O trabalho na ervateira durante alguns anos na primeira metade da década de 1980 foi duro. Serviço braçal mesmo, mas não há queixas pois foi uma fase que deixou muitas saudades. Era um tempo difícil, com inflação galopante acabando com o poder de compra dos salários. Lembro bem que para você ter uma simples bicicleta era necessária muita economia. O normal entre adolescentes e jovens era a compra de “bikes” usadas, algumas muito usadas! Novas eram pra quem já tinha uma remuneração melhor.

O mercado das bikes era disputado por Caloi e Monark e os freios eram acionados por pedal. A inversão do movimento de pedalar fazia com que uma peça metálica, se não me engano de latão, dentro do cubo da roda, se expandisse e travasse a roda por atrito. O desgaste dessas peças era muito rápido e a substituição frequente. Freios com manetes no guidão, que hoje são o padrão, eram pouco utilizados. O problema é que para o bom funcionamento do freio no pedal era indispensável que a corrente transmitisse para o mecanismo a força aplicada no pedal e não eram raras as falhas desse sistema, como veremos na história do Beto.

Tínhamos o hábito de voltar um pouco mais cedo do intervalo para almoço. Antes de iniciar o turno da tarde, ficávamos ali uns 20 minutos batendo papo, principalmente fora do período de safra e naquele dia foi assim. Eram 3 da tarde e estávamos na pausa para o lanche. Um dos colegas lembrou da laranjeira ao lado do Clube Umbenau – clube que hoje está às margens do Rio Iguaçu e na época ficava na Rua Dom Pedro II, ali onde tem o Carvalho. Mais ou menos onde é a sede do Tribunal Regional Eleitoral, na esquina com a rua João Gabriel Martins, haviam 2 pés de laranja no terreno. “Beto, o que acha de ir buscar umas laranjas lá ao lado do Umbenau? Passei lá e o pé tá carregado” indagou um dos colegas. “Eu vou se me emprestarem uma bicicleta” respondeu prontamente o Beto. Rapidamente conseguimos o veículo. Não lembro de quem era a bike usada na aventura.

“Esse polaco é bem louco! Vocês não deviam mandar ele, ainda mais com uma bicicleta que não conhece” gritou Nando que olhava a cena do Beto empolgado subindo a Barão do Rio Branco. Aguardamos uns 20 minutos até ele reaparecer lá na esquina da 21 de setembro com a Barão – havia levado um saco de juta, embalagem que recebíamos com erva-mate cancheada vinda dos produtores que vendiam para a ervateira. O maluco deve ter colhido todas as laranjas que conseguiu pegar e no saco talvez tivessem umas 5 dúzias da fruta. Beto veio pela frente da prefeitura equilibrando aquele saco no guidão da bicicleta. Ainda lembro que parou em frente à loja do Mário Ehlke para ajustar a carga antes de encarar a decida!

A receita para dar problema estava pronta. Descer uma rua íngreme de bicicleta e conduzindo com apenas uma das mãos enquanto segurava um saco com 50 ou 60 laranjas equilibrado no guidão. Ah! E tinha o freio no pedal. Era um verdadeiro teste de coordenação motora e equilíbrio e o Beto não passou!

O pavimento da Barão do Rio Branco, como em grande parte da cidade, era de pedras sextavadas cujas frestas se abriam com o tráfego e com as chuvas que carregavam a areia de baixo das pedras. O pior dos mundos para se andar de bicicleta. Mais ou menos em frente ao antigo cinema, a roda da frente entrou numa fresta dessas e o resultado foi o arremesso do amigo Beto e suas laranjas na via. Ele não havia amarrado a boca do saco e ao caírem as laranjas se espalharam, restando apenas umas poucas no saco de juta. Levantou-se rapidamente. Cair da bicicleta é ruim, mas o pior é saber que as pessoas estão vendo o fiasco e provavelmente rindo. Subiu na bike e pedalou pra sair logo dali. Nando ainda comentou: “Eu não disse?”

Por mais que houvesse de fato a preocupação com o pobre colega que chegou esfolado, éramos todos piás e a zoação veio antes de perguntar sobre as dores do amigo. O polaco Beto, ao ver as risadas meio disfarçadas, foi tomado pela ira. Arremessou uma laranja na cabeça do Nando depois que esse perguntou quantas laranjas ele havia salvado do desastre. As outras laranjas ele usou como munição até esvaziar o saco. No final ninguém provou as laranjas e tivemos que retornar ao trabalho.

Até o final do turno tudo ficou bem e o próprio Beto começou a achar graça daquilo. Foi pra casa todo esfolado e também não provou nenhuma laranja, que por sinal estavam com as cascas bem verdes. Duvido que estivessem boas!

Luís Ferraz
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