(Imagem Ilustrativa)

Foi no final de 1980, ano em que a Volkswagen lançou o Gol e John Lenonn, depois de voltar a gravar um disco, foi morto no início de dezembro. Eu já completara os meus dezessete anos e, depois de um vestibular e de pouco mais de três anos em meu primeiro emprego, pude aproveitar as minhas primeiras férias.

Em companhia de uma prima e de seu namorado, viajamos a bordo de um Fiat 147, o primeiro produzido pela fábrica italiana no Brasil, onde dividi o pouco espaço no banco traseiro com uma bombona cheia de etanol, pois naquela época ainda não era fácil encontrar o combustível em todos os postos no trajeto até uma cidade do litoral catarinense. Foram experiências incríveis na minha, também primeira, viagem sem a companhia de meus pais e quatro irmãos.

Coisas simples como retirar berbigão das rochas, fervê-los em uma lata e comê-los com umas gotinhas de limão, era algo que eu não havia experimentado e acredito que até hoje eu não tenha repetido a sensação do gosto do pequeno molusco, que também era preparado com molho de tomate e alguns pedaços de pão, tudo preparado na areia da praia mesmo. O calor do sol que queimava a pele alva de quem morava no planalto também tornava ainda mais saborosa a cerveja fabricada numa antiga fábrica da Antarctica que operava numa cidade vizinha.

Eu, que ainda não me acostumara às águas do Iguaçu, enfrentava agora as águas salgadas de mar aberto em brincadeiras, durante várias tardes, na companhia de um novo amigo, encontrado na vizinhança da casa daqueles que me acolheram durante as festas de fim de ano.

À noite, saíamos para passear no centro da cidade, iluminado pelas luzes de Natal. Num dos passeios, quase em frente à Catedral, percebi, do outro lado da rua, um dos mais belos sorrisos que vi em minha vida. Ela sorria para mim. Os dentes perfeitamente brancos, destacam-se na pele morena, perfeitamente bronzeada. Perdi-a em meio à multidão, para nunca mais encontrá-la. Mesmo assim, me senti feliz por ser percebido pela garota de cabelos longos e ondulados. Nesta idade é natural que busquemos conhecer, experimentar, até que encontremos alguém que nos complete.

Com a trágica morte de Lennon, uma de suas canções, Imagine, gravada em 1971 voltava a ocupar o primeiro lugar na parada de sucessos em várias partes do mundo. A música retratava muito bem os sonhos da juventude em poder mudar o mundo, convencer as pessoas de que é possível viver melhor e de forma solidária. A canção me marcou ainda mais.

Na minha última noite daquelas férias, participei de um baile de fim de ano. Há muito boas bandas que tocam bailes, mas aqueles músicos e cantores do Quarta Redenção eram fantásticos. Eu, de certa forma tímido, passei quase todo o baile sentado e apreciando a boa música. Pouco antes da chegada de 1981, a banda começou uma série de músicas lentas e eu fui tirado para dançar pela prima da minha prima. Uma garota dois anos mais velha, muito animada e cheia de vida, de planos e de busca por independência.

Chegamos à pista no exato momento em que os primeiros acordes de Imagine eram executados. Ela parecia um anjo e com sua leveza parecia flutuar pelo salão, me fazendo leve também. Em meio a canção, ouviram-se os sons dos fogos que cobriam os céus da cidade enquanto mantínhamos os rostos colados.

O tempo passou e nunca mais voltei a encontrar minha companheira daquele momento mágico. Trinta e oito anos depois, recebi a notícia de sua morte. Não convivemos, mas partilhamos um instante que considero um dos divisores de águas em minha vida. Comecei a transformar os sonhos de adolescente na realidade de um adulto.

Ainda é possível imaginar um mundo melhor, mesmo que os anos tenham passado e que algumas coisas não tenham acontecido como planejado, como gostaríamos.

Adnelson Borges de Campos
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