvimento da região Sul do país ainda é pouco frequente entre pesquisas de Doutorado e Mestrado. Sobre a presença da etnia em São Mateus do Sul, há dois trabalhos que se concentram na região da Água Branca: a tese de Liliane Lucena sobre a paisagem cultural e espaços de representação, e a dissertação de Rosane Staniszewski, sobre o ensino da matemática em escola polono-brasileiras. “Nosso objetivo era expandir para as demais regiões do município, por entender que havia uma riqueza de significados a serem explorados. Do ponto de vista da Comunicação, buscamos entender como e quais processos comunicativos são usados pelos polono-brasileiros para expressar e dar novos sentidos à sua identidade étnica”, defende Larissa.

O primeiro passo da pesquisa foi a aplicação de questionários que ajudaram a conhecer o perfil geral dos polono-brasileiros de São Mateus do Sul.

Os dados obtidos apontam que a influência polonesa é percebida ainda hoje principalmente na culinária, seguida pela religião, pelas músicas e pela língua polonesa. Ainda que seja baixo o percentual de descendentes que têm fluência no idioma (seja na leitura, na escrita ou na fala), é grande o número de pessoas que conhecem palavras ou frases em polonês. Quase 75% dos informantes do questionário tem algum nível de contato com a língua, o que mostra a força da influência polonesa ainda hoje no município.

Centralidade da mídia e de aparatos tecnológicos

O uso dos meios de comunicação pelos polono-brasileiros também foi investigado. A televisão continua sendo o meio de comunicação mais utilizado, mas as mídias digitais ganham cada vez mais espaço, principalmente por meio do WhatsApp e do Facebook. O consumo de notícias acompanha a tendência e hoje se dá mais pelo digital do que pelo impresso. “A mídia e os aparatos tecnológicos têm espaço central no nosso dia a dia. Daí a importância de pensar em como a presença constante dos meios altera a nossa constituição como sujeito. O enfoque da pesquisa está nos usos sociais que o receptor faz dos meios de comunicação”, reflete Larissa.

A segunda etapa da pesquisa foi focada em duas famílias de origem polonesa no município. Com a reconstrução da trajetória histórica e observações do cotidiano das famílias Przybyszewski, do Passo do Meio, e a Przyvitowski da Colônia Iguaçu, foi possível entender os espaços em que a identidade polono-brasileira é expressa. A colaboração das famílias é apontada pela autora como um dos pontos cruciais para a realização da pesquisa, assim como a participação de informantes dos questionários e o apoio de instituições na divulgação da pesquisa, como o Grupo Karolinka, as paróquias do município e o jornal Gazeta Informativa.

Espaços de expressão étnica

A partir dos dados obtidos na pesquisa, quatro espaços se mostraram de grande relevância para a identidade polono-brasileira: família, a religião, o pertencimento à comunidade e o uso da língua polonesa. Nesses ambientes, a identidade polono-brasileira assume novos significados, não apenas relacionados ao passado da migração para o Brasil, mas principalmente conectados à sociedade atual. Todos esses processos estão relacionados entre si e sob a influência dos meios de comunicação.

“Ao falar de identidade étnica, tratamos de um processo em constante movimento. É natural que os polono-brasileiros transitem entre as duas identificações: por vezes se identificam mais como brasileiros e em outros momentos, mais como poloneses”, explica a autora.

A chegada do rádio e da TV até as colônias de São Mateus do Sul alterou a forma com que os moradores daquele local se informavam. Nas primeiras décadas das colônias polonesas a comunicação acontecia principalmente de forma pessoal ou por informativos impressos. Já os meios de comunicação de massa trouxeram outra forma de se relacionar com o mundo e alterou o ritmo do cotidiano dos moradores.

Agora, um processo semelhante acontece com o uso das mídias digitais. Whatsapp e Facebook alteraram a forma com que as pessoas conversam umas com as outras, se informam e como se relacionam com o mundo, e as diferenças são muito evidentes de uma geração para outra. Para os polono-brasileiros, as novas tecnologias de informação possibilitam também o contato com informações atuais sobre o país de origem dos seus antepassados.

Múltiplas identidades

Quando a identidade étnica é tratada de forma essencialista, com a crença de uma etnia pura ou determinada biologicamente, os resultados podem ser perigosos, como nos casos de genocídios entre etnias. Por isso, a importância de olhar para comunidades como a de São Mateus do Sul, onde a existência de múltiplas identidades acontece de forma harmoniosa.

A pesquisa evidencia quatro espaços principais de expressão e construção da identidade étnica, sempre com a presença dos meios de comunicação.

“A universidade pública nos permite olhar para populações que muitas vezes não têm voz, como é o caso das comunidades de interior, como o Passo do Meio e até mesmo a Colônia Iguaçu, que ainda não tinham sido objetos de estudos. Por isso, esta pesquisa também reforça a importância das instituições públicas de ensino para ajudar a entender e a transformar a sociedade”, destaca a pesquisadora, diante de um cenário nacional de perseguição ao ensino público. O anúncio recente de cortes no orçamento pode inviabilizar a pesquisa em instituições públicas, que hoje correspondem a 95% da produção científica do país.

Como todas as pesquisas produzidas pelas instituições federais, o texto da dissertação é de livre acesso pela comunidade e poderá ser consultado em breve na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da UFPR.

Redação do jornal Gazeta Informativa

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