Mentes Inquietas

Ilusões à esquerda e à direita

Este ano teve movimentado o cenário político, o ex-presidente Lula julgado e condenado em segunda instância enquanto era o primeiro colocado nas pesquisas de intenção de voto para a Presidência da República; demais candidatos e partidos dividem opiniões a respeito da integridade do julgamento; grupos da sociedade e entidades demonstram posições contrárias, excludentes de fato, com relação ao que representa a condenação do líder petista. Tamanha movimentação causada pelo julgamento, que foi alta a repercussão na mídia internacional. Durante todo o ano, com a incerteza dos partidos sobre quem seriam seus candidatos e com grande parte da população desiludida com a política, o que predomina é o mitológico embate dicotômico entre “direita” e “esquerda” que parece estar longe do fim e salienta ódio recíproco, amplamente alimentado pela mídia. Neste contexto, não nos cabe apontar o certo ou o errado reforçando as dicotomias, mas centraremos-nos em desenvolver uma crítica razoável e desatrelada de interesses individuais – sem a paixão partidária que muito se vê – observando as incoerências, negligências e imprudências do processo em curso. Por quê estamos passando?

Diagnosticar o momento pelo qual passamos é uma tarefa difícil, uma vez que o diagnóstico, se é que assim podemos chamar, é realizado por pessoas que estão no meio desta mumunha toda, seja indignando-se ou cooperando. Especialistas de diversas áreas classificam como uma crise. Da democracia? Da economia? Da política em geral? Tudo depende de suas referências. Não falaremos do termo crise pois em outras ocasiões já tratamos – e trataremos – a respeito. O que os últimos anos dão a entender é que há um desprezo em conjunto da razão e da lógica em detrimento do conforto reducionista de encontrar um único “culpado” para um problema que se estende por séculos. Não é de hoje que as sociedades tendem a procurar pela explicação mais simples dos fenômenos que enfrentam, buscando alívio e conforto, como descreve Nietzsche: “Reduzir uma coisa desconhecida a outra conhecida alivia, tranquiliza e satisfaz o espírito, dando-nos, ademais, um sentimento de poder” (O Crepúsculo dos Ídolos, p.50).

O reducionismo procura culpados e salvadores; cataloga, organiza e separa as pessoas em grupos auto-repulsivos, como a ilusão entre esquerda e direita. Enquanto os que se intitulam direita, afeitos ao pensamento liberal, ao conservadorismo religioso e políticas pseudo-nacionalistas (no caso brasileiro), a chamada “esquerda” encontra suas bases no campo das ideias e até o momento não as aplicou de fato. Após mais de uma década de um governo chamado de esquerdista pela sua oposição, o que se viu foi o enriquecimento sem precedentes dos grandes bancos, políticas públicas claudicantes, que camuflaram o problema da fome e da miséria a curto prazo, que não teve continuidade com um projeto perene de desenvolvimento regional. Em um pensamento a curto prazo, foram decisões acertadas – mas que criaram dependentes, não sujeitos livres e com condições de dignidade. Os catequistas apaixonados pelo Partido dos Trabalhadores dirão que tais argumentos não são válidos, uma vez que o país saiu do Quadro da Fome com os investimentos. De fato, negar isso seria brutal hipocrisia, mas o que houve quando Michel Temer cortou auxílios sociais? Sim, o país retorna aos altos níveis de miséria nas regiões menos favorecidas. Dizer que houve melhora na condição de vida foi uma ilusão sustentada pelo Estado em nome de um pensamento messiânico. Lula foi tomado como o messias, o novo “pai dos pobres”, o “político do povo”, “gente como a gente”; ledo engano. Uma determinada classe artística e intelectual apaixonada por seus sonhos utópicos se recusa a enxergar que o Sr. Inácio de 1989 não é o Lula de 2018; aliou-se aos bancos, atendeu aos interesses da indústria, sustentou uma ideologia de fachada, adentrou o armazém de secos e molhados.

Lula é clamado como a “solução” para o país por seus simpatizantes – que obviamente fazem frente ao governo que chamam ilegítimo de Michel Temer. Dilma Rousseff, por sua vez, sustentou-se no poder enquanto Lula tinha força política pelos corredores da Câmara e do Senado; após o início de seus inquéritos na Operação Lava Jato, a articulação de Dilma dificultou-se, não conseguindo aprovar medidas, foi deposta sem a instauração de uma CPI e com a omissão sem precedentes do Judiciário. Rui Barbosa estava certo, o Judiciário é mesmo o Poder que mais falta à República. O amparo popular de Lula se encontra nas lembranças do povo, que via representatividade em sua figura e, pela primeira vez, os grandes estratos sociais tiveram poder de compra. Isso pesa na balança contra denúncias – e diversas evidências – da corrupção do caráter do ex-presidente. Foi Lula quem colocou Michel Temer na chapa presidencial, o próprio Lula afirmou perdoar o atual chefe do Executivo. Haddad, seu candidato em 2018, logo nos primeiros movimentos de sua campanha, deixou-se fotografar abraçado com integrantes do MDB que articularam o impeachment que chama de golpe.

O enredo da tragédia da história do Brasil ganha novos contornos quando um juiz de primeira instância surge alcunhado como um caçador de bandidos, destruidor de quadrilhas e entra para o jogo político, permite ser caracterizado em um embate no estilo “bem contra o mal”, a que juiz algum deveria se submeter. O motivo é simples: o Poder Judiciário não pode embarcar no jogo que se tornou a democracia contemporânea, pois não se trata de um sistema democrático, mas sim de um regime ordenado tecnicamente por um rito e rígidas estruturas que analisam o mérito, a procedência das alegações – enquanto nossa democracia se enquadra no embate entre carisma, palavra e lógica. Sobre isto falaremos adiante.

Enquanto para vastos campos da chamada esquerda (não para a esquerda que estuda), Lula é herói e Moro é vilão, a ideia se inverte para aqueles que se consideram direita (a direita sonolenta do Brasil). Para estes – divididos em vários grupos –, que em maioria ignora cinco séculos de história, Lula é a representação do mal, o causador de todos os problemas do país, o Coringa do Batman Sérgio Moro.

Não é necessário ser o mais arguto dos observadores para notar que determinados grupos que ocupam o poder instigam a massa contra a popularidade de Lula tendo em vistas o seu enfraquecimento no campo político para angariação de votos; sobretudo, movimentos populares surgidos nos últimos cinco anos dizem lutar contra a corrupção, enquanto o lema é basicamente “um país livre do PT”. Ora, significa que o PT é o centro de concentração de todas as pessoas com deturpado senso moral e letárgica noção ética da política brasileira? É fato que muitos integrantes do partido são culpados, mas não apenas. MDB, PSDB, PP, PPS e afins não estão isentos, aliás, encontram-se em situação similar – quando não pior – do que o PT; mas, por que livrando-se do PT a corrupção estaria estancada?

A agenda neoliberal, por sua vez, ignora que os problemas sociais do Brasil são muito mais profundos do que relações mercadológicas. Nitidamente falta-lhes conhecimento da história e conhecimento da realidade das populações marginalizadas. Nietzsche tratou o liberalismo como existente apenas no campo das ideias abstratas, uma vez que sua consumação (ou tentativa) faz apenas culpar o Estado pelos seus fracassos.

No limiar da conjuntura, grupos conservadores religiosos (também autointitulados direita) vêm ganhando espaço, mistificando o processo eleitoral por valerem-se da ignorância de seus eleitores – que são muitos – e completamente fechados ao diálogo. O desencantamento do mundo apresentado por Max Weber, tal como a abdicação das verdades da fé em nome da análise racional em um estado secular proposto por Jürgen Habermas são completamente deturpados por estas terras. Grupos evangélicos e católicos possuem amplos espaços no Legislativo – inclusive com símbolos – e até mesmo no Judiciário, que deveria estar distante de qualquer manifestação do tipo para ter o predicado de imparcialidade. Nesta direção encontramos candidatos que se dizem conservadores liberais, como se não bastasse a incoerência de tal definição, ainda julgam-se cristãos e defendem a pena capital.

Deparamo-nos com uma suposta esquerda que está alheia aos verdadeiros interesses sociais, parece ter desistido de consumar seu objetivo clássico com relação às forças de trabalho empreendidas na sociedade; e com uma direita estilhaçada que ainda não decidiu qual caminho pretende tomar – ou decidiu, alugar ou vender o Brasil. Quando nos valemos da conceituação do mito de Roland Barthes, acabamos por encontrar um cenário no qual não nos é possível definir com certeza a existência de uma esquerda ou, então, de uma direita conforme prega a definição original. Esquerda e direita valem-se da linguagem mitológica no desenvolvimento dos seus discursos, ambas vendem soluções para a vida como uma receita de bolo; em verdade, poucos estão interessados em um projeto de desenvolvimento, mas unicamente em projetos de governo, renovados a cada pleito eleitoral em busca da manutenção do poder. Definir-se dirieitista ou esquerdista nas condições atuais nada mais é do que embarcar no mito semeado pelas classes ocupantes do poder, a briga cega entre eleitores X e Y não passa de uma trama onde as marionetes não têm consciência de estarem sendo manipuladas. Alguns até garantem que de tudo farão para conseguir que seu candidato seja eleito, é a servidão voluntária (La Boétie) em sua face mais simples.

 

Alexandre Douvan. Estudante de Jornalismo na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Membro do grupo de estudos em Ciências Humanas – Mentes Inquietas.

Ponta Grossa, outubro de 2018.

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