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Inove!

É comum em palestras e livros sobre o mundo dos negócios, que se aconselhe a inovação, isto é, a criação de um produto ou serviço que ocupe um nicho, que se torne útil no dia a dia das pessoas como nenhum outro do segmento. Há, ainda, aqueles que são mais impactantes no discurso: inovação é criar algo que as pessoas não sabiam que precisavam e, a partir do momento em que conhecem, não podem viver sem. Discorrer sobre inovação e criatividade é algo que os adultos fazem diuturnamente, mas, se fossem mais perspicazes, notariam que os grandes inovadores são as crianças.

Uma criança é capaz de criar personagens, além disso, cria um universo todo em sua imaginação para o desenrolar de suas inocentes brincadeiras. O impulso artístico desenvolve-se mesmo sem ter em mente qualquer conceito do que seja arte. De um pedaço de madeira e trapos coloridos, os pequeninos são capazes de inventar uma espada e um dragão. Sem falar das aventuras que inventam na ausência de adultos para os policiar. E os questionamentos, então! Tudo é passível de dúvida. Milan Kundera advertira que as melhores perguntas são aquelas feitas por uma alma infantil: a simplicidade sem censura em questionar o porquê das coisas e o que é a vida. Ser normal é a última preocupação de uma criança.

Contudo, como bem experimentamos, todos crescem. E é no processo de envelhecimento ao qual todos estamos fadados, que são aplicadas regras e normas de conduta para que as ações sejam cada vez mais parecidas e não causem irritação ao sistema predeterminado. As primeiras normas são impostas pelos pais, que tratam de sossegar os instintos de sua prole em detrimento do convívio social. Tratando se seres gregários como somos, não há o que se possa redarguir a respeito disso: as relações sociais em termos de civilização pressupõe que o indivíduo abra mão de suas particularidades instintivas em nome de uma conduta harmônica com os demais. Mas o lar pode, também, ser um centro de repressão da criatividade ou das ditas “vontades nobres”. Corriqueiramente observamos crianças sendo punidas por terem imaginação demasiada fértil; da mesma forma são vastos os relatos de pessoas mais velhas que foram proibidas de estudar e desenvolver a intelectualidade, em nome da manutenção da estrutura familiar concebida séculos atrás. Deixando o seio familiar, deve-se direcionar os olhares para um dos principais pontos: a escola.

É a escola o local mais rico em multiplicidade de personalidades e de intelectos em construção. Os primeiros anos da Educação Infantil são repletos de descobertas, mas logo vem o primeiro cerceamento pedagógico: uniformes. Não apenas o uniforme físico, todos se vestirão de forma igual, mas também serão condicionados a pensar da mesma maneira. A matemática tem prioridade. Afinal, você não quer ser engenheiro? Para quê filosofia? Ganhará o que com isso? Deixe de lado a poesia, é coisa de vagabundo! Por mais que nada disso seja dito francamente, é o que se dá a entender com a supervalorização das ciências exatas em relação aos demais componentes do currículo.

Não é do interesse, neste momento, entrar em um debate sobre a conceituação de arte ou da expressão artística. Mas nos é importante termos um ponto norteador. O filósofo alemão da segunda metade do século XIX, Friedrich Nietzsche, julga que a arte surge a partir de uma força criativa, ou seja, é típico do sujeito emancipado, que cria a partir de um lampejo que está além de sua própria consciência. Por outro lado, existem também os seres reativos, aqueles que por meio de uma “moralização”, buscam cercear a força criativa alheia para manter sua própria zona de conforto.

O que dirá a pedagogia? Em suma, a pedagogia existe (e de forma romântica) no meio acadêmico, onde o histórico educador brasileiro Paulo Freire é citado incansavelmente por estudantes que, na hora de colocar em prática os ensinamentos, são muito mais verdugos do que freirianos. Regras, regras e regras. Siga as regras se quiser ser alguém, seja como os outros ou então teremos que aplicar medidas corretivas. Assusta saber que são exigidas médias baixíssimas para o ingresso de um aspirante a pedagogo em uma faculdade.

E a criatividade? Nota que durante todo o processo educacional as bases emancipatórias foram dadas em quantidade muito menor do que as normas a serem seguidas. Tanto é que os muros e portões estão nas instituições de ensino fundamental para impedir a evasão e não a invasão. Pelo menos durante 13 anos nos conformamos em estarmos sendo filmados, vigiados e punidos. Após tantas anestesias e deturpações, surge um indivíduo bem apessoado dizendo: inove!

Por Alexandre Stori Douvan

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