Jornal de São Mateus do Sul (PR) e região

Jorge Amado é tema de evento literário que reuniu dezenas de jovens envoltos pela obra Capitães da Areia

I Semana de Literatura foi promovida no Colégio Estadual Duque de Caxias. (Fotos: Alexandre Müller/Gazeta Informativa)

O Colégio Estadual Duque de Caxias, de São Mateus do Sul, promoveu de 10 a 14 de setembro, a “I Semana de Literatura: Projeto Capitães da Areia, um paralelo entre a realidade e a ficção”, onde os alunos dos 9º anos participaram de um circuito de palestras, oficinas e apresentações culturais com diversos profissionais, tendo Jorge Amado como precursor de todo o trabalho que enfoca a valorização da leitura entre os adolescentes.

Tudo começou com o projeto desenvolvido pela professora Dagmara Santana para trabalhar o livro Capitães da Areia de Jorge Amado com as turmas do 9º ano. O projeto abrange cerca de 110 alunos, com idade entre 13 e 15 anos.

“Como sabemos, a maioria dos adolescentes não gosta de ler, ainda mais uma obra que retrata uma realidade da linguagem que não é a deles. Por isso tive de raciocinar para desenvolver uma ideia para incentivá-los”, salienta Dagmara.

A professora conta que ainda no início do ano já iniciou seu planejamento anual e destacou a obra como uma de seus principais objetivos. Desde o início das aulas, a professora buscou incentivar os alunos à prática da leitura, com apresentações, pesquisas, vídeos, slides e muito empenho com a análise literária, dos personagens e capítulos. Eles entraram à fundo no mundo do autor Jorge Amado.

Questionada sobre a escolha da obra e do autor, a professora relata que foi escolhido por ser um dos títulos mais exigidos em vestibulares e no próprio Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), e também pelo seu contexto que engloba várias questões sociais, como o menor abandonado, as crianças de rua, a homofobia, etc.

Capitães da Areia é um romance brasileiro, escrito em 1937 e retrata a vida de um grupo de menores abandonados, que crescem nas ruas da cidade de Salvador — Bahia, vivendo em um trapiche, roubando para sobreviver.

“Sabemos que Jorge Amado para escrever a obra se dedicou ao extremo e inclusive passou dias com meninos de rua para contextualizar a realidade”, enaltece Dagmara. A professora relata que junto dos alunos promoveu uma ação entre amigos para poder adquirir os livros, para que cada um deles tivesse acesso, pois não haviam exemplares suficientes no colégio e mesmo na Biblioteca Municipal. Com o total da arrecadação que foi de cerca de R$ 2,8 mil, adquiriram os livros.

Para complementar o projeto e encerrá-lo com chave de ouro, surgiu a ideia de promover a semana de literatura com palestras abordando vários temas que estão relacionados ao livro, além de atividades culturais e oficinas. “A participação dos alunos me surpreendeu e fico verdadeiramente emocionada com o resultado.”

Segundo os alunos, um dos maiores desafios na análise literária é trazer a realidade da década de 1930 aos dias atuais e perceber que os problemas continuam os mesmos.

Lecionando há 27 anos, a professora conta que sempre adorou livros, mesmo tendo pouquíssimo acesso e incentivo durante sua juventude. Com sua formação acadêmica, passou anos impregnando uma metodologia de conteúdo e provas, e se deparou que hoje em dia há a necessidade da adaptação, principalmente na literatura, pois os jovens tem várias opções mais prazerosas do que a leitura.

Segundo a docente, falta o incentivo por parte dos pais e dos colégios, que muitas vezes têm seus professores questionando que não adianta pedir para os alunos lerem, pois não o farão. “Temos de incentivar e criar alternativas criativas para resgatar esse gosto pela leitura dos alunos, mesmo que não se consiga 100% de totalidade entre eles, mas que apenas um, dois ou três se interessem já será válido e poderão colaborar passando para frente.”

A idealizadora do projeto e da semana literária enaltece a responsabilidade de todos os jovens. “Como professora de português, se eu não deixar uma sementinha ali plantada em cada alunos, qual será meu objetivo? Temos de ter mais investimento por parte dos poderes públicos no incentivo à leitura, com melhores instalações para as bibliotecas públicas, aquisição de acervos e acesso à eles. Culpamos os adolescentes em não se interessarem pela leitura, mas o que nós estamos fazendo para isso mudar? Temos que responsabilizar a sociedade de uma forma geral. A leitura deve ser baseada em prazer e não obrigação”, conclui.

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