Lauro Ferreira em ação através das ondas do rádio. (Éber Deina/Gazeta Informativa)

A comunicação e a transmissão de informações nem sempre ocorreram com a velocidade e a acessibilidade manifestadas nos dias atuais. O desenvolvimento da tecnologia acelerou e facilitou o processo de troca de informações. O papel desempenhado por algumas pessoas pioneiras na comunicação da região serviu como espaço para as vozes da música caipira e gaúcha tradicionais do interior dos municípios da Lapa, Antonio Olinto e São Mateus do Sul.

Lauro Ferreira da Silva nasceu no dia 09/09/1941, na comunidade da Água Amarela de Cima, interior do município de Antonio Olinto. Oriundo de uma família de pequenos agricultores da região, ajudou os pais na lavoura, enquanto iniciou os estudos primários ainda na comunidade. Durante o período de 1952-1954 mudou-se para Curitiba a fim de dar continuidade às atividades escolares, retornando à terra natal para novamente colaborar com a agricultura praticada por seus pais.

A segunda saída de casa aconteceu em 1962, em direção ao Quartel da Lapa, no 15º Grupo de Artilharia de Campanha Autopropulsado (15º GAC AP) para servir no Exército Brasileiro. O Brasil vivia um contexto de ascensão dos militares ao poder, período do qual Lauro relembra a efervescência do movimento dentro do Exército. “Chegamos a viajar para São Paulo e ficamos entrincheirados, mas felizmente a situação se resolveu e retornamos à Lapa.” Foram 31 dias de espera, período em que ele recorda o estado de alerta constante vivido. “Dormíamos de capacete de aço e cinturão, tudo preparado para o caso do comando nos chamar”, relata Lauro.

O contato com a comunicação

Em função do desejo de voltar a trabalhar com os pais, Lauro acabou não seguindo a carreira militar. Após esse retorno à casa da família acontece o primeiro contato com a comunicação, o Serviço de Auto-Falantes São José, que funcionou durante as décadas de 1960 e 1970. “Começamos a trabalhar com auto-falantes, indo animar festas, partidas de futebol e eventos promovidos nas comunidades da região”, relembra ele. Esse serviço funcionava como uma espécie de rádio para divertir e animar as pessoas. “Fazíamos a apresentação como se fosse uma emissora de rádio, com dedicatória de músicas rodadas diretamente dos discos de vinil. Chegava a fazer eco nas festas.”

Envolvido com o esporte na comunidade da Água Amarela, Lauro participou da organização da equipe do Guarani Esporte Clube, que disputou alguns torneios de futebol na região. Esse fato acabou rendendo uma entrevista para a Rádio Legendária da Lapa, no ano de 1975. A tranquilidade e clareza na fala proporcionaram um convite para que ele participasse da programação da rádio, nos programas “Rancho da Amizade”, “Cambuca do Nhô Jeca”, “Programa do Sargento Miguel”, entre outros.

Os festivais de música caipira

Com o objetivo de promover a música caipira e gaúcha tradicionalmente produzidas no interior dos municípios da região, Lauro começou a organizar festivais de música no final da década de 1970. O primeiro foi realizado na comunidade da Carqueja, interior do município da Lapa. A ideia foi incorporada pela Rádio Legendária, como forma de promoção do Clube da Amizade. “A iniciativa de formar o Clube foi do João Francisco Siqueira (morador do município de Antonio Olinto, também foi vereador pela Lapa e incentivador da cultura, religião, economia e esporte locais), porque a rádio passava por um momento difícil e estavam querendo levá-la para Campo Largo.” A contribuição dos colaboradores permitiu que as atividades continuassem ocorrendo no município da Lapa. O Clube foi formalizado em 1957 e chegou a ter 20 mil sócios. “Os festivais pela Rádio Legendária foram realizados entre 1979 e 1989, colaboração que teve fim devido a outras funções que precisava desempenhar”.

Os quatro mandatos exercidos como vereador no município de Antonio Olinto entre 1983 e 2001, e a rotina como lavrador fizeram com que Lauro se desligasse da Rádio Legendária da Lapa. Assim, em 1990 ele começa a colaborar com a Rádio Difusora do Xisto de São Mateus do Sul, participando do programa “Na Roda do Chimarrão”. “Tinha o Clube Unbenau perto da Prefeitura de São Mateus do Sul e o programa era feito ali ao vivo com muita música.” Novamente, Lauro interrompe as colaborações em decorrência de suas outras atividades. O retorno acontece ainda pela Rádio Difusora do Xisto, em 1998, com o programa Recordando o Passado, que permanece nos dias atuais na programação da emissora.

A escolha do nome do programa continua muito viva na memória de Lauro. “Lançamos uma campanha para que os ouvintes escolhessem o nome, o que rendeu uma grande caixa de madeira com muitas cartas de sugestão.” Ele continuou a desenvolver os festivais de música em paralelo às suas outras responsabilidades. “Fazíamos festivais beneficentes para os hospitais e pessoas necessitadas. Nos meus programas todos têm vez e voz, independente de quem seja a pessoa.”

O legado e perspectivas futuras

Após 53 festivais realizados na região da Lapa, Antonio Olinto e São Mateus do Sul em paralelo com a atividade no rádio, Lauro reflete sobre a importância desses trabalhos. “Existiam poucos programas de música caipira nas rádios da época, o que melhorou e se manteve a partir das nossas primeiras experiências.” Dar espaço para os músicos da região sempre foi o objetivo. “Nós, na região, temos muitos talentos tocando música caipira, gaúcha e tradicional, inclusive alguns que conheci e tocaram em festivais acabaram se profissionalizando na música e seguiram esse caminho.”

Ao ser indagado sobre o futuro da música caipira nos tempos modernos, tendo em vista às facilidades proporcionadas pela tecnologia, Lauro se mostra confiante. “A música sertaneja e gaúcha caipira continuam fortes, aqui mesmo na Água Amarela, existem crianças que já estão se tornando pequenos músicos através da gaita.” O apoio da família sempre foi algo que o motivou. A partida de sua querida esposa e incentivadora Zélia, em 2018, fez com que Lauro tomasse uma pausa na realização dos eventos. “Na hora que eu penso em voltar, ainda fico meio indeciso, os convites para organizar festivais estão sempre aparecendo.” A história de Lauro Ferreira da Silva na comunicação não para e ainda segue gerando frutos à cultura e a música popular da região.

Programa Recordando o Passado

Lauro Ferreira segue comandando o programa “Recordando o Passado”, que vai ao ar todos os domingos, das 13h45 às 15h, pela Rádio Difusora do Xisto. Como o nome sugere, as músicas reproduzidas por ele variam entre as vertentes da música caipira e gaúcha de raiz, passando por sucessos e canções que embalaram diferentes gerações de ouvintes. O serviço de sugestão de músicas é realizado através dos números (42) 3532-1644 e (42) 3532-2489.

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