(Imagem Ilustrativa)

Hoje, assistindo a um documentário na TV, passei por mais uma sessão de saudosismo. Sei que é verdade, mas ouvir a frase de que “precisamos nos reinventar” doeu um pouquinho. O título era o mesmo que escolhi para a Coluna desta semana. Falavam sobre bancas de jornal e de mais uma profissão que está à beira da extinção: a do jornaleiro.

Em 1977, quando comecei o meu primeiro emprego com carteira assinada, trabalhei numa tipografia. Aprendi muita coisa e tudo serviu como base para as atividades que exerci nestes mais de 43 anos de vida profissional. Por exemplo, você sabe o que é um cícero? Cícero é uma unidade de medida tipográfica que equivale a 12 pontos. Transformado para o sistema métrico, 12 pontos seria o equivalente a 4,53mm no sistema Didot. As fontes que usamos hoje em nossos computadores, usam um o sistema britânico e uma fonte 12 equivale a 4,22 mm.

Então, no meu trabalho na tipografia, fui um Chapista, o sujeito que preparava as matrizes feitas de tipos e acessórios usados para a impressão. Comparando com os atuais métodos de impressão, só éramos um pouquinho mais modernos que Guthemberg quando criou sua prensa em 1439 e revolucionou o mundo com seus tipos móveis. Foi uma profissão com seu charme, pois qualquer panfleto, convite ou jornal passava pelas mãos habilidosas e criativas dos profissionais de uma tipografia.

Hoje, ninguém sabe o que é um componedor, um caixotim de tipos, clichês ou xilogravuras e que entrelinhas também pudessem ser componentes metálicos usados para espaçar um texto. Ler um texto invertido e de cabeça para baixo já não é importante, nem desenvolver cálculos rápidos com múltiplos de 12 para adequar tudo perfeitamente aos espaços disponíveis numa coluna de jornal ou qualquer folha impressa. Já não importa o quanto caro era uma fonte nova de tipos, feitas em ligas metálicas de chumbo e antimônio, e o quanto importante também era mantê-las limpas e preservadas, pois impactavam diretamente a qualidade da impressão.

Qualquer um faz maravilhas com um simples software de edição e imprime com qualidade em sua própria casa. Basta optar por uma infinidade de impressoras disponíveis. Assim, os tipógrafos se tornaram obsoletos e praticamente extintos, processo similar ao que acontece com os jornaleiros e com os livreiros.

Fato é que tipografias, livrarias e bancas de jornais empregavam gente, fomentavam a cultura e a inteligência das pessoas. Também contribuíam para a socialização.

Hoje tudo parece conspirar para que nos isolemos e comemoramos que temos a tecnologia para nos proteger de um vírus devastador.

É incrível, mas tem gente que vai até uma banca para comprar jornal por um motivo diferente. Um jornaleiro relatava que uma senhora pediu para cheirar um maço de jornal velho. Curioso o jornaleiro perguntou o porquê e ela respondeu que o cachorrinho só gostava do Estado de São Paulo, do cheiro do jornal velho do Estadão.

Bancas de jornais vendem cada vez menos jornal, gibi ou revistas. Muitos jornaleiros estão se transformando em chaveiros, vendedores de bebidas ou de pequenos objetos. Em cidades maiores, ninguém sai de casa para ir à banca ao florista ou ao armazém da esquina. Os aplicativos e os motoboys completam o time do isolamento social. A pandemia é só mais uma gota num oceano de motivos para a nossa queda da vida em sociedade.

Não compramos mais jornais ou revistas, temos de graça em nosso mundo virtual uma grande variedade de mentiras ou informações precárias, criadas e espalhadas rapidamente com a tecnologia disponível.

Fico na torcida para que encontremos um caminho de equilíbrio e que voltar ao passado não seja um retrocesso e sim uma forma de resgate de nossos valores e costumes, como o de sentar-se na calçada, tomar uma cuia de chimarrão e cumprimentar o vizinho. Quem sabe, ir até uma livraria, a um café, ler, absorver cultura e desenvolver o senso crítico. Tocar e cheirar o papel. Valorizar mais as livrarias e editores e um pouco menos a Amazon, por exemplo.

Um dia ainda acordamos e fazemos a nossa revolução às avessas, para o bem da humanidade.

Adnelson Borges de Campos
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