Pedro, o primeiro filho de Jéssica e Thyago, nasceu antes do programado, mas a ciência e o carinho dos pais são fundamentais para um crescimento saudável. (Fotos: Acervo pessoal)

Gerar uma vida é uma das sensações mais maravilhosas que se pode ter e, independente da maneira como ocorra, o nascimento de um bebê é algo muito marcante na vida dos pais, em especial da mulher. O desejo de toda mãe é ter uma gestação tranquila e um parto sem preocupações, mas muitas vezes não é isso que acontece. Todos os anos, 15 milhões de bebês prematuros nascem no mundo. Isso representa mais de 10% do total de partos.

No Brasil, são 340 mil partos prematuros por ano, o equivalente ao nascimento de 6 bebês antes da hora a cada 10 minutos. A prematuridade é quando um bebê vem ao mundo antes de completar as 37 semanas (9 meses) de gravidez, e diversos fatores podem provocar o fim de uma gestação antes do momento esperado, como hipertensão, diabetes gestacional, idade materna, malformação fetal e demais patologias que atingem a gestante.

Para muitas famílias, a experiência de ser mãe e pai de um bebê prematuro é muito desafiadora. Nos casos em que é necessário internação hospitalar, os pais precisam se adaptar a uma rotina ainda desconhecida e pesada. Em entrevista exclusiva ao jornal Gazeta Informativa, Jéssica Kuczera, de 26 anos, natural de Irati e residente de São Mateus do Sul, abre o seu coração e muito emocionada relata um pouco sobre a sua experiência de como é ter um filho prematuro. Ela deu à luz a Pedro, seu primeiro filho, em dezembro de 2021, quando estava com 33 semanas e 6 dias. Pedro passa bem e já está em casa.

Jéssica é instrutora de pilates com graduação em Educação Física e concluiu neste ano a graduação em Fisioterapia. Seu noivo se chama Thyago Silveira Cruz, tem 28 anos de idade, é natural de Porto União (SC), formado em Educação Física, porém é empreendedor, proprietário de uma barbearia em São Mateus do Sul.

O início de tudo

Jéssica e seu noivo iniciaram um relacionamento amoroso há 4 anos e 9 meses. “Isso aconteceu quando eu residia em União da Vitória devido meus estudos no período matutino e noturno. Com 8 meses de namoro e conclusão da minha primeira graduação, decidi retornar para São Mateus do Sul, desde então nossa presença na vida um do outro se fazia constante, porém decidimos somente morar juntos, quando minha sogra faleceu devido ao Covid, em dezembro de 2020. Thyago sempre deixou claro a vontade que tinha em ser pai e respeitou a minha decisão de esperar devido ainda não ter concluído a minha segunda graduação”, relata.

O Pedro ganhou o mesmo nome do padrasto de Jéssica. “Ele me cuidou desde pequena e boa parte do que eu sou agora eu devo a ele. Sempre foi um paizão pra mim e não existe homem melhor que ele pra ocupar essa função na minha vida. Foi uma forma de homenagea-lo, por tudo que ele fez e faz por mim. Thyago aceitou desde o início, e abriu mão de escolher o nome devido esse motivo”, expõe Jéssica.

Quando sua sogra faleceu, a vontade de ser pai falava mais alto, mas mesmo assim ele respeitou. Porém, no início de 2021, começou a aflorar a vontade de ser mãe. “Sempre que eu menstruava eu me frustrava, mesmo tomando anticoncepcional e sabendo que seria improvável uma gravidez. Então, em abril nós dois decidimos parar o anticoncepcional, sabendo da possibilidade de levar alguns meses para engravidar. Menstruei o primeiro mês, no segundo percebi o atraso. Decidi então, fazer o teste de gravidez faltando uma semana para o Dia dos Namorados. Realizei o teste na casa da minha cunhada, e positivou. Eu tremia de tanta felicidade e só pensava em contar para o Thyago. Fiz o teste de sangue e montei uma caixinha para dar a notícia ao novo papai! Entreguei como presente do Dia dos Namorados. A surpresa foi linda e depois de contar aos nossos pais, contamos aos amigos. Desde então nossa vida mudou completamente”, relata.

A gestação

O início da gestação foi bem tranquilo, Jéssica sempre foi ativa fisicamente, estava praticando crossfit há mais de um ano e meio quando descobriu a gestação, porém resolveu desacelerar, mas se manter ativa. Realizou pilates e circuito funcional com adaptações até descobrir a complicação na gestação. Fez acompanhamento com fisioterapia pélvica na clínica onde trabalha a fim de tentar um parto normal. “E eu realmente estava preparada para isso. Realizei meu pré natal pelo SUS e pelo particular com a doutora Aline Wrzesinski do Mais Saúde Centro Médico de São Mateus do Sul”, frisa. Com 30 semanas de gestação a médica percebeu que a sua barriga havia se mantido na mesma perimetria da medição anterior, então pediu uma doppler fetal, exame específico para verificar o fluxo sanguíneo da mãe para o feto, para um possível diagnóstico de Restrição de Crescimento Intrauterino (RCIU).

Após a realização do exame foi verificado que o Pedro estava mesmo com baixo peso para a idade gestacional, mas ainda não era possível realizar o diagnóstico. A indicação era realizar o exame depois de 15 dias e mudar os seus hábitos dentro desse período. De nada adiantou, após os 15 dias o Pedro foi diagnosticado com RCIU, uma grave complicação da gestação. O motivo era insuficiência placentária. “Minha placenta não estava passando para ele os nutrientes necessários para ele crescer dentro do útero. Assim que a doutora fez o diagnóstico indicou procurar um hospital para fazer meu internamento e nos perguntou se daríamos entrada pelo SUS ou iríamos querer particular com algum colega da área, pois haveria a possibilidade de uma interrupção da gestação. Fomos até ao Hospital e Maternidade Doutor Paulo fortes, para dar entrada pelo SUS. Nesse momento já tinha em mente que o parto normal não seria mais viável. Mas tudo bem, a saúde do Pedro era mais importante do que a via de parto”.

Quando Jéssica deu entrada no hospital, a doutora Karla Aguiar passou a cuidar do seu caso, a acompanhando semanalmente e sanando suas dúvidas sempre que elas a atormentavam. Conseguiu encaixe para fazer a doppler semanalmente em União da Vitória, dentro do grupo de gestantes de alto risco. Seu parto seria realizado no Hospital APMI devido a possibilidade da necessidade de uma UTI neonatal. “Minha gestação passou de uma gestação perfeita para um pesadelo. Fui orientada a monitorar os movimentos do Pedro dentro do útero, e seus batimentos cardíacos. Em caso de redução de um dos dois eu deveria ir imediatamente ao hospital, porque era sinal que ele estava entrando em sofrimento fetal. A cada redução de movimentos, meu coração parecia parar de bater. Eu poderia perder ele a qualquer momento. Fiz o máximo de repouso possível conforme indicação médica, me hidratei como nunca devido ao baixo líquido amniótico e recebi o máximo de apoio e de carinho do meu noivo. Sem ele, eu não sei como realmente seria. Ele era extremamente paciente e me acalmava quando eu começava a surtar. Precisava manter a calma para não provocar um parto prematuro. Ele sempre foi e é um pai maravilhoso”.

O tratamento era realizar a doppler semanalmente em União da Vitória para monitorar o fluxo sanguíneo entre mãe e o bebê, com a principal meta de chegar às 34 semanas. “Cada dia a mais que ele ficava na minha barriga, seriam menos 3 dias de UTI e menos risco de complicações da prematuridade. Foram 3 semanas angustiantes. Nossa última doppler foi realizada com 33 semanas e 6 dias. O médico responsável pela realização das dopplers indicou procurarmos o hospital para dar entrada no internamento. Fomos até a APMI onde fui internada para realizar uma cesárea de emergência. Minha cesárea foi realizada no mesmo dia de internamento. O Pedro nasceu às 16h35, do dia 22 de dezembro de 2021. Pesando 1.595 kg e 41 cm de comprimento. Eu não tive o privilégio de ver ele logo após o parto, não segurei ele em meus braços e nem vi a cor do cabelinho dele. A médica somente me mostrou ele rapidamente e o encaminhou direto para a uti neonatal. Mesmo sabendo das intercorrências possíveis de um parto prematuro, eu conseguia respirar aliviada, porque mesmo que fosse por sonda, ele estaria se alimentando, mesmo que fosse sob ventilação mecânica, ele estaria respirando”, relembra.

Dois dias após a cesárea, Jéssica recebeu alta. “Que dor de deixar ele no hospital e ir pra casa. Recebi alta em prantos. Mas eu sabia que seria impossível levar ele na condição que ele se encontrava. Ele precisava estar lá”, conta.

A primeira vez que o casal pegou o filho Pedro no colo, foi no dia 14 de janeiro de 2022.

Pedro ficou 25 dias na UTI para ganho de peso, e graças a Deus ele não teve nenhuma intercorrência. Desde que entrou na UTI, só evoluiu, e mesmo fazendo uso de oxigênio, o desmame dele foi tranquilo. “Nesse período, eu realizava diariamente as ordenhas de 3 em 3 horas para levar para ele no próximo dia no momento da visita. Essas visitas eram diárias e curtas, com 30 minutos de duração, mas todos os dias estávamos lá, esperando para ver nosso pequeno. O Thyago permaneceu comigo todos os dias”.

Enquanto o Pedro se recuperava na UTI, “nós ficamos na casa de apoio Amor Fraterno, um lugar extremamente acolhedor e que tem como principal objetivo acolher familiares de pacientes que necessitam de internamento. Lá passamos o Natal e o nosso Ano Novo. Um início de ano bem diferente do qual estávamos acostumados e o qual realmente, nunca imaginamos passar. A Casa fez nos sentirmos abraçados mesmo longe dos nossos familiares”, conta. Depois que o Pedro saiu da ventilação, “nos permitiram pegar ele no colo pela primeira vez. Foi uma emoção sem tamanho! Ele era tão, mas tão pequenininho que sobrava espaço em meus braços. Foi emocionante pensar o quão forte ele foi o quanto ele ainda estava sendo”.

Pedro indo para casa no dia 20 de janeiro de 2022.

Após alguns dias sem fazer uso do oxigênio e com 2.300 kg, o Pedro ganhou alta da UTI. Foram necessários 4 dias de internamento intermediário, onde Jéssica foi ao hospital cuidar dele e o Thyago retornou para São Mateus do Sul. Nesse período, as enfermeiras auxiliaram Jéssica na amamentação, Pedro saiu da sonda da UTI e foi para o peito. “A amamentação foi bem difícil pra mim, onde logo no primeiro dia o peso dele baixou. Somente no terceiro dia ele ganhou algumas graminhas. Esse ganho nos possibilitou ir para casa. Que alegria!”.

Papai contou nos dedos os dias para poder ir nos buscar! “Saímos da maternidade no dia 21 de janeiro de 2022. Papai Thyago, vovô Mauro e tio avô Amauri estavam nos esperando na porta da maternidade! Ali passou um filme na cabeça e o sentimento de gratidão tomou conta do meu coração. Agora sim, nós estávamos completos e íamos cuidar do nosso pequeno Pedro”, relata.

Jéssica e Thyago levam Pedro, o primeiro filho do casal, todo mês ao pediatra. O bebê está com 2 meses e 14 dias, com 3.215 kg, 53 cm e se alimentando somente do leite materno.

Mesmo em ambiente de UTI, o Pedro foi uma criança abençoada. “Vivenciamos famílias chorando pela perda do seu bebê. Com muita fé, a saúde do Pedro se manteve estável durante todo o internamento. Com essa entrevista, e revivendo tudo de novo, me sinto uma pessoa muito abençoada. Meu noivo cuidou muito da minha saúde mental e física durante todo esse período difícil, foi minha base e meu porto seguro. Viveu cada momento da minha gestação comigo, foi em todas as consultas marcadas mesmo que fosse esperar do lado de fora da sala. Me sustentou nos momentos difíceis e comemorou comigo todas as evoluções do quadro do Pedro. Sabemos que a gestação e o puerpério é um momento de instabilidade hormonal e ter o apoio e a paciência dele deixou tudo muito mais fácil pra mim. Nossas famílias, mesmo que longe, permaneceram o mais perto possível com mensagens e orações e os nossos amigos se faziam presente todos os dias, com mensagens de força e motivação”.

Jéssica conta que atualmente fazem acompanhamento mensal com o pediatra. Pedro está com 2 meses e 14 dias, com 3.215 kg, 53 cm e se alimentando somente do leite materno. “Ele é uma criança super tranquila, tem uma saúde de ferro, e está cada dia mais esperto. Faz uso somente de ferro e vitamina D. Ele é a alegria dos nossos dias e mesmo tão pequenininho sempre tem algo a nos ensinar. Eu passei tanto medo em ver ele magrinho, então hoje, eu vibro muito com cada grama que ele ganha, em cada tamanho de fralda que ele deixa para trás. Ele é um guerreiro, e eu fico imaginando o ser humano incrível que ele vai ser. Agradeço muito por ele ter nos escolhido! Foi um prazer gestar ele e me orgulho de tudo o que passamos e vivemos juntos. Estamos mais fortes do que nunca! Obrigada Pedro”, conclui.

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