Histórias de Terra e Céu

Ludovico Bieniek, o imigrante pintor

Durante o mês de agosto fiz uma palestra na 25ª Tradycje Polskie falando sobre o orgulho polaco em São Mateus do Sul, e mostrei que aquela ideia de que os imigrantes eram pessoas ignorantes era totalmente equivocada. Mesmo que muitos deles não tivessem estudo, a carga cultural que trouxeram da Polônia era algo de encher os olhos. E quis o destino que, apenas uma semana após esta palestra, eu pudesse “encher os olhos” com as obras de um polonês genial que viveu em São Mateus. Embarque comigo nesta história!

Quem passa pela BR-476, entre o posto Cantu e o trevo de Antônio Olinto, nem imagina que naquela região, numa casinha de madeira, há um tesouro escondido. A guardiã deste tesouro é dona Rosália Bieniek, conhecida por todos como “dona Rosa”. Foi ela quem me recebeu para uma conversa numa manhã de sábado e me contou sobre a vida de seu sogro, um gênio da pintura.

Ludovico Bieniek nasceu no sudeste da Polônia, em 1893. Era filho de Wojciech e Maria Bieniek. Imigrou para o Brasil em 1908, trazendo em sua pequena bagagem uma maleta de pintura. Tinha orgulho em contar que seu tio, Roman, havia sido aluno de Jan Matejko, o maior pintor polonês. E seguindo os passos do tio, Bieniek conseguiu ser aceito como aprendiz no atelier de Alfredo Andersen, considerado o “Pai da pintura paranaense”, certamente o maior mestre de pintura na época. Ludovico estudava três vezes por semana e, para se manter, trabalhava em jornais poloneses, fazendo traduções. À noite integrava a banda Czarniecki, da Sociedade Tadeusz Kosciuszko, tocando seu violino.

Com o tempo ficou difícil se manter em Curitiba. Bieniek andou por vários lugares no interior do Paraná, trabalhando como agrimensor e comerciante, mas sua grande paixão seguia sendo a pintura. Acabou se instalando em São Mateus, às margens do Iguaçu, cenário ideal para viver sua arte. Comprou terrenos em Três Barras e Antônio Olinto, onde realizou outra “obra de arte”: plantou dois mil pinheiros, num dos primeiros casos de reflorestamento na região.

Apaixonado pela natureza, amava fazer longas caminhadas em meio às árvores e junto aos rios. Faleceu aos 92 anos, durante uma dessas caminhadas. Seus cerca de 600 quadros foram distribuídos entre os filhos, assim como seu velho violino, que está com um neto, em São Paulo. O atelier, onde Bieniek estudava com Andersen em Curitiba, abriga hoje o Museu Alfredo Andersen, e uma das belas pinturas que existe lá é exatamente a que ilustra essa coluna. É a imagem do aprendiz Ludovico Bieniek, pintada pelo próprio Andersen. Mas o mais incrível é que na casinha de madeira de Antônio Olinto, onde muitos dos quadros do seu Ludovico são guardados por dona Rosa, há uma pintura exatamente idêntica, uma cópia que Ludovico fez do trabalho do mestre. Item raro e de altíssimo valor artístico, como todos os demais trabalhos deste gênio imigrante. Seria sonhar demais ver os quadros de Ludovico Bieniek reunidos em uma exposição, ou mesmo fotografados e gerando um livro?

Até a próxima semana e céus limpos para todos nós!

Gerson Cesar Souza
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