(Imagem Ilustrativa)

Essa semana fez um ano da partida do meu Querido Pai, meu grande amigo, dia 03 de agosto de 2020 foi um dos dias mais tristes da minha vida, apesar da gente saber que um dia isso acontece, por mais que ele tivesse uma idade avançada e tivesse vivido como quis os seus quase 90 anos, ainda assim é triste a partida, a despedida forçada.

Falando nisso, algumas pessoas mais próximas me perguntavam como foi que eu passei por isso sem grandes traumas? Na verdade sem nenhum trauma, pois sabendo que ninguém veio pra semente, mas sempre carregado de saudades. Comentei isso há algum tempo e me disseram como fazer então pra lidar com essa saudade? Bom, falando sério não tenho nenhuma fórmula, creio que nem exista, mas na verdade o que sempre falei para pessoas conhecidas e mesmo desconhecidas que perderam alguém ultimamente, é que deveria se ater nas boas lembranças, nos bons momentos vividos e principalmente na bênção que foi poder ter vivido com essa pessoa, mesmo que o tempo dela aqui pudesse ter sido maior.

A minha maneira particular de driblar essa dor e um bocado da saudade é bem simples, um tanto infantil talvez, mas funciona bem para mim. Eu continuo conversando com ele, como se ele estivesse ao meu lado, pois na verdade às vezes parece que nem saiu do meu lado. São altas conversas falando de tudo, comento como anda nosso Coritiba, como andam as coisas na política (se é que alguém consegue entender), falo dos netos, dos meus planos, do clima, dos negócios internacionais, das coisas mais diversas que andam acontecendo. Comento de algumas que realmente me espantam, conto algumas piadas que aprendi (mas nunca soube contar), me pego assoviando alguma música de um cantor que ele gostava e discuto com ele a letra, ou lembro-me da semelhança de algo que ele gostava.

Também falo dos planos, do que está dando certo ou não, de como será que deveria ser, como que se estivesse pedindo a opinião dele. E na verdade estou pedindo, na esperança de que de alguma maneira a resposta venha, e às vezes realmente aparece, no palpite de um amigo ou de um filme, de algo da internet, e quando acontece simplesmente olho para o céu e agradeço a atenção dele. Acho que todo mundo admira, ou a maioria admira o seu pai, por diversos motivos, eu admiro por diversos mesmo, mas se destaca a sabedoria e a inteligência dele, pois trocando ideia de qualquer assunto com ele, o que ele desconhecia ele perguntava, não interessava a quem, podia ser ao jardineiro, ao neto, aos filhos, a um desconhecido, e aquilo que ele sabia, não tinha problema em repassar, mas sempre sem impor, dando a ideia para que a pessoa analisasse e achasse se a ideia ou opinião servia. Também era uma pessoa muito prática nas mais diversas coisas, me recordo quando criança, quando saíamos ele sempre falava para eu e meus irmãos que se acaso nos perdêssemos, ele estabelecia um ponto de encontro, nada de desespero ou choradeira. E se não desse certo, era só procurar um guarda, nunca ir com estranhos. Na praia ele falava pra não ir no fundo e lembrar que o mar estava ali fazia milhões de anos, e, portanto quando quiséssemos ou o pudéssemos ainda estaria ali esperando a gente, não era preciso nadar tudo num dia só. Quando um pouco maior, ele ensinava a voltar pra casa sozinho e nos dava algum dinheiro pro ônibus. Fazíamos diversos serviços em casa, não por não poder pagar, mas que em nenhum outro lugar iríamos aprender, era pintura, marcenaria, carpintaria, cortar grama, engraxar sapatos (alguém faz isso ainda?), e não existia vergonha nenhuma em lavar a louça. Lembro-me que certa vez minha mãe viajou e ficou uma semana fora, e aí eu descobri que meu pai cozinhava muito bem.

Sabem de uma coisa, sempre gostei de uma música do Chico Buarque chamada “Meu Caro Amigo”, que ele escreveu para o amigo Augusto Boal, que estava exilado em Portugal, onde ele conta as coisas que estão acontecendo aqui no Brasil. “Mas acontece que não posso me furtar, de lhe contar as novidades, aqui na terra estão jogando futebol, tem muito samba, muito choro e rock’n roll…” e eu aproveitei o gancho e converso com meu querido Pai e vou contando como tudo vai por aqui, como se ele estivesse em algum lugar, esperando essas notícias, assim apenas a saudade impera e a dor já foi pra bem longe, pois a última coisa que ele desejaria era ser motivo de tristeza e dores para alguém. Quem não é esquecido nunca parte totalmente.

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